As duplas grafias como falsa questão

Lúcia Vaz Pedro, cumprindo uma promessa, vem, agora, tentar esclarecer a questão das duplas grafias.

(…) a existência de uma dupla grafia para a mesma palavra confirma a democraticidade da língua, que respeita as duas pronúncias: a de Portugal e a do Brasil. Assim e de modo a resolver os casos em que uma consoante se pronuncia ou não, salvaguarda-se a possibilidade de essa palavra ser escrita de duas formas.

O uso da língua será sempre pessoal, muitas vezes ao arrepio das regras e dependendo das situações. É por isso podemos exprimir-nos de maneira diferente, conforme estejamos entre amigos ou numa reunião formal, no que se refere à produção oral do discurso. No âmbito da escrita, poderemos recorrer a abreviaturas, em apontamentos pessoais ou em mensagens de telemóvel, poderemos inventar palavras novas, na criação literária, e teremos de respeitar, também, as regras ortográficas, na maioria dos contextos em que somos obrigados a escrever.

A “democraticidade da língua” não precisa, portanto, de duplas grafias para ser confirmada. O problema das duplas grafias, ou melhor, o problema da criação de novas duplas grafias é o de aumentar o caos ortográfico, é o de conduzir à anarquia, conceito que não se deve confundir com democracia. Fica, ainda, a faltar a referência à criação de novas homografias, outra fonte de ruído na comunicação.

António Emiliano, entre outros, já explicou a importância da escrita na sociedade em que vivemos. Neste contexto, as regras ortográficas devem ser claras e não difusas (ou, se quisermos, ditatoriais e nunca democráticas, para usar conceitos que, de qualquer modo, não são chamados para as questões da língua). O uso pessoal, repito, é outra questão. [Read more…]