As duplas grafias como falsa questão

Lúcia Vaz Pedro, cumprindo uma promessa, vem, agora, tentar esclarecer a questão das duplas grafias.

(…) a existência de uma dupla grafia para a mesma palavra confirma a democraticidade da língua, que respeita as duas pronúncias: a de Portugal e a do Brasil. Assim e de modo a resolver os casos em que uma consoante se pronuncia ou não, salvaguarda-se a possibilidade de essa palavra ser escrita de duas formas.

O uso da língua será sempre pessoal, muitas vezes ao arrepio das regras e dependendo das situações. É por isso podemos exprimir-nos de maneira diferente, conforme estejamos entre amigos ou numa reunião formal, no que se refere à produção oral do discurso. No âmbito da escrita, poderemos recorrer a abreviaturas, em apontamentos pessoais ou em mensagens de telemóvel, poderemos inventar palavras novas, na criação literária, e teremos de respeitar, também, as regras ortográficas, na maioria dos contextos em que somos obrigados a escrever.

A “democraticidade da língua” não precisa, portanto, de duplas grafias para ser confirmada. O problema das duplas grafias, ou melhor, o problema da criação de novas duplas grafias é o de aumentar o caos ortográfico, é o de conduzir à anarquia, conceito que não se deve confundir com democracia. Fica, ainda, a faltar a referência à criação de novas homografias, outra fonte de ruído na comunicação.

António Emiliano, entre outros, já explicou a importância da escrita na sociedade em que vivemos. Neste contexto, as regras ortográficas devem ser claras e não difusas (ou, se quisermos, ditatoriais e nunca democráticas, para usar conceitos que, de qualquer modo, não são chamados para as questões da língua). O uso pessoal, repito, é outra questão.

Comentando, ainda, o final do parágrafo transcrito, a possibilidade de as palavras serem escritas de maneira diferente no Brasil e em Portugal já estava salvaguardada antes do chamado acordo ortográfico (AO90).

O texto de Lúcia Vaz Pedro reduz, seguidamente, a questão das duplas grafias às diferenças entre Brasil e Portugal, recorrendo ao estranho conceito de “grafia (…) conveniente”, talvez por alergia a um termo como “obrigatória”. Seguidamente, dá alguns exemplos de “grafias convenientes” em Portugal e no Brasil:

Vejamos, então, algumas grafias convenientes em Portugal: aspeto, cato, carateres, cetro, conceção, perentório, receção, setor. Nestes casos, a variante brasileira não emudece a consoante, preservando o grupo consonântico. Assim, eles devem escrever aspecto, cacto, caracteres, ceptro, concepção, peremptório, recepção.

Para além de confirmar, mais uma vez, o óbito do mito da ortografia única, o que é sempre positivo, Lúcia Vaz Pedro, inadvertida e implicitamente, faz referência ao verdadeiro problema: graças ao AO90, surgiram novas grafias duplas no interior da ortografia portuguesa. Na realidade, tem-se assistido, em Portugal, à utilização dos pares sector/setor ou caracteres/carateres, entre outros.

É importante notar que, em ambos os casos, a transcrição fonética presente no Dicionário da Academia refere que o C medial é pronunciado. Sabe-se, no entanto, que muitos falantes não o pronunciam. Uma vez que, por vezes, o AO90 defende o “primado da fonética”, está aberta a porta para que cada um possa escrever de acordo com o modo como pronuncia , ao mesmo tempo que se abre mais uma porta a outras confusões que têm originado, entre gente letrada, a supressão de consoantes pronunciadas (sigamos, por exemplo, o pato).

Falta, ainda, comentar os dois últimos parágrafos do artigo de Lúcia Vaz Pedro:

(…) há quem refira que o AO aumentou o número de palavras divergentes e se sirva desse argumento para desacreditar a unificação ortográfica, o que não é verdade. Num estudo elaborado por Jorge Candeias, prova-se exactamente o contrário. Na verdade, a língua portuguesa consolidou-se e fortaleceu-se e, quando for publicado o VOLP, poderemos constatar a consolidação e a grandeza de uma língua falada por milhões de pessoas em todo o mundo.

Em suma, este acordo introduz alguma tolerância ortográfica, através da opcionalidade, revestindo a língua de riqueza vocabular.

Independentemente de o número de “palavras divergentes” ter ou não aumentado (e é necessário ter algum cuidado com a utilização de expressões que se referem a conceitos bem definidos), comprova-se mais uma vez que continua a haver diferenças ortográficas entre Brasil e Portugal. Continuarei à espera que a articulista confirme ou desminta as afirmações de muitos defensores do AO90 acerca de uma lusofonia recoberta de edições únicas, iguaizinhas como duas gotas de água.

Depois do conceito de “democraticidade da língua”, temos a “tolerância ortográfica”. Entretanto, não se percebe de que modo essa mesma tolerância pode contribuir para a riqueza vocabular de uma língua.

Finalmente, gostaria de conhecer qual o critério que define a fronteira em que a tolerância ortográfica e a democraticidade da língua devem terminar. Um alentejano, independentemente do estatuto sociocultural, diz “lête”: por que razão o AO90 o obriga a escrever “leite”? E quando chegará a revolta de todos os falantes que, em Portugal, trocam o V pelo B, sejam cultos ou não? E por que motivo um viseense letrado ou iletrado não há-de escrever “picina” se, aparentemente, não pronuncia o S de “piscina”? Já agora, o que me impede de escrever “pescina” ou “pxina” (ou “pchina”, usufruindo da tolerância ortográfica), se, aparentemente, é assim que pronuncio? A tolerância e a democraticidade quando nascem não são para todos? Está mal!

Comments


  1. É urgente que se acabe com esta indecisão. É notório o desinteresse por este Acordo, sendo cada vez mais os Portugueses que não querem ver a sua Língua Pátria corrompida.. Os Brasileiros que façam o que entenderem, mas nós os verdadeiros detentores da Língua Portuguesa, NÃO admitiremos que esta seja deturpada em favor seja de quem for. Os traidores corruptos se se comprometeram com alguém ou com alguma coisa que se virem. AO nunca na vida.


  2. Precisamente. Os Brasileiros que SEMPRE abjuraram de acordos e convenções precedentes, por serem excessivamente lusitanizantes, como escreveu há anos Antônio Houaiss. Com maioria de razão pode e deve Portugal abster-se agora de acordar, concordando apenas em discordar, por este acordo ser demasiado veracrucizante.
    Quem não se dá ao respeito não é respeitado. E entre países, que agora são oito, as relações devem ser as que existem entre iguais, adultos, que se respeitam mutuamente sem submissões de nenhuma das partes à outra. Embora sem esquecer uma coisa: se para outras línguas é pacífico que as matrizes estão na Europa (como o inglês, o francês ou o espanhol), nos territórios em que “viram a luz do dia”, só por falsa modéstia (que é amiga do complexo de inferioridade e da síndroma do gafanhoto) os Portugueses abdicariam do mesmo.


  3. Não conheço nenhum, país lusófono que aceite AO a não ser o servil Portugal e já agora com o acordo até os governantes falam mal e se calhar deixaram de saber escrever – a fonia deu-lhe para o “hadem” (cristas e não só) e outras coisas


  4. Mas tem uma vantagem – como os alunos do ensino médio não têm uma única nota positiva nem em matemática porque nem sabem português nem a ler nem falar nem escrever, com o OA podem ainda dar mais erros de grafia e sintaxe e ficam perdoados e toca a ir para bolonha – não castiguem os meninos que já não sabem nada coitadinhos nem os professores que já não sabem ensinar – e mesmo assim ainda são investigadores bem situados no ranking da europa e até premiados – Só um génio aguenta tanto – como o menino de 14 anos bailarino que hoje se mostrou na TV e está convidado para dançar em NY na Escola Nijinsky – Mas como tem juízo vai esperar uns tempos – já é o 2. e o 1ª foi para Ballet de Kiev não sei se em 2011 se 2012 – José Luis Arnault esta sumidade está na SIC a zurrar (00:18 H ) +++ 913 dias de recessão acabaram hoje imagine-se mas não se vai entrar em facilitismo diz o ministro do CDS e gravata benfiquista – Di8a 1 de setembro vai ser o Dia Nacional das Filarmónicas – afinal gostam de cultura Popular não gostam de feriados de outubro – lista de mobilidade interna de 7 mil professores publicada hoje – mobilidade zero – entre 11 mil alguns podem não ter colocação a juntar aos 13 mil de 2012 – A partir de 2 setembro as urgências entre as 08H da manhã e as 08 da noite as urgência situar-se-ão apenas entre Santa Maria e S-José – a falta de médicos é a justificação – O Bastonário diz que este argumente parece o mesmo da MAC – Miranda do Corvo (Semide) continua a arder lindo eucaliptal a arder – eucalipto passou a ser a árvore “nacional” e os meios de combate ao fogo tiveram de se concentrar – só 100 bombeiros e um heli – FORBES arraza Isabel dos Santos – Rafael Marques estudou Isabel 1 ano e concluiu ter 3 mil milhões de dollars – the shortest route to riches é o título do programa e livro que escreveu – A srª tem parceria com israelitas (está bem acompanhada em minha opinião que odeio nazistas) quanto a diamantes (de sangue) + telecomunicações + Sonangol + Zon – pai e menina recusam entrevistas a jornalistas – O jornalista que escreveu diamantes de sangue (de que vi reportagem há poucos anos e é insuportavelmente criminoso o que se faz) está com 11 processos crime é claro – Só falo do que oiço na SIC sempre e há anos depois das 24H claro – Ronaldo mais uma vez safa a selecção com um golo com Holanda – tem 40 golos com camisola da selecção – segue jogo com Irlanda do Norte em Belfast


  5. Afinal a pintora D. Cecíla Jimenes tornou o Ecce Homo mais famoso do que era antes de o destruir – 50 mil euros para a Santo Espírito e 70 mil visitantes


  6. Amanhã o calor será de estrelar ovos nos pavimentos da cidade de lisboa pelo menos

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  1. […] dois textos de Lúcia Vaz Pedro (“Grafias duplas e uniformização ortográfica” e “As duplas grafias como falsa questão”). Ontem, numa página brasileira descobri um artigo da mesma […]

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