O sarilho afegão

 

Sob o resignado olhar de M. Zahir Xá, Karzai é empossado da presidência

 

Quando após a queda do regime talibã, Mohammed Zahir Xá convocou a Loya Jirga, parecia iminente a tentativa de regresso ao almejado, mas para sempre perdido status quo de 1973. Avessos a tudo aquilo que respeite a costumes e tradições de outrem, os norte-americanos opuseram-se terminantemente à devolução da chefia do Estado afegão ao espoliado monarca. Preferiram atribuir uma novel presidência a Karzai, um homem de confiança e que é susceptível de defender os pontos de vista das empresas energéticas que procuram estabelecer-se firmemente na Ásia Central.

 

Contrariando aquilo que já era consensual entre os chefes tribais, os EUA negaram a possibilidade da restauração de uma monarquia que antes de tudo o mais, garantiu quatro ininterruptas décadas de paz no Afeganistão e a tranquilidade do sistema tribal.

 

 

situação actual é catastrófica. Além do deteriorar das relações inter-tribais que encorajam a recruta de novos combatentes talibã, a fastidiosa guerra eleitoral que conduziu Obama à Casa Branca, enviou sinais contraditórios a todos aqueles que no terreno lutam pela hegemonia. Além de um Paquistão visivelmente assolado pela subversão e dissidência, os americanos pouco podem contar com os países vizinhos que a norte, ainda se encontram numa fase de consolidação da situação criada pelo desaparecimento da União Soviética. Sem a cooperação russa, chinesa ou indiana, os EUA dependem uma vez mais dos sempre secundarizados aliados que na Europa enfrentam uma opinião pública hostil, porque conhecedora da realidade no terreno. Obama pede auxílio para um regime que obedeceu desde a sua instauração, aos seus critérios de avaliação que antes de tudo, vão encontro dos interesses económicos dos EUA. Se no terreno parecem existir desinteligências com contingentes aliados – o exército britânico, por exemplo -, um obstáculo ainda maior é a opinião pública que na Europa não parece disposta a investir numa aventura de indefiníveis contornos.

 

Obama mobiliza mais 30.000 efectivos e simultaneamente, marca a data de retirada. Política errática, ao sabor dos noticiários e do politicamente conveniente, consistiu este anúncio de fuga prevista,  num erro fatal e capaz de afastar ainda mais, qualquer tipo de vontade de auxílio substancial por parte dos aliados da NATO. 

 

Resta apenas saber, o que verdadeiramente decidirá a administração invisível e permanente que ao longo de sucessivos mandatos presidênciais, acaba por conformar a política do departamento de Estado.

 

 

 

Afeganistão – Karzai realiza reformas?

A definição de loucura é fazer a mesma coisa, uma e

outra vez, e ficar à espera de um resultado diferente”

Einstein

 

“Não me façam rir”, foi o primeiro pensamento que me passou pela cabeça quando li esta manhã a notícia online “Visita relámpago em Afeghanistão: Westerwelle (o novo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão) impele Karzai a realizar reformas”.

 

Foi mais uma daquelas notícias tão bombásticas como banais e ocas sobre mais uma das inúmeras tentativas inúteis de alterar coisas que assim não podem ser alteradas. E coloca-se a questão: quem afinal somo nós, o 1º mundo e membros do sistema de liderança da pax americana –  „God’s own Country“ and his partners in misleadership – (ainda) em exercício, para indicar àqueles países o caminho certo? Más que reformas, as mesmas que as nossas que ou surtem efeitos contrários ou ficam em águas de bacalhau? Quem somos precisamente nós, que segundo a nossa própria convicação não somos corruptos como o 3º mundo mas em realidade nos encontramos no centro da corrupção sem contudo nos darmos conta?

 

 

É chocante mas a verdade é esta: devido ao nosso comportamento sócio-económico de há décadas que nos faz agarrar com todos as forças nas coisas do passado, em realidade nos encontramos mesmo no centro do furacão onde reina a calma – a tempestade apanham os outros.

 

O quê, precisamente nós, os éticos, honestos e civilizados alemães e os nossos demais parceiros europeus e transatlânticos do 1º mundo, que como é sabido só queremos o melhor para o 3º mundo, padrinhos da corrupção? Não se trata de uma afirmação absurda e impertinente? Bom, para a grande maioria é, mas graças a Deus ainda existe a minoria daqueles que conta e que não se deixando confundir tem sempre presente a tal citação do Prof. Dietrich Dörner: “QUERENDO O BOM, CRIAM O CAOS”.

 

Se, portanto, quisermos convencer o Afeghanistão e a um crescente número de países que actualmente se encontram a caminho de “failed states” das vantagens de um sistema aberto, se quisermos dar exemplo, então primeiro teremos terminar a nossa própria marcha para um sistema fechado. É isso o que realmente importa resolver primeiro. Se isto for feito, todos os inúmeros problemas que afligem o mundo – economia, clima, fome, guerras, saúde, etc. – serão resolvidos mais facilmente. (O clima mudará de qualquer forma, com ou sem os nossos esforços para reduzirmos seja o que for. Todas aquelas vistosas cimeiras apenas desviam a atenção do essencial).

 

Todavia, em primeiríssimo lugar teremos que ficar conscientes do porque da nossa actual situação e das consequências dos nossos actos. Como já dizia Goethe?  "O mais dífícil de tudo é sempre o que parece mais fácil, ver o que está diante dos olhos". De facto, enquanto somos incapazes de “ ver o que está diante dos olhos" a crescente pressão de sofrimento que nos espera será de grande ajuda. E o aumento do mesmo encontra-se invariavelmente pré-programado.

 

Oxalá que consigamos dar a volta às coisas em breve. Caso contrário nos espera uma “Afeghanização”, ou seja, situações violentas parecendo em comparação as descritas pela “Brasilianização” do Prof. Ulrich Beck um tremor de baixa intensidade. Impossível de acontecer nas nossas bandas? Isto, porventura, os povos da ex-Iugoslavia, que vivem todos em plena Europa, também teriam pensado quando de repente nos anos 90 lá eclodiu a guerra civil e a barbárie.