Não me embalem

“Pelo quadro, dou-lhe um conto de réis; pela moldura, dou-lhe cinquenta contos”, dizia o potencial comprador de um quadro medíocre ornado de uma magnífica moldura. Lembrei-me desta cena enquanto assistia à enésima referência edulcorada à memória do presidente Kennedy. Verdade, verdadinha, é que em vão procuramos entre os disparates e dislates políticos – e, até, crimes – que tal personagem protagonizou, algo que justifique a adoração e mitificação a que se assiste. Já quanto ao cenário cultural, político e social do tempo não se pode dizer o mesmo.

Final da década de 50, inicio da década de 60. É o tempo dos sonhos, do emergir de uma nova era. É o tempo das lutas pelos direitos civis nos EUA, pela libertação do Vietname, de Cuba,das colónias em África. É o emergir da juventude como sujeito social. Na música, na literatura, na arte em geral, exalta-se o novo dia. É o tempo das revoltas poéticas. Tudo parece possível. Durante algum tempo, fomos melhores do que somos. Por razões pouco claras, quer-se que Kennedy surja como uma referência iconográfica desta época. Nada mais errado. Para lá do folclore, para lá de tudo o que envolve a sua morte, Kennedy não está com os que sonham. Está com os que os transformaram esses sonhos em pesadelos.

Comments


  1. Porquê?


  2. Tem toda a razão. Kennedy falhou: não conseguiu libertar Cuba nem o Vietname. Foi mesmo morto porque não quis pôr tropas na Indochina. Apesar da hostilidade contra Salazar não conseguiu que este largasse as colónias. Deixou que se construísse um muro transformando Berlim numa prisão. Lá se foi a poesia…

  3. sinaizdefumo says:

    Ralmente estou comò arroba Hugo__Jose, atão proquê co Kennedy devia frequntar os meus pesadelos?

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