Como um pássaro no arame

Quando todos os cantores se transformaram em bombas sexuais, e as vozes se fizeram secundárias em face dos olhares sedutores, das poses de divas ou semi-deuses, e nos perguntamos que espaço teria Ella Fitzgerald, por exemplo, se nascesse agora, eis que irrompem os primeiros acordes da valsa e entra o veterano Leonard Cohen, que, de fato riscado e borsalino a velar-lhe os olhos, enche o palco com sua esplêndida velhice.

Já não se vêem velhos em palco, repararam? A velhice, tão inestética, é escondida ou travestida com grotescas máscaras de falsa juventude. Madonna esconde uns impossíveis 50 anos com coreografias acrobáticas, e apenas os Stones exibem o mapa rugoso das suas faces mas não assumem a condição de velhos. São, antes, eternos jovens gastos pelas muitas infracções.

Mas Cohen é um velho. Os dedos ossudos dedilham a guitarra, o olhar fixa-se num ponto distante que não conseguimos alcançar, e as canções já tantas vezes tocadas saem de novo à luz e revivem uma outra vez, antes do regresso à sombra. A voz envelheceu, perdeu brilho e amplitude, fragilizou-se e Cohen não tenta iludi-lo.

Mas as canções ganharam densidade, a melancolia enriqueceu-se com um travo de ironia, e a alegria não perdeu luminosidade mas tornou-se sábia. Assombradas pela figura agora frágil do seu trovador, as palavras ardem, consomem-se, amanhã renascerão das cinzas. Como aquela que começa assim… “Well my friends are gone and my hair is gray / I ache in the places where I used to play”…

Xutos e Pontapés, os Comendadores da Ordem do Mérito


O João Paulo já apresentou há oito dias, no Aventar, a nova música dos Xutos, «Sem Eira nem Beira». A partir daí, muitos foram os blogues que lhe seguiram o exemplo, como por exemplo o «5 Dias».

«Do Portugal Profundo»
, o professor António Balbino Caldeira refere que «os Xutos e Pontapés, “Sem Eira Nem Beira”, arriscam-se a ser, involuntariamente, os cantautores populares de revolta contra o socratismo terminal, tal como Pedro Abrunhosa foi face ao cavaquismo senescente».
Na minha interpretação pessoal, o que se deve aqui realçar é a palavra involuntariamente. Porque logo após a chegada da música à opinião pública, Zé Pedro, repentinamente transformado em rapaz ajuizado (e medalhado), veio dizer, no Público, que os Xutos «nunca quiseram vestir a roupagem de “líderes de uma revolução política”». Disse ainda que interpretar esta faixa, cantada pelo baterista Kalu, como um hino contra as políticas do Governo socialista é “deturpar” a intenção do grupo. “Não há aqui alvos a abater”, diz, em resposta ao facto de o refrão começar com a frase Senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. “Não queremos fazer um ataque político a ninguém.»
Já há uns meses, no «Jornal de Notícias», Zé Pedro confessara a sua paixão por José Sócrates. Referindo que «não há ninguém – ninguém mesmo – com capacidade para ocupar o lugar dele melhor do que ele» ou que «espero que Sócrates não perca as eleições. Tem que dar a volta por cima». Termina a entrevista com uma confissão que explica as frases anteriores: «Deixei de beber».
Pois que beba, que volte a beber e que deixe de dizer tonterias. Ou é a medalha de comendador e a profissão de manequim que lhe pesam e que o obrigam a dizer coisas destas?
Ao menos que não finja que continua a ser um menino rebelde. Faça como o Rui Reininho, o tal que mete todos os Xutos num só bolso, e cante musiquinhas das Doce e do Roberto Carlos.