Contatos? Pára! Pára!

There’s a lover in the story
But the story’s still the same

—Leonard Cohen, “You Want It Darker

***

Hoje, no sítio do costume, há contatos.

dre15112016

Também hoje, no Record (os meus agradecimentos ao nosso excelente leitor), voltamos a mergulhar na grafia Schweinstnegger: por um lado, quer a inadmissível grafia diretor, quer a incompreensível referência gráfica à selecção do Brasil, por outro, a triste notícia acerca da paragem do glorioso André Horta.
record-15112016

Continuação de uma óptima semana.

***

First we take Manhattan, then we take Berlin

lc

They sentenced me to twenty years of boredom
For trying to change the system from within
I’m coming now, I’m coming to reward them
First we take Manhattan, then we take Berlin
I’m guided by a signal in the heavens
I’m guided by this birthmark on my skin
I’m guided by the beauty of our weapons
First we take Manhattan, then we take Berlin

May you rest in peace, Leonard. We’ll take Manhattan for you.

Foto@TVI24

Leonard Cohen (1934 – 2016)

Neste dia tão triste, lembremos um excelente texto da Carla Romualdo (já agora, eis outro) e esta Villanelle que o A. Pedro Correia nos trouxe.

Alegre com Dylan por um Mundo livre

alegre_dylan

«Manuel Alegre ao lado de Bob Dylan, John Lennon e Leonard Cohen» anunciou hoje a Leya, feliz da vida por Alegre passar a estar ao lado de tão notáveis poetas (e Chico Buarque também lá está) no âmbito da antologia italiana Canto Por Um Mundo Livre. Marketing é marketing (essa ciência que é um remédio santo) mas talvez José Afonso fosse realmente o único nome que faria sentido nessa representação portuguesa de grandes poetas/músicos. Alegre é doutra guerra.

Tomemos esta valsa

                                                     Foto: Nuno Ferreira Santos

Por estes dias, quase nos sentimos obrigados a pedir desculpa quando vimos falar do prazer. Em tempos difíceis, há um olhar severo (muitas vezes o nosso) sobre aqueles que escolhem falar de coisas tão etéreas como canções. Mas os nossos corações não pulsam ao compasso histérico dos mercados, e aos nossos corpos não basta o feijão com arroz da sobrevivência. E é, afinal, nos tempos de sombra que fazem mais falta os faróis, por muito escassa que se revele a sua cintilação.

Tudo isto – como a gente se sente obrigada a justificar-se – para dizer que, ontem à noite, um trovador antigo, um profeta irónico, um monge zen, um homem do mundo, chamado Leonard Cohen esteve em Lisboa. Já escrevi outras vezes sobre ele, trago versos seus nos meus bolsos, como se fossem fragmentos de mapas, e por vezes até tenho a ilusão de que sou eu, com tantos outros como eu, que o mantemos vivo e que o alentamos na sua luminosa velhice, para que fique um pouco mais connosco. [Read more…]

Leonard Cohen: Villanelle For Our Time

Pela amarga busca no coração

Acelerada com paixão e com dor

Levantamo-nos para jogar um papel maior.

Esta é a fé da qual partimos:

Os homens conhecerão o bem comum de novo

Pela amarga busca no coração.

Amámos o fácil e o esperto

Mas agora, com mais aguda mão e cérebro,

Levantamo-nos para jogar um papel maior.

Partem as lealdades menores

E nem raça ou credo restarão

Pela amarga busca no coração.

Não nos guiando pela carta venal

Que enganou as massas pelo ganho privado

Levantamo-nos para jogar um papel maior.

Remodelando a estreita lei e arte

Cujos símbolos são milhões de assassinados,

Pela amarga busca no coração

Levantamo-nos para jogar um papel maior.

Letra; F. R. Scott
música: Leonard Cohen

Leonard Cohen, princípe nas Astúrias

um poeta que é músico ou um músico que é poeta

por quem me alegro

Como um pássaro no arame

Quando todos os cantores se transformaram em bombas sexuais, e as vozes se fizeram secundárias em face dos olhares sedutores, das poses de divas ou semi-deuses, e nos perguntamos que espaço teria Ella Fitzgerald, por exemplo, se nascesse agora, eis que irrompem os primeiros acordes da valsa e entra o veterano Leonard Cohen, que, de fato riscado e borsalino a velar-lhe os olhos, enche o palco com sua esplêndida velhice.

Já não se vêem velhos em palco, repararam? A velhice, tão inestética, é escondida ou travestida com grotescas máscaras de falsa juventude. Madonna esconde uns impossíveis 50 anos com coreografias acrobáticas, e apenas os Stones exibem o mapa rugoso das suas faces mas não assumem a condição de velhos. São, antes, eternos jovens gastos pelas muitas infracções.

Mas Cohen é um velho. Os dedos ossudos dedilham a guitarra, o olhar fixa-se num ponto distante que não conseguimos alcançar, e as canções já tantas vezes tocadas saem de novo à luz e revivem uma outra vez, antes do regresso à sombra. A voz envelheceu, perdeu brilho e amplitude, fragilizou-se e Cohen não tenta iludi-lo.

Mas as canções ganharam densidade, a melancolia enriqueceu-se com um travo de ironia, e a alegria não perdeu luminosidade mas tornou-se sábia. Assombradas pela figura agora frágil do seu trovador, as palavras ardem, consomem-se, amanhã renascerão das cinzas. Como aquela que começa assim… “Well my friends are gone and my hair is gray / I ache in the places where I used to play”…