Don’t Look Up: Muito mais retrato do que sátira

@Netflix

Segundo o dicionário Priberam, sátira é uma crítica em tom jocoso ou sarcástico. O filme “Don’t look up”, da Netflix, com um elenco de luxo, tem sido apelidado de sátira, um pouco por todo o lado. Percebo, mas não podia discordar mais.

A verdade é que considero o filme mais retrato do que sátira, mais documentário do que ficção. Nada do que lá acontece, por incrível que pareça, me parece demasiado estranho para poder ocorrer “cá fora”, no mundo real. E, não sendo uma obra-prima, nem um filme que será recordado daqui a 100 anos, é um filme que faz pensar, que está perfeitamente ajustado ao momento histórico e isso é muito do que de mais importante se poderia pedir nesta altura.

A verdade é que entramos numa era de profundo obscurantismo em que os alicerces em que fomos construíndo o mundo estão a ser abalados, a ser colocados em causa, deixando a sociedade apoiada em resquícios de informação. Foram rompidos os princípios de confiança nas instituições, na ciência, no conhecimento. Tudo substuído por uma inflação do ego e do comportamento manada, numa caminha de excesso de entretenimento e distracção. A escala de prioridades foi invertida e, apesar de o filme usar uma ameaça objectiva (que, do ponto de vista narrativo, me parece ser uma metáfora para o aquecimento global), a verdade é que as ameaças que o mundo real tem são outras. Muito para além da pandemia, do aquecimento global, da pobreza, da desigualdade, os problemas aos quais, infelizmente, nos habituamos e não devíamos, existe um adormecimento colectivo que poderá transformar o mundo como o conhecemos. Já o está a fazer.

A afastar-nos da essência humana, tornando-nos uma espécie de híbridos entre o humano e a máquina, numa sucessão de respostas pré-definidas, de comportamentos repetidos ao infinito, a caminho de um conformidade de pensamento assustadora, digna dos melhores escritos de Orwell. A parte mais assustadora é a apatia generalizada, porque o inimigo não é concreto. Não está corporizado num ditador, num grupo extremista, numa entidade. A ameaça é uma espécie de aura colectiva que nos empurra para o mesmo fim.

E, da mesma forma que a população do filme nega a existência de um cometa que está, literalmente, acima das suas cabeças, também no mundo real se pensa que está tudo bem, se normaliza o que nunca foi ou será normal, se encolhe os ombros até ser tarde demais

Conversas Vadias 34

A trigésima quarta edição das Conversas Vadias é longa e sumarenta, mas muito mais interessante do que qualquer jogo da selecção nacional, o que não é difícil. Hoje, deu-se o regresso do Fernando Moreira de Sá e estreou-se a Ana Reis, abrindo as hostilidades contra o domínio do patriarcado. Marcaram presença Orlando Sousa, António de Almeida, António Fernando Nabais, José Mário Teixeira, Francisco Miguel Valada, Carlos Araújo Alves e João Mendes. Tudo começou com uma provocação do Fernando Moreira de Sá, partindo de uma referência à nova série Glória. Seguidamente, falou-se da Revolução de Outubro e das relações entre as revoluções e aquilo que se segue. Passou-se pela questão da disciplina de Cidadania. Antes das sugestões, ainda houve tempo para se ficar a saber muito sobre o CDS, desde 1990 até hoje. Sugestões? É mais abaixo, se não importarem.

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Conversas Vadias 34
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Sons do Aventar – Melhor que Guacamole – Natalia Lafourcade

Neste segundo episódio da trilogia da música indie pop mexicana a paragem no caminho é com Natalia Lafourcade. Uma viagem pelos sons desta multipremiada cantora mexicana a quem a Netflix já dedicou um episódio do documentário Song Exploder. Por agora fiquem com quatro das suas músicas para abrir o apetite.

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Sons do Aventar - Melhor que Guacamole - Natalia Lafourcade
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Acordo ortográfico e consoantes: a brincar às escondidas

Com as criancinhas, há um jogo que só é possível enquanto não atingirem um mínimo de inteligência – tapamos a cara e dizemos “Não está cá!”; a seguir destapamos a cara e dizemos, com um sorriso alarve: “Está, está!” (Mais propriamente “Tá, tá!”). Nunca experimentei fazer esta brincadeira com adolescentes, mas imagino a preocupação que causaria a alunos, encarregados de educação e chefias escolares relativamente à minha sanidade mental ou ao meu evidente consumo de álcool e/ou estupefacientes.

O chamado acordo ortográfico (AO90) faz o mesmo com a sociedade. Somos tratados como crianças ou como adultos com baixíssimo quociente de inteligência. [Read more…]