O cardeal que discutia com Deus

Morreu, no passado dia 31, o cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), arcebispo de Milão.Transcrevo um excerto do texto de António Marujo, publicado hoje no Pùblico:

Depois de discutir muitas coisas com Deus e com a própria Igreja, onde chegou a cardeal. Por exemplo, sobre alguns impasses do catolicismo: “Como bispo, perguntei frequentemente a Deus: porque não nos dás ideias melhores, porque não nos fazes mais fortes no amor, mais corajosos ao lidar com as questões actuais?” Que questões são essas? Problemas de ética e moral (divorciados, homossexualidade, preservativo e contracepção) ou de disciplina eclesiástica (ordenação de homens casados,celibato, ordenação de mulheres) mereciam do cardeal observações divergentes da doutrina — ou do tom — oficial da Igreja. Na última entrevista concedida por Martini (…) o cardeal dizia: “A Igreja está cansada. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e o aparelho burocrático alarga-se. Os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos.” Mais à frente, concretizava: “A Igreja deve admitir os seus erros e encetar uma reforma radical, começando pelo Papa e pelos bispos“. (…)

Dizia ainda que “A Igreja está atrasada 200 anos. Teremos nós medo? Medo em vez de coragem? A fé, a confiança, a coragem são os fundamentos da Igreja.” (…)  “Só o amor pode vencer a fadiga. (…) Na Igreja de hoje, vejo tantas cinzas que escondem as brasas que me sinto muitas vezes preso de um sentimento de impotência.

(…) a sua voz era respeitadíssima.

(…) Entre as dezenas de livros que publicou (…) destaca-se Em que Crê Quem Não Crê, um debate com o escritor e filósofo Umberto Eco.

Sobre a morte: “Talvez ao morrer alguém segure a minha mão. Desejo nesse momento poder rezar. Durante toda uma vida reflecti sobre Deus e sobre o além; neste momento não sei nada; a não ser que eu próprio na morte também me sinto acolhido. Isto é também a minha esperança.”

Dúvidas nos concursos de professores

O debate corre na rede e os pontos de vista teimam em ser vistas a partir de um ponto.

Especialmente junto dos docentes contratados, uma discussão à volta dos concursos mexe sempre com muitas emoções, algumas das quais um pouquinho excessivas. No entanto, importa dizer que a proposta do MEC não mexe assim tanto no modelo que nos chega da Maria de Lurdes.

Não mexe no que seria preciso alterar, mas clarifica algumas questões importantes: a avaliação de bom ou muito bom acrescenta um ponto à graduação e nada mais que isso; a gestão dos docentes sem componente lectiva é o ponto mais positivo. Retira esse poder aos directores.

No entanto levanta algumas questões muito delicadas:

a) coloca na mesma prioridade docentes do privado e do público. Isto é, um Professor que esteve no privado, com alunos “mais simpáticos”, protegido dos quilómetros e longe da Maria de Lurdes é agora colocado em igualdade de circunstância com um docente que percorreu o país de ponta a ponta, que trabalhou nos bairros mais delicados, etc,etc…

b) coloca os docentes dos quadros das ilhas em igualdade com os docentes dos quadros do continente. Para os de lá é uma vantagem, para os de cá, nem por isso.

A chatice destas coisas é que escolher uma posição ou outra vai implicar deixar no desemprego o professor A ou o professor B, ou se calhar os dois.