Mulheres Nuas? ah, isso faz dói-dói

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Estamos a ficar muito sensíveis à luz, não?
Em Braga, capital lusa da moral pudica e bons costumes (conferir os anúncios do Correio do Minho), aconteceu o mesmíssimo há uns quantos anos.
Veio a polícia dar-se ao ridículo e levar uns livros de pinturas antigas.
E isto na cidade onde os ditos representantes de Cristo apadrinham, de estola e hissope, supermercados construídos nos seus terrenos.
À revelia da lei dos homens, à sombra do arcebispo e empresário da Fé, o jorge ortiga.

Bela moral. Pudor!

A nossa moral

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Foi há pouco mais de três anos. Um alto responsável governamental afirmava publicamente que o turismo português estava a “aproveitar melhor a Primavera Árabe”.

Hoje, há um entusiasmo nacional festivo, celebrando o contributo que as receitas do turismo estão a dar às contas nacionais, de algumas cidades e de alguns empreendedores mais atentos. Chegam charters  de chineses, brasileiros, franceses, italianos, alemães, espanhóis. Gastam a Torre dos Clérigos de tanto a fotografar. Tiram selfies em Alfama sem sonharem com a origem da toponímia. Tudo isto ao som de discursos pungentes sobre as crianças de Aleppo, uma das cidades mais antigas do mundo.

É esta a nossa Moral.

Marcelo Rebelo de Sousa, o infiel, e os trogloditas

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Em novo video de propaganda do Daesh, ou de um tolinho qualquer que gosta de brincar aos grunhos fundamentalistas, Marcelo Rebelo de Sousa – o infiel – surge a condecorar o rei de Marrocos – o muçulmano sem vergonha. Com este conteúdo, presume-se que os trogloditas pretendam mostrar a outros trogloditas que os jovens trogloditas são bem formados, bem preparados e com uma “moral superior à dos jovens dos países árabes e islâmicos “corruptos”. Isto apesar dos seus carros ocidentais, das suas armas ocidentais, das suas drogas ocidentais ou dos seus infames e imorais relógios ocidentais, que fazem Maomé corar de vergonha alheia com tanto troglodita imbecil e desmiolado. E ainda há trogloditas, com acesso à informação, que abandonam este país para combater as guerras destes charlatões. Ainda bem que nasci infiel. Antes infiel do que troglodita.

Foto@Público

Da Política

Todos os gestos políticos têm, além dos seus efeitos práticos, uma dimensão simbólica. É nessa dimensão que reside a assinatura moral da política.

Estória do Cavalo e do Porco

 

© Bruno Santos

© Bruno Santos

 

Vivia feliz, numa grande herdade alentejana, Bucéfalo, um magnífico cavalo assim baptizado pelo seu dono em honra do heróico quadrúpede de Alexandre da Macedónia. Bucéfalo era um animal belíssimo e de uma rara inteligência. Passava os seus dias correndo e pastando pela grande herdade de Samuel Fagundes, que de vez em quando o levava a participar num ou noutro torneio equestre, dos quais trazia sempre vários prémios e rasgados elogios.

Um dia, porém, Bucéfalo magoou-se seriamente numa pata e Samuel Fagundes foi dar com ele deitado junto à cerca norte da herdade. Preocupado, procurou logo inteirar-se do estado do animal, desconfiando que se tratava de um grave ferimento. Chamou o veterinário que, após uma breve observação, confirmou o diagnóstico e ditou a sentença do cavalo:

– Não há hipótese. Tem que ser abatido.

Conformado e muito triste, Samuel Fagundes aceitou o veredicto do especialista e foi preparar-se para acabar com o sofrimento de Bucéfalo. Quando se ausentou para ir buscar a caçadeira, eis que surge o porco, que também vivia na herdade, junto ao cavalo:

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Intelectualmente desonesto

Começou por andar por aqui e por ali, mas estou certo, há uns bons anitos que o senhor Professor não dá aulas. Passou pelo CAE do Porto, ainda no tempo dos mini-concursos em papel, andou por aquela coisa que não sei bem o que é, mas que tinha uma linha telefónica e queria criar uma ordem, saltou para a DREN e depois para o Governo. Teimava em falar de professores como professor, o que não era rigorosamente verdade, mas, sobre isso, quem lhe  paga as despesas que se manifeste. A mim, enquanto professor, só me apetece lembrar o pensamento:

Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz.

 

O Pelotiqueiro

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No seu artigo no Público de sábado, Pacheco Pereira entende as mentiras do Primeiro Ministro e a densidade que o mesmo concede à sua própria palavra como fruto de uma geração de políticos que se caracteriza por um “amoralismo que não é um pragmatismo”, nem sequer “um oportunismo”, mas “uma ignorância e uma indiferença, um egoísmo obsessivo, mas de muito pouco alcance”. Mais tarde, salientando que a sua vigarice vocabular não é sequer muito sofisticada e que “o dolo é muitas vezes grosseiro”, conclui que é obsceno e imoral o Primeiro Ministro tratar assim as pessoas.

Pacheco Pereira é um esteta e a sua insuficiência enquanto político nesse simples facto radica. A geração de políticos a que se refere quando pensa no Primeiro Ministro não é propriamente amoral porque a ideologia que subscreve é todo um programa de vida que se tece numa extensa rede de cumplicidades. Passos Coelho e os seus acólitos obedecem a um preciso código recheado de imoralidades, nos termos do qual os fins justificam os meios e os meios justificam qualquer fim,independentemente da vítima e mesmo do resultado. [Read more…]

O cardeal que discutia com Deus

Morreu, no passado dia 31, o cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), arcebispo de Milão.Transcrevo um excerto do texto de António Marujo, publicado hoje no Pùblico:

Depois de discutir muitas coisas com Deus e com a própria Igreja, onde chegou a cardeal. Por exemplo, sobre alguns impasses do catolicismo: “Como bispo, perguntei frequentemente a Deus: porque não nos dás ideias melhores, porque não nos fazes mais fortes no amor, mais corajosos ao lidar com as questões actuais?” Que questões são essas? Problemas de ética e moral (divorciados, homossexualidade, preservativo e contracepção) ou de disciplina eclesiástica (ordenação de homens casados,celibato, ordenação de mulheres) mereciam do cardeal observações divergentes da doutrina — ou do tom — oficial da Igreja. Na última entrevista concedida por Martini (…) o cardeal dizia: “A Igreja está cansada. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e o aparelho burocrático alarga-se. Os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos.” Mais à frente, concretizava: “A Igreja deve admitir os seus erros e encetar uma reforma radical, começando pelo Papa e pelos bispos“. (…)

Dizia ainda que “A Igreja está atrasada 200 anos. Teremos nós medo? Medo em vez de coragem? A fé, a confiança, a coragem são os fundamentos da Igreja.” (…)  “Só o amor pode vencer a fadiga. (…) Na Igreja de hoje, vejo tantas cinzas que escondem as brasas que me sinto muitas vezes preso de um sentimento de impotência.

(…) a sua voz era respeitadíssima.

(…) Entre as dezenas de livros que publicou (…) destaca-se Em que Crê Quem Não Crê, um debate com o escritor e filósofo Umberto Eco.

Sobre a morte: “Talvez ao morrer alguém segure a minha mão. Desejo nesse momento poder rezar. Durante toda uma vida reflecti sobre Deus e sobre o além; neste momento não sei nada; a não ser que eu próprio na morte também me sinto acolhido. Isto é também a minha esperança.”

Presidente da Assembleia Municipal recebe dinheiro das Empresas municipais

A afirmação do título pretende transportar o leitor para um exercício teórico.

Imagine, caro leitor que um cidadão (podia escrever popular, contribuinte, eleitor, mas no caso concreto preferi recorrer à antítese) não tem qualquer relação laboral ou financeira com a autarquia ou com qualquer das suas empresas municipais. Isto é, quando o cidadão foi eleito Presidente da Assembleia Municipal não recebia e não trabalhava sob qualquer tipo de forma para a autarquia.

Depois de eleito Presidente da Assembleia Municipal passou a receber dinheiro das Empresas Municipais.

O que vos parece? Ilegal? Imoral? Um caso de polícia?

Vergonha, precisa-se

As revelações feitas acerca das escutas no processo “Face oculta”, na esteira do que vem acontecendo há anos acerca de condutas impróprias do Primeiro-Ministro, demonstram o pântano de que falava Guterres.

Para mim não está em causa a ilegalidade de certas escutas, nem a obrigação de as destruir. O que está em causa é que, uma vez publicadas, as mesmas não foram postas em causa por nenhum dos envolvidos, não houve nenhuma acusação de adulteração, de falsificação ou do que fosse. Nada. Apenas a crítica e a indignação em se revelar o que deveria, em parte, estar destruído.

Juridicamente não concordo com a divulgação de escutas declaradas nulas (e atente-se que parte das escutas transcritas não se reportam ao Primeiro-Ministro).

Como cidadão e republicano, entristece-me constatar que esta realidade governativa que as transcrições das escutas revelam, é apenas a deprimente radiografia da minha pátria.

Pelo silêncio nesta sede – ninguém ousar pôr em questão a veracidade das transcrições -, só se pode concluir que aquilo que lá está é verdade, e isso é do mais vergonhoso. E que num qualquer país, verdadeiramente civilizado, levaria à demissão do Chefe de Governo, por iniciativa própria ou por iniciativa presidencial.

Não teremos nenhuma das duas, como é evidente, porque não existe mais uma réstia de vergonha que seja.

Até mesmo porque à Oposição, em geral, não interessa perder um alvo fácil de corrosão política, e o PSD, em particular, não tem qualquer solidez para se confrontar seriamente com o PS.

Já Cavaco Silva, tem uma grande oportunidade para assegurar o segundo mandato: forçar o PS a apresentar um candidato (que não é difícil de sustentar, dadas as diversas reacções alérgicas que a disponibilidade de Manuel Alegre cedo provocou) para, com Manuel Alegre – que teve mais uma inábil estratégia de arranque de candidatura, agora ao aparecer colado ao Bloco de Esquerda –, dividir a Esquerda e ganhar à primeira volta. Depois é só deixar o PSD arrumar a casa e encontrar um líder com um mínimo de substância, e fazer cair o Governo no momento certo – ou seja, a mesma estratégia de Jorge Sampaio que abriu as portas do poder ao PS -, e José Sócrates poderá ainda sair de um pesadelo governativo como pobre vítima.

Tudo será mais um jogo, onde a vergonha é retórica, não é regra.

Face ao teor das transcrições – influências e perversões institucionais e partidárias, carreiras meteóricas, salários principescos, tráficos, manipulações, etc. -, pergunto-me onde está, efectivamente, a moral da sociedade em perseguir e condenar um carteirista?

A República precisa, urgentemente, de vergonha. E só a vamos conseguir quando se conseguir afastar dela quem a não tem.

Tiger Woods no inferno da moral

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Fazendo o zapping pelos canais televisivos noticiosos, deparei com o assunto de fim de semana. As charamelas da EuronewsCNNAl-Jazeera, têm preenchido momentos infindos com a pouco ou nada apimentada estorieta sexual de Tiger Woods. Umas louras e outras nem tanto que com ele hipoteticamente contracenaram em cenas de chaise-longue de motel, aproveitam agora o ensejo de fazer render os seus créditos nos meandros da especialidade, descosendo-se em entrevistas, off the records e revoltantes statements que confirmam as infidelidades matrimoniais do “génio do taco”.

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