Ficções sem hora marcada

Rui Oceano estacionou cuidadosamente o seu Simca de colecção. Tirou um paninho de flanela, friccionou com cautela todos os frisos, guardou cuidadosamente o paninho no estojo de pele, bateu a porta muito devagar e dirigiu-se para o palco da feira do livro. Era caro para a sua Câmara, mas valia a pena: os seus concidadãos acotovelavam-se nos escaparates, homens de letras abancavam em sítios combinados e faziam dedicatórias. O povo gostava, e Oceano, o Rio, (Rui, aliás) estava feliz.
Por dentro. Por fora, aquela máscara de mau feitio. De quem pensa que, pelo facto de ter estudado numa escola de referência, deve  ser olhado de baixo, para a sua superioridade. Aquele ar de quem tem sempre razão e nunca se engana, como o Outro. [Read more…]

A chinesa que “leu” Pepetela

Em “Crónicas com fundo de guerra”, Pepetela escreveu:

“Aborrece-me que Deus não nos permita viver um acontecimento como a morte senão uma única vez – e ainda por cima sem direito a ensaios”.

Então Jang Zia “leu”, ensaiou e experimentou!

“Apercebi-me de que as pessoas gastam imenso tempo a pensar em alguém que já faleceu. Quis perceber o que as pessoas pensavam de mim então decidi simular o meu funeral enquanto o posso aproveitar”.

Para concluir:

“Experienciar a morte fez-me apreciar mais a vida”.