Ficções sem hora marcada

Rui Oceano estacionou cuidadosamente o seu Simca de colecção. Tirou um paninho de flanela, friccionou com cautela todos os frisos, guardou cuidadosamente o paninho no estojo de pele, bateu a porta muito devagar e dirigiu-se para o palco da feira do livro. Era caro para a sua Câmara, mas valia a pena: os seus concidadãos acotovelavam-se nos escaparates, homens de letras abancavam em sítios combinados e faziam dedicatórias. O povo gostava, e Oceano, o Rio, (Rui, aliás) estava feliz.
Por dentro. Por fora, aquela máscara de mau feitio. De quem pensa que, pelo facto de ter estudado numa escola de referência, deve  ser olhado de baixo, para a sua superioridade. Aquele ar de quem tem sempre razão e nunca se engana, como o Outro.

Primeira paragem: ali estavam os livros de fotografias de automóveis, uns mais clássicos do que os outros. Coloridos, flamejantes. Rui gostaria de, um dia, ter uma corrida de clássicos. Menos povo, mas mais gente. Importância nos escaparates internacionais, a família de um certo piloto do Porto a dizer que Oceano, o Rio, dito Rui, era grande, ressuscitara a velha paixão do Porto pelos automóveis, da Fórmula 1 a António Barros, o dos Mercedes ou dos Porches. Seria?

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Se conseguisse, jamais alguém se atreveria a contar a anedota de que a pior enchente da cidade foi quando o Rio chegou à Câmara. Aí, conjugava o adjectivo da Oposição, e dizia com Soares: o povo não tem memória. E acrescentava: os homens dos automóveis têm memória, haverá sempre um rasto de borracha queimada na Avenida da Boavista, e rails todo o ano, como um farol da modernidade.

Pepetela?! Poderia ter trazido o ipod, e, num instante, saberia quem era Pepetela, ou Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. Indesculpável. Serenamente, como quem conhece de cor a literatura africana em português, pegou no livro e foi folheando: “Que me perdoem os economistas – gente sempre muito séria e a tentar desesperada e infrutiferamente provar que segue uma ciência…”.

Iam-lhe caindo os pertences na lama! Mentira, a rua estava bem conservada, a sua “baixa” reluzia ao sol, o comércio tradicional prosperava, embora todas as inaugurações da feira do livro trouxessem uma ameaça de chuva que lhe toldava os pensamentos economicistas. Por isso, ficava em casa no dia da inauguração. Não queria molhar o seu Simca de colecção.

Com as palavras de Pepetela a moerem-lhe os atributos da licenciatura, o afilhado de Ângela, a teutónica, fruto de formação na escola Alemã, escondeu o mau feitio e seguiu para outro escaparate. Finalmente, o título! Ainda havia gente a escrever sobre coisas importantes. “Para acabar de vez com a cultura”. De um tal Woody Allen. Seria o dos filmes? Ou aquele que toca sax? Que importa? Se ele é assim tão importante e escreve um livro com este título, lá terá as suas razões. Por que carga de água, eu, Rui Oceano, dito O RIO, não faço o mesmo?

Saiu da feira, ainda sem entender grandemente por que razão “Getting even”, no original, deu esse tal “Para acabar de vez com a cultura” e, mesmo em espanhol, segundo o catalão Marcelo Covian, o título foi traduzido “Cómo acabar de una vez por todas con la cultura”. A mania dos latinos de criarem títulos compridíssimos, perante a síntese anglo-saxónica. Os tradutores não são economistas, gostam de perder tempo a inventar palavras desnecessárias…

Fez continência ao segurança de serviço nos Paços do Concelho, subiu ao seu gabinete e começou a gerar a solução. Sim ao circuito da Boavista, ali mesmo a passar pelo Parque da Cidade (negócios são negócios), pelo edifício transparente que é preciso trazer para o lucro. Não à feira do livro, à falta de melhor argumento, porque sim. Se até um gajo do Bronx, que mudou de Allan Stewart Königsberg para Woody Allen, como o “tipo da tabacaria” (esse que fumava ópio, que horror, e vivia numa mansarda enquanto a poesia lhe escorria para o papel em nome da arte nacional para as palavras), escreve que é preciso acabar com a cultura, e de vez, o que ando eu a fazer, alimentando esta minoria esquisita que ainda lê livros e passa infindáveis horas a discutir com o umbigo as intermitências do ego e os dias de desassossego?!

Por uma questão de prioridades (esta palavra é, mesmo, a minha cara, convenhamos), a Câmara do Porto cessa o seu apoio à organização da feira do livro, por imperativo de igualdade: a Câmara não tem obrigação de alimentar minorias intelectuais e elitistas quando o povo precisa de pão e circo.

O estudo que sustenta esta deliberação baseia-se no grande pensador americano Allan Könisberg, ademais no seu livro “Para acabar de vez com a cultura”; à Biblioteca Municipal será concedido um subsídio de 200.000€ para aquisição dos exemplares necessários desta obra, a distribuir por agremiações culturais e recreativas, bibliotecas itinerantes e fixas, e fará parte da lista de prendas da festa de natal dos filhos dos funcionários municipais. O seu estudo fará parte da formação dos agentes da polícia municipal.

Escusado será dizer que Rui Oceano nunca saberá que Woody Allen é essencialmente, para além de crítico social, um excelente humorista, e que o seu livro é uma sátira feroz, um libelo contra a falta de cultura. Nunca saberá, porque, para além da falta de tempo para ler algo que não seja sobre economia e automóveis, com o seu mau feitio, ninguém se atreverá a dizer-lhe a verdade sobre o que escreveu o cineasta e escritor americano. Talvez, um dia, a filha, mas essa é ainda pequenina para entender judeus americanos, armados em intelectuais.

E, porque o tempo não sobra ao autarca, dir-se-ia que assoberbado em garantir a impugnação de candidatura de um tal Filipe Meneses, a sua anedota política por excelência, aposto que não vai ler a última crónica do seu mais novo inimigo de estimação, que ultrajou a sacrossanta casta dos economistas.

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