Madame Ivone

A voz está sempre colocada acima do seu ponto natural. E isso contribui para que tudo o que ela diz soe a mentira. Se Madame Ivone nos assegura que dormiu esplendidamente nessa noite, quase podemos vê-la a dar voltas na cama e a tactear no escuro, para não acordar o marido, a embalagem dos calmantes. Se Madame Ivone conta as magníficas férias que passou em Fortaleza, sabemos que as odiou. Se nos diz que simpatiza tanto connosco, não temos dúvidas de que nos detesta e nos critica a cada oportunidade.

Madame Ivone tem orgulho na sua família superficialmente feliz e no seu apartamento numa zona cara da cidade. Tem orgulho nos vizinhos: administradores de empresas, professores universitários, engenheiros. Tem orgulho nos seus olhos cor-de-mel, ainda muito sedutores, e nos cabelos que toca constantemente, assegurando-se que estão bem colocados.

Na sua visão do mundo, existe gente trabalhadora e gente que não quer fazer pela vida, e se é certo que não trabalhou mais de dois ou três anos, na empresa da família, nem por isso se imagina parte dos que não querem fazer nada pela vida. Tem medo de negros e de ciganos, de romenos, estrangeiros em geral. Não consegue entender como nos atrevemos a andar sós pelas ruas, à noite, naquela nossa zona. Odeia a vulgaridade, o palavrão, a promiscuidade, o desvio. Acredita fervorosamente na implacável ordem do mundo: família, classes, costumes, permanência. [Read more…]

O fosso entre pobres e ricos em Portugal mantém-se

Se já sabíamos que Portugal é dos países europeus (2º) com o maior fosso entre pobres e ricos, ficamos agora a saber que quase nada mudou nesse sentido desde os anos 90. As políticas ditas inclusivas, as ditas sociais, as ditas formativas, parecem não ter efeito quanto ao que seria realmente importante conseguir: maior coesão e justiça social. Mais uma vez, independentemente de nomes e partidos, os políticos portugueses e, por arrastamento, o povo português ficam mal na fotografia.

Já quanto ao défice, Portugal que se cuide: Não conseguindo convencer madeirenses e açoreanos a serem vendidos, restam as Berlengas, a Fuzeta, a ilha de Faro e pouco mais. Mal dá para uns sacos de lentilhas.