Madame Ivone

A voz está sempre colocada acima do seu ponto natural. E isso contribui para que tudo o que ela diz soe a mentira. Se Madame Ivone nos assegura que dormiu esplendidamente nessa noite, quase podemos vê-la a dar voltas na cama e a tactear no escuro, para não acordar o marido, a embalagem dos calmantes. Se Madame Ivone conta as magníficas férias que passou em Fortaleza, sabemos que as odiou. Se nos diz que simpatiza tanto connosco, não temos dúvidas de que nos detesta e nos critica a cada oportunidade.

Madame Ivone tem orgulho na sua família superficialmente feliz e no seu apartamento numa zona cara da cidade. Tem orgulho nos vizinhos: administradores de empresas, professores universitários, engenheiros. Tem orgulho nos seus olhos cor-de-mel, ainda muito sedutores, e nos cabelos que toca constantemente, assegurando-se que estão bem colocados.

Na sua visão do mundo, existe gente trabalhadora e gente que não quer fazer pela vida, e se é certo que não trabalhou mais de dois ou três anos, na empresa da família, nem por isso se imagina parte dos que não querem fazer nada pela vida. Tem medo de negros e de ciganos, de romenos, estrangeiros em geral. Não consegue entender como nos atrevemos a andar sós pelas ruas, à noite, naquela nossa zona. Odeia a vulgaridade, o palavrão, a promiscuidade, o desvio. Acredita fervorosamente na implacável ordem do mundo: família, classes, costumes, permanência.

Tem uma capacidade inesgotável de contar-nos coisas com um grau de detalhe alucinatório, agarra-nos como uma boa e sufoca-nos com histórias sobre a placa vitrocerâmica, o teste de geometria descritiva da filha, a ida ao Dubai do arquitecto, o marido, porque Madame Ivone refere-se sempre ao marido pela sua profissão. Podemos perder-nos dentro das suas histórias, dão-nos a vertigem de olhar para dentro da cabeça de outra pessoa e não reconhecer uma única paisagem comum.

O seu adjectivo preferido é “coitado”, que usa indiscriminadamente como manifestação de ternura, de distanciamento ou de desprezo. Coitado pode ser o arquitecto, por trabalhar tanto, o porteiro do prédio, pela sua cortesia humilde, ou o sem-abrigo que lhe pediu dinheiro com as unhas negras.

Terá pecadilhos, que confessa ao domingo, terá talvez segredos tenebrosos. Já lhe vimos um rasto de lágrimas que a película de base não cobria inteiramente. Terá medo, como todos, do futuro. Mas ela nunca retira a sua máscara, assegura-se sempre, antes de bater a porta de casa, que a tem posta, bem ajustada, e só então é que sai à rua. Com a cabeça cheia de certezas e a voz demasiado aguda, anda com passos cautelosos, como quem receia estilhaçar-se.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Oh Ivone oh Ivone, Oh Ivone Goodbye my love – é esta?


    • sabes que Ivone é que não é? Esta: Yvonne

      • Carlos Fonseca says:

        Por mera coincidência, era mesmo nessa que estava a pensar…:):):).
        Parabéns de novo, Um ‘post’ à CR (o 7 não faz falta para nada) 


        • diz lá se eu não te conheço

          • Carlos Fonseca says:

            Sem demagogia, as mulheres são muito perspicazes; os homens não vêm um boi à frente dos olhos e ainda por cima estão convencidos de que são dominadores. A idade sedimentou-me este sentimento e só sei que não sei o que uma mulher sabe sobre qualquer homem. Então as inteligentes, ufa, ufa!!!


  2. Eu conheço tantas Ivones. 😉


  3. Cara Carla, como sempre, excelente!

    Eu acho que vou andar desconsolada até a Carla decidir publicar um livro chamado “Retratos Pintados a Palavras”! 🙂


    • Ora aí está, Isabel G., o que eu ando a pregar há que tempos. A Maria do Rosário Pedreira, no seu blog “Horas Extraordinárias” farta-se de falar nos jovens autores que tem descoberto e está empenhada em publicar.


      • Ainda bem que concorda comigo, Augusta Clara! Esta rapariga já devia ter obra publicada!

        E então, Carla, se isto não é motivação, do que é que precisa mais?


  4. Isabel e Augusta, agradeço-vos muito o incentivo. Não me parece – e não o digo para fazer número de coitadinha – que alguma editora esteja interessada neste tipo de textos. E talvez eles nem façam sentido noutro formato. Sinceramente, não é coisa que me tire o sono. Mas gosto muito de ter leitoras como vocês 🙂

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