Sons do Aventar – Ólafur Arnalds e Rodrigo Leão

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Ontem regressei à Casa da Música. O motivo: Ólafur Arnalds era o convidado de Rodrigo Leão.

Já tive a felicidade de assistir a vários concertos de Rodrigo Leão, um dos nossos maiores génios musicais, este seria mais um. Não, não era. A verdadeira razão da minha ida era outra. Ólafur Arnalds é uma espécie de Rodrigo Leão da Islândia (perdoem-me a comparação mas facilita a explicação). Com apenas 28 anos, este magnífico compositor, produtor musical e multi-instrumentista é senhor de algumas das mais fascinantes musicas dos últimos anos. Ver e ouvir, e logo na Casa da Música, estes dois génios era simplesmente imperdível.

E foi uma noite de magia. Ólafur misturou simplicidade com tranquilidade. Os primeiros minutos do concerto na Casa da Música explicam-se em poucas palavras: um absoluto e incrível silêncio da plateia. Um silêncio de respeito e admiração de muitos dos presentes e desconfio que uma parte significativa da audiência nem conhecia este islandês que começou a sua carreira como baterista “metaleiro”. Claro que sou suspeito: existe em Ólafur um misto de Sigur Rós (igualmente islandeses) com Yann Tiersen e Rodrigo Leão, tudo autores que sigo religiosamente. Mais tarde entrou Rodrigo Leão (na sala notou-se perfeitamente que a maioria vinha para o ouvir) e as primeiras músicas de Rodrigo Leão mostraram que continua absolutamente genial percebendo-se perfeitamente o porquê do seu êxito dentro e fora de portas. Ólafur regressou para um final conjunto que me deixou a querer mais. Por mim bem que podíamos ter ficado noite fora e só acabar com o nascer do sol que é das coisas mais bonitas de ver na cidade do Porto.

Agora é aguardar pelo seu regresso a Portugal. Se possível, novamente na Casa da Música.

Rodrigo Leão, Coliseu do Porto, ontem:

nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO – dEZ/09 – # 15: O Melhor de 2009!

Não é fácil escolher o melhor álbum de um determinado ano e, 2009, não foge a essa regra. Confesso que ao longo dos últimos anos, sobretudo desde que escrevo na blogosfera, dedico-me sempre a este exercício muito pessoal e subjectivo. De Lhasa a Lilla Downs, passando pelos Sigur Rós ou os Arcade Fire, muitas foram as escolhas de melhor entre os melhores.

O ano de 2009 não foi, na minha opinião, um ano vintage mas esteve perto. Chegados a este ponto, ao final, os dedos de uma mão chegaram para uma selecção: Phoenix, XX, Jonsi & Alex, Moby e Rodrigo Leão. Em qualquer dos casos, trabalhos fabulosos e marcantes. Mas, só um podia ser o melhor de 2009. Uma opinião muito pessoal. Quando olhei para estes cinco e repeti, vezes sem conta, a audição dos seus trabalhos, procurei que a escolha tivesse em conta um factor essencial: qual destes trabalhos será o mais intemporal e que mais marcante será na história da música. Daí não ter dúvidas: o álbum Mãe, de Rodrigo Leão é, sincera e honestamente, o melhor trabalho musical de 2009. Pela sua imensa diversidade musical, pelo bom gosto e qualidade dos arranjos, pela voz da Ana, pelos convidados internacionais e por todo o passado (e o que ele representa na música internacional) de Rodrigo Leão.

É a primeira vez que escolho um autor português. Sendo-o, não podia deixar de ser o Rodrigo Leão. Aqui fica o vídeo e a recordação, AQUI, do que escrevi sobre o seu concerto no Coliseu do Porto (cujo post no Aventar sumiu!!!).

Assim terminam os “nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO” de 2009 no Aventar, um espaço que nasceu num outro blogue a que pertenci e que agora está no Aventar. Em 2010 regressa ao Aventar e, se tudo correr como planeado, será transformado num programa de rádio. A ver vamos. Aproveito para desejar a todos os leitores, amigos e companheiros do Aventar, um grande ano de 2010!

Rodrigo Leão

Rodrigo Leão

Lá fora chovia copiosamente. Era sábado, a primeira noite de um fim-de-semana prolongado. Nos écrans de televisão estava a dar o sporting-benfica.

Fomos mais de três mil que viramos costas a tudo, ao futebol, às mini-férias de Dezembro, ao aconchego de nossa casa. No dia em que soube que eles vinham ao Porto, tratei de vida. Foram três notas de vinte aplicados em prenda à patroa. Nem que chovessem canivetes, pensava eu, longe de saber que não foram canivetes mas penicos dela. “Vida tão estranha”, canta a Ana. “Como uma corda tensa vivo o dia-a-dia” e são estas noites de magia que nos aliviam a alma. E que noite, meus caros amigos e amigas, que noite!

Era a primeira vez que o Coliseu se enchia para os receber. Francamente, dei por mim a pensar que estava a sonhar. Como um Porto Vintage, um jantar no D.O.C. ou uma escapadela no Alentejo profundo, imaginem um concerto que juntou tudo o que de bom se faz em Portugal. Agora que estão a imaginar e o deslumbramento vos invade, eis encontrada a definição para este concerto de Rodrigo Leão e os Cinema Ensemble nesta noite de verdadeira magia.

Nas suas faces, perante um Coliseu pelas bordas, via-se o nervoso miudinho. Todos os artistas, incluindo muitos dos internacionais que nos visitam, sabem que este público é especial. Exigente e duro mas de uma entrega genuinamente total quando perante a excelência. E isso pesa, se pesa, na cabeça de qualquer artista. Foi aqui que vi a Beth Gibbons chorar como uma menina tal o ambiente electrizante com que o Porto recebeu os Portishead e a surpresa estampada no rosto de Lila Downs na Casa da Música mas também um certo distanciamento de boa parte da assistência quando os Feist por cá passaram e que dizer da loucura instalada aquando do concerto dos Placebo? Somos assim, ou tudo ou nada.

Esta foi a noite da consagração de Rodrigo Leão e dos Cinema Ensamble no Porto. Merecida, mais do que merecida. O Rodrigo Leão é o maior génio vivo da música portuguesa e só se espanta quem não conhece. Mas esta foi uma noite especial, muito especial para a Ana. A sua voz é divina. A forma como começou nervosa, quiçá receosa perante tantos e tantos e se superou por via de uma entrega total e absoluta, numa comunhão perfeita com os músicos, marcou-me profundamente e, tenho a certeza, a todos os presentes. Foi uma dádiva.

A Ana Vieira entrou, a partir de hoje, na “minha” galeria das mais notáveis vozes femininas. Mas o que estou eu a dizer? Ó injustiça! Qual Beth Gibbons, qual Lila Downs, qual PJ Harvey ou Laura Veirs ou Yael Naim? Lhasa de Sela? Joanna Newsom? Little Annie ou Teresa Salgueiro? Qual quê? A Ana Vieira é “A Voz”.

O seu canto, em português (perfeito), em francês (maravilhoso), em castelhano (castiço), em inglês (competente), etc, etc, etc, supera qualquer outra.

Ela ali, sozinha perante o holofote de luz, com o microfone na mão direita enquanto a esquerda ajuda a amparar o corpo no tripé, a sentir os instrumentos e a embalar o público num êxtase completo cantando “a minha alma chama por ti” e, no fim, o calor das palmas, dos gritos de “bravo” e ela, a sorrir envergonhada como uma criança e com as mãos abertas com os dedos esticados, muito hirtos, como dez pequenas barras de ferro, fugindo da nossa vista. Ela fugiu, refugiou-se atrás da cortina preta enquanto o Coliseu vinha abaixo numa enxurrada de palmas e palmas e palmas. Ela fugiu talvez querendo manter escondido este que foi, até hoje, o maior “Segredo” da nossa música e eu “Em vão procuro as palavras” que expliquem o que hoje aconteceu e só “peço mais uma vez ao tempo” que me permita voltar a assistir a uma noite assim.

O Porto é assim, grato perante o sublime, insistiu incessantemente para um regresso ao palco e no que foi retribuído. Mas não chegou e, uma vez mais, quando o Coliseu já tremia, outro regresso com repetição de temas fruto, julgo eu, da surpresa, outros não estavam preparados. São assim as noites de apoteose. São assim as noites mágicas.

nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO – jUNHO 09:

nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO – Junho 2009:

Antecipando o almoço do Aventar no grande concelho da Maia, aqui fica um especial desta rubrica mensal sobre música. Prometo não escrever sobre o Michael Jackson.
Aqui vai:
1. Rodrigo Leão – A Mãe
2. Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix
3. Camera Obscura – My Maudlin Career
4. The Decemberists – The Hazards of Love
5. Vários – Dark Was The Night
Em suma: o novo de Rodrigo Leão demonstra que quem sabe nunca esquece. Os Phoenix são, para mim, uma espantosa novidade. Já os Camera Obscura neste seu último trabalho conseguem manter a elevada qualidade que sempre nos apresentaram e o mesmo se diga quanto aos Decemberists.
Por último, Dark Was The Night, publicado em fevereiro deste ano é um óptimo álbum para “caloiros” nas andanças da música alternativa.
Aqui ficam os Phoenix (eu não quero que vos falte nada…):

(todos os “nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO” podem ser vistos AQUI)