Jovens folhas

Se a tivessem conhecido, a primeira pergunta que ela vos teria feito, aposto convosco, seria:

– Quantos anos me dá?

E enquanto vocês atiravam números errados – 70, 73, 77, 80 – ela ficaria a olhar-vos com olhinhos matreiros, antegozando a vossa surpresa quando ela vos dissesse a verdade.

– Pois tenho 86, feitos em Janeiro.

E percebendo a alegria que lhe davam, vocês haveriam de exagerar o vosso espanto, que, não sendo pequeno, porque ela sempre aparentou menos idade, podia bem ser aumentado para alegria e orgulho da D. Carmen.

Assim foi a primeira conversa com a nova vizinha, quando há anos mudei de casa. Passei as semanas seguintes a vê-la saltar pequenos muros, a passear-se pelo bairro com grandes passadas e o andar sacudido de um basquetebolista, um caminhar de rapaz reguila que contrastava de forma bizarra com as ondinhas brancas do seu cabelo e os travessões de menina. Via-a nua muitas vezes, ou não gostasse ela de saudar o sol pondo-se em pelota à janela a cada manhã, ou porque achava que ninguém a via ou porque tanto lhe dava.

Da minha varanda vejo a casa dela, em frente à minha, uma casa baixinha, com um talhãozito de terra ao lado. Vivia sozinha, com visitas frequentes de um familiar, e a única coisa de que se queixava era do tempo porque, como eu, passava frio de Outubro a Maio. Conhecia-a durante todos estes anos sem nunca a conhecer muito bem, não mais do que as curtas conversas de vizinhos que não se frequentam.

Já adivinham por esta altura que a Carmen se despediu deste mundo há umas semanas com a mesma discrição com que vivia, sem dar trabalho e sem fazer alarde. Ninguém avisou da notícia e quando se soube já o funeral tinha sido, triste exemplo da falta de relações de vizinhança, que já nem um último ramo de flores nos deixa oferecer a quem se despede.

Mas o que descobrimos, entretanto, é que a Carmen não foi embora ainda. Uns dias antes de morrer tínhamo-la visto na sua nesga de horta, atarefada em volta da terra. E agora que a casa está fechada, e as portadas já não se abrem para a saudação ao sol, nem se ouve o baque metálico do portão a fechar-se quando ela saía para comprar pão, começaram a irromper na horta as couves, os tomates, as abóboras, as primeiras folhas que a semeadora já não conheceu. Como ninguém vem abrir a casa e deixar que a aragem volte a correr entre quatro paredes, não há quem cuide das jovens folhas e do seu tenro despontar. Por isso revezamo-nos a enfiar mangueiras pelas grades e a lançar baldes de água para a horta encerrada.

Semeia-se sempre para o tempo que ainda não se conhece. As folhas crescem sem que ninguém as vigie e das sementes que se lançaram à terra pode nascer a planta que nos sobreviverá. Chegará o tempo de colher os frutos da terra, os frutos da Carmen, e talvez nos toque assaltar-lhe a horta para fazer justiça à semeadora. Porque ela haveria de querer que comêssemos estes frutos e a lembrássemos, à semeadora que deixou na terra a sua despedida.

Onde estiveres, fica sabendo, Carmen, que as folhas estão viçosas e finalmente há sol na tua horta e até na janela onde já não estás.

Comments

  1. Amadeu says:

    Adorei o texto. Obrigado Carla.

  2. carla says:

    para começar a semana é sempre bom encontrar um texto com “sentidos “.

  3. Adélia Pires says:

    Obrigada por mais esta pérola Carla 🙂


  4. Que dizer? De quem observa e retrata o mundo que a rodeia, espero que o talento continue a fluir para prazer de quem te lê. Parabéns!

  5. José Manuel Coelho Vieira Soares says:

    Parabéns pelo texto !

  6. adelinoferreira says:

    Tu Carla, vês e reparas! lindo! obrigado.


  7. É, a Carla já nos habituou, escreve que é um mimo. Parece ter grande sensibilidade humana e tem a “sorte” de saber transformá-la em belas palavras. Parabenizá-la e agradecer-lhe eis o dever deste seu admirador.


  8. Também é por estas e por outras que há coisas que guardo para não serem de toda a gente.
    Mas devias ter metido uma fotografia neste texto.

  9. Carlos de Sá says:

    Obrigado.


  10. Que lindo o teu texto Carla. Obrigado.


  11. É bom que alguém se preocupe com os velhos . Ainda só tenho
    64 anos sem saber até quando , ainda falta um bocado para os
    86 anos , que não me preocupa saber se chego lá ou não .
    O que me preocupa é a indiferença dos seres humanos de uns
    para com os outros , novos ou velhos .
    É bom que você tenha estes sentimentos , esta prosa .


  12. Que bom escrever assim, e que sorte a nossa de a podermos ler!


  13. Gosto de estórias assim, com gente dentro e escritas com o nosso orgão mais inteligente, o coração. Parabéns, Carla.

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