Qualquer semelhança com a realidade é pura sorte

Montou-se a confusão no bairro e o epicentro foi a loja do Mukta. Quando vamos à loja dele tentamos incomodar o menos possível porque ele está a falar no skype com uma multidão que se sucede a um ritmo estonteante. Homens, mulheres, crianças, quiçá parceiros de negócio, primos, irmãos, sobrinhos, antigos vizinhos, vendedores de automóveis, cobradores de impostos, velhos amantes.

Falam todos muito depressa, como se pressionados pela fila que se vai formando atrás. E apesar de não entendermos uma palavra do que dizem, não podemos deixar de sentir que viemos interromper uma conversa e intrometer-nos em assuntos onde não eramos chamados.

É capaz de ser pelas constantes interrupções que o Mukta mostra sempre um rosto tenso quando nos atende, e uma certa expressão de censura pelos nossos hábitos descomedidos. Entrega o cigarro comprado avulso como quem lhe apetece dar-nos uma descompostura por sermos viciosos. O mesmo com a cerveja, o mesmo com a embalagem de gomas reluzentes de E-226 e açúcar.

Eu tinha acabado de entrar e a miúda já lá estava, a remexer na arca dos gelados, e logo avançou para a caixa com ar enojado e uma coisa verde nas mãos. [Read more…]

Jovens folhas

Se a tivessem conhecido, a primeira pergunta que ela vos teria feito, aposto convosco, seria:

– Quantos anos me dá?

E enquanto vocês atiravam números errados – 70, 73, 77, 80 – ela ficaria a olhar-vos com olhinhos matreiros, antegozando a vossa surpresa quando ela vos dissesse a verdade.

– Pois tenho 86, feitos em Janeiro.

E percebendo a alegria que lhe davam, vocês haveriam de exagerar o vosso espanto, que, não sendo pequeno, porque ela sempre aparentou menos idade, podia bem ser aumentado para alegria e orgulho da D. Carmen.

Assim foi a primeira conversa com a nova vizinha, quando há anos mudei de casa. Passei as semanas seguintes a vê-la saltar pequenos muros, a passear-se pelo bairro com grandes passadas e o andar sacudido de um basquetebolista, um caminhar de rapaz reguila que contrastava de forma bizarra com as ondinhas brancas do seu cabelo e os travessões de menina. Via-a nua muitas vezes, ou não gostasse ela de saudar o sol pondo-se em pelota à janela a cada manhã, ou porque achava que ninguém a via ou porque tanto lhe dava. [Read more…]