Já não há fantasmas

Aqui no bairro há um palacete que está há tempos para ser convertido em qualquer coisa ao serviço dos turistas mas não há meio de isso acontecer porque é preciso muito dinheiro para recuperar aquelas velhas paredes e o lugar é pouco apetecível para camones. É uma casa bastante feia, construída ao gosto novo-rico da época, e foi abandonada há mais de uma década. As portadas já não cerram e deixam esvoaçar cortinados negros e há vultos a assomar-se às janelas em noites de luar.

Não há crianças a pular o muro para ir explorar a casa porque as crianças já não fazem essas coisas, têm o tempo tomado por actividades extracurriculares, mas é uma casa claramente assombrada, a pedir que crianças com tempo livre vão lá assustar-se. E é precisamente neste ponto que começa o diferendo entre mim e o bairro. Espantosamente, já ninguém acredita em casas assombradas. Na mercearia olham para mim como se eu tivesse acabado de defender que é o sol a girar à nossa volta. [Read more…]

Qualquer semelhança com a realidade é pura sorte

Montou-se a confusão no bairro e o epicentro foi a loja do Mukta. Quando vamos à loja dele tentamos incomodar o menos possível porque ele está a falar no skype com uma multidão que se sucede a um ritmo estonteante. Homens, mulheres, crianças, quiçá parceiros de negócio, primos, irmãos, sobrinhos, antigos vizinhos, vendedores de automóveis, cobradores de impostos, velhos amantes.

Falam todos muito depressa, como se pressionados pela fila que se vai formando atrás. E apesar de não entendermos uma palavra do que dizem, não podemos deixar de sentir que viemos interromper uma conversa e intrometer-nos em assuntos onde não eramos chamados.

É capaz de ser pelas constantes interrupções que o Mukta mostra sempre um rosto tenso quando nos atende, e uma certa expressão de censura pelos nossos hábitos descomedidos. Entrega o cigarro comprado avulso como quem lhe apetece dar-nos uma descompostura por sermos viciosos. O mesmo com a cerveja, o mesmo com a embalagem de gomas reluzentes de E-226 e açúcar.

Eu tinha acabado de entrar e a miúda já lá estava, a remexer na arca dos gelados, e logo avançou para a caixa com ar enojado e uma coisa verde nas mãos. [Read more…]

Louvor à polícia do meu bairro

Andou aqui um alvoroço na minha rua com uns barbudos mal-encarados que se passeavam por aí, a olhar para cima, como que a tomar nota de cada prédio, quem sabe também a atentar nos hábitos dos moradores para saber a que horas poderiam encontrar a casa desamparada. Deu-se o alerta na esquadra aqui do bairro, e lá saíram para a patrulha os agentes da zona.

Entre os agentes policiais existem duas categorias: aquela a que no submundo se chama “a bófia” e a que ocupa a esquadra do meu bairro. Quando vejo o agente A, bigodudo, com os quadris gordos e gingões, com a arma que se vê que é velha como um bacamarte de museu a gingar, também ela, a caminho da tabacaria do comunista,  e o ouço a saudar os trabalhadores da transportadora que aguardam, à porta, a chegada do camião, com um jovial “então bom dia, meus senhores”, eu não consigo não gostar da polícia do meu bairro.

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