Qualquer semelhança com a realidade é pura sorte

Montou-se a confusão no bairro e o epicentro foi a loja do Mukta. Quando vamos à loja dele tentamos incomodar o menos possível porque ele está a falar no skype com uma multidão que se sucede a um ritmo estonteante. Homens, mulheres, crianças, quiçá parceiros de negócio, primos, irmãos, sobrinhos, antigos vizinhos, vendedores de automóveis, cobradores de impostos, velhos amantes.

Falam todos muito depressa, como se pressionados pela fila que se vai formando atrás. E apesar de não entendermos uma palavra do que dizem, não podemos deixar de sentir que viemos interromper uma conversa e intrometer-nos em assuntos onde não eramos chamados.

É capaz de ser pelas constantes interrupções que o Mukta mostra sempre um rosto tenso quando nos atende, e uma certa expressão de censura pelos nossos hábitos descomedidos. Entrega o cigarro comprado avulso como quem lhe apetece dar-nos uma descompostura por sermos viciosos. O mesmo com a cerveja, o mesmo com a embalagem de gomas reluzentes de E-226 e açúcar.

Eu tinha acabado de entrar e a miúda já lá estava, a remexer na arca dos gelados, e logo avançou para a caixa com ar enojado e uma coisa verde nas mãos.

– Este Calippo está aberto!

O Mukta ofende-se. Mostra a tampa intocada.

– Calippo não aberto!

A miúda aponta para baixo, para a embalagem rasgada.

– Ai está, está!

O Mukta segura pedagogicamente o Calippo, aponta para a tampa e explica:

– Tampa!  Calippo não aberto.

Entretanto, começa a aparecer a primeira viscosidade verde a escorrer da embalagem claramente rasgada e o Mukta leva-a de volta para o gelo.

– Mas esse Calippo estava aberto, não se pode vender… – protesta ainda a miúda.

– Não! Calippo fechado!  – Mukta é agora a imagem da fúria contida, da indignação que mal se consegue controlar. Traz na mão outro Calippo, intacto, e a miúda, subitamente consciente de que se pôs a passear pela borda de um vulcão, pousa as moedas no tampo do balcão, sob o olhar paciente de um homem que, algures em Rajshahi, a observa do outro lado do skype, pega no Calippo não aberto e pira-se dali para fora.

Horas depois aparece na loja o inspector da ASAE. Levo muito tempo a avisar a vizinhança sobre este gajo. Por minha causa, já lhe serviram à borla pratinhos de presunto nos restaurantes, cafés com cheirinho que ficaram por cobrar, porque eu vou aos mesmos sítios que ele, o bairro todo, e chamo o dono à minha mesa e digo-lhe, com a discrição  que aprendi nos filmes da mafia, “olhe que este gajo é da ASAE” e assim lhe vai correndo bem a vida.

O Mukta continua no skype, já falou com trinta e tal pessoas, já vendeu outros trinta e tal cigarros avulsos e o Calippo continua no mesmo sítio, com a camada fina de viscosidade verde agora solidificada, um magma reluzente e alienígeno, e o gajo da ASAE entra e vai directo à arca dos gelados, ai catraia, o que tu foste fazer.

Uma hora mais tarde, a loja está fechada por tempo indeterminado, o Mukta chora na rua com o rosto escondido entre os dedos, rodeado de conterrâneos de rosto fechado e que trocam opiniões entre sussurros, e os angolanos da associação em frente baixam o volume da “Kilapanga”, pela Orquestra Monumental Show, em sinal de respeito, e vêm sentar-se no passeio para o caso de serem precisos. E é então que passa a miúda do Calippo que, reconheço-a agora, é filha do Jamal, o mesmo que dizer que está o caldo entornado.

O Mukta vê-a, reconhece-a, solta um pequeno grito, aponta para ela freneticamente, e o Jamal, que até aí tinha ficado sentado na borda da janela, sai devagar da associação, de maneira que a sua sombra avança aos poucos até ocupar a porta toda. Vai subindo o rumor de vozes de cada lado, formam-se duas filas, cada uma do seu lado do passeio, solidários com Mukta vs. solidários com Jamal e família, o gajo da ASAE já deve ter ido jantar por esta altura, o bairro detém-se.

A miúda, que não tem razões para sentir-se culpada, só disse no café que lhe queriam vender um Calippo aberto, não percebe porque olham para ela, e responde:

– Que é que foi?

É quanto basta para desatar tudo ao insulto, se é que o é, porque ninguém se entende entre si, coisa que complica que alguém se sinta ofendido, numa algaravia que enche a rua de susto. Sobe outra vez o volume da quizomba, alguém traz um portátil de casa para que no skype se assista à altercação, todos opinam, a miúda explica-se, o Jamal afaga lentamente a cabeça rapada com aquele vagar das horas em que matuta nos problemas que lhe vêm contar, o Mukta discute amplamente o assunto no skype, e no final solta uma brevíssima risada que é recebida como um bom augúrio. Por volta das dez e meia, Mukta e Jamal apertam as mãos para alívio da vizinhança que já temia um conflito noite dentro. Os apoiantes do primeiro recolhem a casa, os do segundo dançam noite dentro.

Enquanto a ASAE não abre a loja, o Mukta instalou-se numa sala da associação, cigarros avulsos, chicletes, chinelos de praia, tudo o que quiserem a preços módicos. Calippos, a bem da amizade entre povos, é que já não.

Comments

  1. Uma gaja says:

    Um belo conto.

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