Escola: conteúdos e memória

A Educação mudou muito nos últimos anos e não foi para melhor – poderia citar os 30 mil professores que NUNO CRATO despediu nos últimos três anos, mas desta vez vou falar de Educação pelo lado dos alunos e das suas aprendizagens.

O que é um bom aluno?

A resposta mais comum andará em torno destas respostas: um aluno que tira boas notas, um aluno que aprende bem, um aluno que tem sucesso, que

Ora, tenho vindo a pensar nisto porque enquanto profissional me sinto cada vez mais condicionado a dirigir a minha prática pedagógica para um caminho que está errado – os exames (ou os testes).

Na Escola de hoje tudo parece ser mensurável e para medir nada mais fácil do que quantificar tudo o que mexe como se a escola fosse uma linha de montagem. Não é e não pode ser.

Com a febre do accountability às Escolas são pedidos resultados que se medem pelas notas que os alunos têm nos testes, isto é, nos exames. Ora, qualquer pessoa que tenha passado pela Escola sabe que há uma diferença MUITO significativa entre ser um bom aluno e ter boas notas nos testes (exames).  E trago apenas dois argumentos para abrir uma discussão a que quero voltar mais vezes:

1) À escola foram atribuídas uma série de competências que manifestamente não fazem parte do seu património. Se há acidentes, educação rodoviária. Gravidez na adolescência? Educação Sexual…

Ora, esta exigência que a Sociedade entrega à Escola não é coerente com a exigência do trabalho para responder bem nos exames. É fundamental ensinar aos mais novos como se devem comportar em público e a verdade é que a família que fazia isto já não existe. Ou, se existe, demite-se de o fazer. Mas, depois os Governos terminam com áreas como a Formação Cívica ou a Área de Projecto onde estas questões tinham um trabalho mais profundo. Decidam-se: a Escola não pode ser, em simultâneo, ambas as coisas: uma Escola do futuro onde a educação é o centro ou uma Escola do Salazar onde só a transmissão de conteúdos é importante.

2) As teorias mais recentes na área da aprendizagem explicam que nem todas as pessoas aprendem da mesma maneira. Este facto não é novidade para ninguém, mas hoje temos factos científicos que mostram evidências que há alunos que aprendem ouvindo, outros conseguem aprender vendo, enquanto outros há que só conseguem aprender fazendo. Ora, com a pressão que hoje existe na Escola, cada aula voltou a ser uma chatice do século passado – o professor (às vezes a Escola Virtual ou um Power Point) fala e o aluno ouve. Depois, há um dia, em que vai escrever sobre o que ouviu. O professor transmite o conhecimento e o aluno aprende. Simples, não?

Errado, porque este modelo de escola só valoriza um tipo de alunos – o aluno que tem boa memória. Nada mais. A Educação Física é uma chatice porque os meninos se constipam ou apanham frio. A música é uma coisa de rico que pobre não precisa…

A Escola de hoje, em quase todas as disciplinas, é uma escola de decorar e, nesse sentido, percebe-se a ideia de Nuno Crato – cabe sempre mais um dentro da sala, porque não é suposto o aluno fazer nada que não seja, estar calado, ouvir e copiar para o caderno. Neste contexto até me surpreende que não possam estar 50 alunos na mesma sala.

Se na saúde as apostas da direita radical já começam a mostrar resultados, na Educação, as contas chegarão mais tarde. E, menos Escola, menos Educação vai ter um custo. Muito elavado, por sinal e quem vai pagar, serão os alunos de hoje, os cidadãos de amanhã. Isto é, os nossos filhos.

 

 

Comments

  1. PipaII says:

    E os alunos que não aprendem por este meio fartam-se de sofrer, pois não encaixam na escola que temos.


    • É isso mesmo. Aliás, há um facto curioso, que serve de exemplo para o que acima escrevi – nas escolas, os problemas de indisciplina são quase todos (90%?) com rapazes. Alguém tem uma explicação para isto? Ou seja, há questões na organização da escola que promovem comportamentos e uns “entram” bem e outros nem por isso. Ora, a Escola deveria ser organizada para promover o sucesso de todos.
      JP


  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  3. Pereira Gomes says:

    Hoje fazem agrupamentos escolares, aonde depositamos os nossos filhos, filhos desta nação, que um dia serão também políticos, advogados, magistrados, professores e outras profissões, enfim serão os novos cidadãos do novo amanhã. Que formação terão as novas gerações com um ensino impessoal, sem valores e a maior parte deles com famílias desestruturadas. Que futuro terá esta nação com uma geração sem educação, sem conhecimento, sem ética.
    Tudo isto porque um novo valor se levanta; o valor do novo deus, o deus dinheiro o deus bezerro de ouro, que levará ao aniquilamento da civilização ocidental.

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