O Diário do Prof. Arnaldo – Testes mais fáceis

Olha, lembrou-se! Para a Coordenadora de Departamento, a culpa das más notas do 1.º Período é minha. Porque a percentagem de negativas é superior às das outras disciplinas. Porque as notas estão muito abaixo das metas cratas. E porque sim.
Ainda pensei em mandá-la à merda, mas quando me pediu estratégias para reverter a situação, respondi com um sorrisinho irónico: «Testes mais fáceis».
Não gostou (do sorrisinho). Que estava a fazer-me de vítima, que não era nada contra mim, que só tinha traçado um panorama geral da situação.
Depois de mandá-la à merda, o passo seguinte seria mandá-la à bardamerda. Mas como não dei o primeiro passo, não pude dar o segundo. E por isso voltei a responder (agora sem sorrisinho): «Testes mais fáceis».
E não é que ela achou muito bem?
A partir de agora, fica prometido, [Read more…]

Escola: conteúdos e memória

A Educação mudou muito nos últimos anos e não foi para melhor – poderia citar os 30 mil professores que NUNO CRATO despediu nos últimos três anos, mas desta vez vou falar de Educação pelo lado dos alunos e das suas aprendizagens.

O que é um bom aluno?

A resposta mais comum andará em torno destas respostas: um aluno que tira boas notas, um aluno que aprende bem, um aluno que tem sucesso, que

Ora, tenho vindo a pensar nisto porque enquanto profissional me sinto cada vez mais condicionado a dirigir a minha prática pedagógica para um caminho que está errado – os exames (ou os testes).

Na Escola de hoje tudo parece ser mensurável e para medir nada mais fácil do que quantificar tudo o que mexe como se a escola fosse uma linha de montagem. Não é e não pode ser.

Com a febre do accountability às Escolas são pedidos resultados que se medem pelas notas que os alunos têm nos testes, isto é, nos exames. Ora, qualquer pessoa que tenha passado pela Escola sabe que há uma diferença MUITO significativa entre ser um bom aluno e ter boas notas nos testes (exames).  E trago apenas dois argumentos para abrir uma discussão a que quero voltar mais vezes: [Read more…]

Agora como não chumbam estão no 10º ano e fazem testes Pisa com muito melhores resultados

Onde é que meteram em 2009 os alunos com 15 anos que em 2006 estavam no 7º e 8º?

No Expresso de hoje Isabel Leiria pensa que estão no 10º ano, porque agora não reprovam e como tal sabem mais. Fantástico. Mas também podem estar num Curso de Educação e Formação (CEF) e não terem feito os testes Pisa.

A grande mudança no ensino em Portugal entre 2006 e 2009, afectando os alunos que dantes chumbavam de forma a estarem no 7º e 8º com 15 anos, foi precisamente terem sido encaminhados para os CEF’s (e muito bem, acho eu).  Nos CE’Fs pelo menos não chumbam. Mas os CEF’s não constam desta tabela. Até parece que os alunos dos CEF’s foram marginalizados desta oportunidade de demonstrarem as suas competências, o que seria uma enorme injustiça, e para alguns uma grande batota.

Por coincidência a subida da média nacional nos testes Pisa resulta sobretudo da subida dos piores alunos. Ou do truque de terem sido substituídos por outros, correspondendo aos que em 2006 estavam no 10º ano, bastando para isso que os alunos dos CEF’s com 15 anos não tenham feito o teste.

Um caso em que uma escola básica pediu escusa porque o “grupo de estudantes a avaliar tinha uma taxa muito elevada de casos de insucesso,” é conhecido.

Nesta remota hipótese, que não queria colocar mas já coloquei depois de esfregar os olhos na caixa de comentários do post onde esta tabela foi publicada pelo Paulo Guinote,  toda a propaganda que o governo tem feito seria um enorme barrete, a enfiar por todos nós, e ainda pela OCDE a quem primeiro teria servido.

O que está totalmente fora de causa, é claro, mas fará de Maria de Lurdes Rodrigues a maior prestidigitadora de números da História da Educação em Portugal.

o conteúdo do processo educativo

Acabado o comercial Dia Internacional da Criança,toca trabalhar

Já lá vão uns anos quando, num artigo que publiquei na Revista Educação, Sociedade e Culturas, Nº 1, 1994, defini o conceito «processo educativo». Porém, nessa data e nessa definição, ficou por referir uma ideia importante que, por hábito, não nos lembramos que faz parte do processo educativo. Essa ideia é a análise da catequese nos países, como Portugal, que usam a teoria cristã para orientar a sua vida. Ideia que denomino, noutros textos publicados pela Editora Afrontamento, como a lógica da História. A Catequese, baseada no livro de Karol Wojtila de 1992 e de Bento XV de 1919, extraída da Summa Theologica de Tomás de Aquino (1267 e 1273), que por sua vez recorreu aos textos muçulmanos de Averröes e à obra de Aristóteles, defende que o corpo e a alma são uma continuidade que pensa, sente e raciocina com toda a liberdade, inseridos na Lei Natural, tendo por limite a Lei Civil e/ou Penal. Antes de uma criança entender o que é a relação íntima a dois, já lho é ensinado, por Catequistas, Missionários, Padres, Freiras, Professores e no universo da Casa. Ensino Doméstico que o teólogo liberal e moralista da Igreja Presbiteriana da Escócia, Adam Smith, orientado pelos textos de Jean Calvin de 1535, considera, no seu trabalho de 1759, A teoria dos sentimentos morais, como o melhor sítio para aprender hábitos e sentimentos. [Read more…]

A problemática dos testes

Hoje, na aula de inglês tivemos uma discussão sobre o sistema educacional português. Tudo isto porque, basicamente, eu resolvi dizer que achava que os testes não deviam valer tanto, como valem especialmente no ensino básico e secundário. Acho que somos obcecados com testes. Mas já vou a este ponto. Eu disse que achava absurdo que numa disciplina como História o teste valesse 60% da nota. Enquanto trabalhos maiores, em que é preciso fazer pesquisa, planificação, montagem do trabalho, por vezes até entrevistas ou gravações, e dá, consequentemente, muito mais trabalho, valem uns meros 20%. O meu professor, o Harry, perguntou a opinião dos restantes colegas. Todos olharam para mim como se eu fosse uma ave rara e disseram que achavam muito bem a existência e importância de testes pois eles obrigam a estudar, e obrigam os estudantes a estar preparados. O Harry riu-se e disse que achava divertida a reacção dos alunos quando ele lhes dizia que ia fazer um teste. Ficavam pálidos e assustados, até porque ele tem o hábito de chegar à sala e dizer: olhem hoje vamos fazer um teste. É preciso dizer que os testes que faço no inglês são praticamente uma maneira de aferir os nosso conhecimentos e não propriamente algo que vai influenciar a nota que vamos ter.

Eu dei então os exemplos com que me deparei ao longo dos meus anos de estudante. Ou seja, colegas que nada faziam nas aulas e cujo o comportamento nem era dos melhores mas, quando chegava o teste, estudavam e acabavam por se safar.

Ninguém pareceu estranhar isto. Pedi então ao Harry para explicar como funcionava em Inglaterra. Ele explicou-nos que para eles importantes são os exames – e só há 2 anos que têm exames – e a avaliação do resto da escolaridade  é feita através daquilo a que ele chamou desenvolvimento do trabalho e do estudante. Afinal, parece que há outras maneiras de saber se o aluno estava ou não a aprender.

No fundo a questão é esta. O aprender. Nós a estudar para os testes decoramos a matéria e já está. Eu sei do que falo, afinal estou em Humanidades. O facto é que no momento em que saímos da sala em que estivemos a fazer o teste aquilo varreu-se da nossa mente, mas isso não interessa para nada. Sim, eu estive a decorar as características da pintura modernista; lembro-me lá eu agora quem eram os pintores do Expressionismo. Se for estudar outra vez, é óbvio que me lembrar-me-ei com muito mais facilidade. Mas será que sei mesmo? Será que é isto que é conhecimento? No ano passado, durante o malfadado trabalho sobre o Humberto Delgado sinto que aprendi muito mais do que a estudar para meia dúzia de testes.

Vejo pelos meus colegas, alguns mais do que outros, que há uma obsessão nada saudável em relação aos testes. Lembro-me de colegas minhas que choravam – choravam! – quando o teste lhes tinha corrido pior e tinham uma nota inferior à que esperavam. O que é que isto diz sobre o nosso ensino? Os testes são uma maneira de obrigar os alunos a estudar e a esforçarem-se. Mas será que, no fim do dia, aprendemos alguma coisa?