A insustentabilidade à vista e os tomates nos olhos

Toda a gente sabe que andamos a teimar num sistema de crescimento insustentável e destruidor.

Toda a gente sabe, mas (quase) toda a gente faz de conta que não. Aos que, há décadas, andam a alertar para os limites do planeta e a demonstrar os estragos feitos, aplica-se-lhes o carimbo de profetas da desgraça, paranóicos.

A reacção dos decisores aos profusos sintomas da destruição acontece de má vontade, ao relanti, a fingir e só depois de muito estrago – até irreversível (exemplo de fingimento aqui).

Os problemas são gritantes a nível mundial (exemplo aqui).

E, por norma, os custos das externalidades negativas são transferidos para a comunidade, esvaziando e contrariando o princípio do causador- pagador.

Demos uma olhadela à Alemanha, país considerado um caso de sucesso do sistema prevalecente e que gosta de arvorar em bem comportado também em termos ambientais. E, aqui chegados, vejamos apenas dois exemplos:

Poluição das águas

Dados oficiais do governo alemão atestam que cerca de um terço dos pontos de medição na Alemanha apresentam níveis de nitrato superiores ao limite válido no país, de 50 miligramas por litro – situação que persiste há já vários anos, em descumprimento de um regulamento europeu que deveria ter sido implementado até 2012. Um estudo, de Abril passado, revelou ainda que quase três quartos dos lagos na Alemanha se encontram em condições ecológicas medíocres ou deficientes.

Em 2016, a Comissão Europeia instaurou junto do Tribunal Europeu uma acção judicial contra a Alemanha pelos níveis demasiado elevados de nitrato na água potável e pela inércia do país em tomar medidas para evitar a contaminação de lençóis freáticos com nitrato.

A principal causa dos elevados valores de nitrato é a massificada prática agrícola de (sobre)fertilização da terra com chorume e estrume e a pecuária intensiva. Em exagero – e são 200 milhões de toneladas de estrume proveniente da pecuária intensiva e de resíduos oriundos de tratamento anaeróbio das unidades de biogás – o nitrato polui a água doce, tornando-a tóxica para plantas, animais e seres humanos. Os nitratos em si não são perigosos para o ser humano, mas podem se transformar em nitritos, que podem bloquear o transporte de oxigênio no sangue. Também há suspeitas de que os nitritos sejam indiretamente responsáveis pelo desenvolvimento de câncer.

Degradação da paisagem, perda da biodiversidade dos ecossistemas, erosão do solo e poluição são outros problemas e prejuízos ecológicos provocados por estas práticas insustentáveis.

  • Em caso de condenação pelo Tribunal Europeu, a multa poderá ser da ordem dos milhões de euros por dia. A pagar pelos cidadãos, é claro;
  • há regiões em que, para não ser prejudicial à saúde, a água potável tem de ser misturada com “água em bruto”. O custo deste processo é elevado, quem o paga são os consumidores.

Em ambos os casos ocorre a anulação do princípio do causador- pagador, com a transferência de custos para a comunidade.

Combate às causas deste modelo agrícola insustentável? Não. O governo continua a promover o actual modelo agrícola, tal como a UE continua com uma política agrícola comum que privilegia claramente a agricultura e pecuária intensivas, de monocultura e unidades de exploração gigantes.

Poluição do ar

Em 66 cidades alemãs é ultrapassado o valor limite europeu de 40 microgramas de dióxido de azoto por metro cúbico; E porque isto vem acontecendo há largos anos, há cerca de um mês a Comissão Europeia instaurou junto do Tribunal Europeu uma acção judicial contra a Alemanha (entre outros países) por grave e persistente incumprimento dos valores-limite da qualidade do ar e por não ter ainda tomado as medidas adequadas.

Segundo a UE, os dados mais recentes indicam que três poluentes atmosféricos (PM 2.5, NO2 e O3) são responsáveis por 400.000 mortes prematuras por ano na UE.

Os dois principais poluentes com impacto na saúde são:

o dióxido de azoto (NO2) – que resulta, na maior parte dos casos, do tráfego rodoviário e da indústria – e as partículas em suspensão – presentes sobretudo em emissões provenientes da indústria, aquecimento doméstico, tráfego rodoviário e da agricultura.

Os escândalos da manipulação dos motores em veículos a gasóleo (Volkswagen, Porsche Cayenne, Audi A6 e A7), contribuem massivamente para a actual situação. Mas, sob a mão protectora da Chanceler e do governo alemão, as empresas – que obtiveram no ano passado lucros record – recusam-se a assumir a actualização técnica dos veículos manipulados. Já sem falar no prejuízo dos compradores enganados, vemos novamente que:

  • em caso de condenação pelo Tribunal Europeu, a multa será elevada, a pagar pelos cidadãos;
  • os custos para os sistemas de saúde públicos são substanciais. Pagamento, idem.

Mais uma vez, estamos perante a externalização dos custo ambiental e do esvaziamento do princípio do causador-pagador.

Conclusão mais que banal: O pior cego é aquele que não quer ver. Mais ainda quando lhe enfiam notas nos bolsos para manter a venda.

P.S. – E todos contribuímos, mais ou menos, para continuar no mesmo trilho rumo ao despenhamento; Seja por ignorância, ou por indiferença, a maioria de nós não se esforça por mudar comportamentos e não exige uma mudança consequente do paradigma que alicerça as decisões políticas. De onde se infere que o egoísmo é mais forte do que o amor abstracto às gerações vindouras.

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    Em Portugal, os poderes políticos continuam a incrementar as grandes plantações de eucaliptais ao Centro e ao Norte do País e as plantações de olivais intensivos e super-intensivos, com rega, a Sul.
    Contudo, nada fazendo, quanto ao aspecto ambiental, para travar tudo isto – sabendo-se os seus efeitos nos solos e nos recursos hídricos – voltam a sua sanha contra as populações, forçando-as a limpar os seus quintais e ameaçando limparem-lhes os seus bolsos, como se as populações e os povoados fossem os culpados dos fogos em eucaliptais e matas, que os matam e destroem as suas casas.
    De igual modo, recomendam às populações contenção no uso da água, contudo 70% do consumo é feito pela indústria e pela rega.
    Tudo isto e, ainda, lembrando que o ambiente – tal como a saúde – tornou-se para aqueles que mais o têm molestado um grande negócio – veja-se o que se passa em torno desse malefício que são os fogos.


  2. Sim, Ana, este é o problema maior dos tempos hipócritas e interesses mesquinhos que vivemos, com todos esses aspectos revoltantes que aponta !

    e devia ser o alerta máximo de resolução urgente para os políticos, e de consciencialização dos cidadãos !

    Os países mais pobres, na Ásia, África e Médio Oriente, são os que registam a maior percentagem de mortalidade causada pela poluição, que apresenta níveis cinco vezes superiores ao estabelecido pela OMS !

    …e em Portugal :
    o português menos contaminado tem três vezes mais glifosato que o pior caso alemão.!!!
    …e ainda :
    Glifosato, um dos presentes envenenados do CETA aprovado que foi na A. R. unanimemente pelo PS !!

    e ainda como aponta Bento Caeiro :

    ” Em Portugal, os poderes políticos continuam a incrementar as grandes plantações de eucaliptais ao Centro e ao Norte do País e as plantações de olivais intensivos e super-intensivos, com rega, a Sul.
    Contudo, nada fazendo, quanto ao aspecto ambiental, para travar tudo isto – sabendo-se os seus efeitos nos solos e nos recursos hídricos …”

    …..é isto , pessoal !!!! e muito mais !

  3. Rui Naldinho says:

    Ana Moreno, não se se já viu isto.
    Mas acho que vale a pena.

    https://m.youtube.com/watch?v=CRpk2BifEg0

    • Ana Moreno says:

      Está óptimo Rui, obrigada! Aquela “mas todas estas coisas não se desfazem no mar?” se não fosse trágica daria muita vontade de rir. Confesso que ri na mesma, porque a dissonância cognitiva acerta em cheio no meu humor. E (apesar de só por segundos), gostei muito de rever a Praia onde, há muuuuuitos anos, comi o melhor peixe da minha vida 🙂
      Mas voltando ao assunto, boa iniciativa! Creio que estas pessoas não se vão esquecer mais disto. Se os governos de facto quisessem e os cidadãos reconhecessem que a cabeça e a responsabilidade são para ser usadas no dia a dia com vista ao futuro, podíamos dar a volta a alguns dramas. Mas os governos gostam mais de ceder aos lobbies e a falta de informação e, – bem pior – os subterfúgios das pessoas, são tão fortes. Aposto que há gente a chamar a isto “politicamente correcto”. E com isso a carimbar de ideológico e tendencioso. Ele há mil e uma formas de legitimar o egoísmo…

  4. Rui Naldinho says:

    https://m.youtube.com/watch?v=CRpk2BifEg0

    Acho que vale a pena perder três minutos.

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