Helmut Kohl, 1930-2017

Caro Helmut Kohl,

Obrigada,

Uma Cidadã Europeia.

A Lenda Negra

Não estamos esquecidos que uma das justificações dadas para a necessidade de um profundo ajustamento na economia e na sociedade portuguesas, ajustamento esse materializado num programa brutal de austeridade, que, em certa medida, ainda prossegue, foi a circunstância de Portugal, e o seu povo em particular, ter, ao longo de muito anos, vivido acima das suas possibilidades. [Read more…]

Primeiro aviso a Trump

captura-de-ecra-2017-01-17-as-01-04-11

A Alemanha é a primeira a “mostrar os dentes” a Trump e a explicar-lhe como funciona, hoje, a economia global. Ainda bem que é a Alemanha. Pior será no caso da China. É que esta não se limita a “ranger“…

O mundo está a ficar perigoso. Muito perigoso.

Falemos de refugiados

maria-ladenburger

Helena Ferro de Gouveia

No mundo quase perfeito de Freiburg, uma pequena cidade estudantil alemã conhecida pelo seu activismo anti-nuclear e pro direitos civis, uma jovem estudante de medicina de 19 anos foi violada e assassinada.
Maria era voluntária, como muitos outros universitários, num centro de acolhimento a refugiados e estes eram a sua causa.
Maria nasceu no seio de uma família culta, o pai é jurista , consultor da Comissão Europeia, e um dos autores da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
A jovem foi morta por um afegão de 17 anos, que chegou à Alemanha como menor não acompanhado.

Este crime suscitou de imediato uma tentativa de aproveitamento político pela extrema-direita. Tentativa que fracassou por três motivos: o comportamento responsável dos media alemães no tratamento deste caso (faça-se uma análise da linguagem utilizada e descobre-se objectividade, factos e não sensacionalismo); a intervenção dos partidos políticos democráticos à direita e à esquerda e as declarações da família da jovem.
Logo após ser conhecido quem é o presumido autor a família de Maria apelou a quem estivesse solidário a dor que sentiam que doasse para uma iniciativa de apoio à refugiados. Essa seria a vontade de Maria.

O ódio combate-se com Amor.
Este é um dos muitos momentos em que tenho tanto orgulho em ser também alemã.

Heil!

dear-americans

Chegou a vez do fascista americano. Mais um. What could possibly go wrong?

Adivinha

Folie1

Há cerca de duas semanas, Petra Hinz, deputada do SPD no parlamento alemão (Bundestag), sucumbiu às acusações e confessou que tinha aldrabado o seu curriculum vitae. Nem a licenciatura em Direito, nem o diploma do ensino secundário que dá acesso à universidade (Abitur), que constavam do seu currículo oficial, tinham afinal alguma vez sido por ela obtidos.

Acto contínuo, o seu partido exigiu a demissão de Hinz, considerando ter causado um enorme dano ao partido e à política em geral. De imediato, Hinz demitiu-se de todos os cargos no SPD, declarando posteriormente que apresentará a sua demissão como deputada a 31 de Agosto e que doará o seu salário deste mês a instituições sociais ou caritativas. Publicamente pediu “do fundo do coração perdão aos colegas, amigos e família, a todas as pessoas e ao público em geral” que nela confiaram. Fim da história.

Adivinha: O que aconteceria em Portugal num caso destes?

Imagem:Max Rossi – Reuters

Crónicas do Rochedo VIII – Nós não somos alemães.

Tenho para mim que Pedro Passos Coelho é um homem sério e um político que acredita piamente no seu conceito do que deve ser Portugal. O problema pode estar no “seu” conceito.

Olho para a sua entrevista mais recente com a devida distância de quem não estando muito longe também não está perto. Como não sou nem bruxo nem adivinho não sei nem faço a mínima ideia se ele está certo. Penso saber que está a falar com toda a convicção, de quem acredita que o caminho é aquele. O futuro dirá se a razão está do seu lado. Eu não o posso dizer. Por desconhecimento do futuro. O que sei é outra coisa. Nós não somos alemães. Para o bem e para o mal.

Hoje lido diariamente com alemães. E o que vejo é diferente daquilo que deles pensava, daquilo que deles nos é dado pela comunicação social e pelas “ideias feitas”. Trabalham mais que nós, portugueses? Não. São mais produtivos que nós? Não. Quando muito serão mais focados, mais pragmáticos e mais cumpridores do “by the book”. Neles não encontro o “desenrasca”. Não encontro o improviso. Nesse ponto são diferentes de nós. Mas… a realidade mostra que os alemães com forte poder financeiro gostam do nosso estilo de vida. Gostam do clima de Maiorca, do sul de Espanha, de Itália, da Grécia, do Algarve, de certas zonas de sul de França. Aqui em Maiorca chega-se ao ponto de serem donos de quase tudo na ilha – supermercados, restaurantes, bares, lojas, dos espaços de animação cultural, casas, hotéis médios e pequenos, jornais e rádios, entre inúmeros negócios. E fogem ao fisco. Que latinos que eles são…

[Read more…]

Alemanha, perdão, CE, aplica sanções à França

E vai ser por um défice de 2.

O jogo de hoje

image

Vai começar o jogo França-Alemanha. Nestas alturas, parece que temos de tomar partido. Eu, que naquilo que mais importa nunca hesitei no imperativo da escolha, recuso-me a fazê-lo agora. É mais divertido, concordo, se escolhermos um lado. Mas não consigo. É que, apesar de tudo – tudo, tudo, tudo…- não me move qualquer fobia em relação a qualquer dos contendores. Ouço os Hinos e sinto o habitual afecto por “La Marsellaise” e a admiração pela magnifica peça musical que é “Deutschland, Deutschland über alles” – ou não houvesse aqui a mão de Haydn. Por muito que abominemos os poderosos que nos envenenam a vida e nos tentam devorar a liberdade, o meu alvo não vai além deles. Nunca sofri de qualquer francofobia ou germanofobia. Como poderia, se tal seria negar muito do que sou, muito do que somos? Para lá das circunstâncias do tempo, o que melhor fica dos povos é a sua cultura, a sua herança emancipadora. E ambos os povos nos deixaram tesouros inestimáveis. Pena que nestes tempos de integração forçada se vá perdendo a fraternidade criadora.

Como lidam eles com a França?

Em 26 de Abril Yanis Varoufakis e Noam Chomsky tiveram uma interessante conversa na biblioteca pública de Nova York. A certa altura Noam Chomsky perguntou a Varoufakis, “E como lidam eles como a França?”, sendo que “eles” se refere, neste contexto, à Alemanha e à Troika. A resposta é surpreendente para quem está habituado a observar a “Europa” pelos filtros da comunicação social.

Pode assistir à conversa completa aqui.

Admirável Nova Europa

Schäuble prepara plano para “nova UE”, incluindo poder de veto sobre orçamentos.

A Europa da tragédia

Marco Faria

Vergonhoso. Na Alemanha, um humorista satirizou o presidente turco e os tribunais alemães vão julgá-lo com base numa lei do século XIX, tendo a abertura judicial sido autorizada pelo Governo de Merkel. Aí está mais uma boa razão para a Turquia nunca se juntar à União Europeia.
Ensinaram-nos que a Alemanha foi pioneira nas leis, em especial o BGB, o código civil que remonta a 1900, e que inspirou, por exemplo, o nosso Código Civil de 1966. O programa de TV foi retirado de emissão na ZDFneo (inacreditável!) e Angela Merkel, de quem se fala à boca cheia para se candidatar a secretário-geral da ONU, dá assim uma prova de como os estados se deixam acobardar pelos interesses diplomáticos, para evitar problemas incómodos. A Turquia é liderada por um presidente perigoso e intolerante, Recep Tayyip Erdogan. O Parlamento Europeu deveria pronunciar-se rapidamente sobre este caso, e talvez o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem possa repor alguma ordem nas leis alemãs.
[Read more…]

Rir ou punir, eis a questão!

erdogan

É sabido que os ditadores ou candidatos a tal têm pouco sentido de humor e adoram triturar quem arranja maneira de fazer humor sobre a sua falta de humor. Estamos a assistir a um caso apimentado que se enquadra nessa problemática humorística e tem honras de destaque nos média alemães de hoje. Um humorista alemão apresentou, num programa satírico, um poema com uma forte sátira ao presidente turco Erdogan. Segundo consta, chamou-lhe de tudo (não pude ver o vídeo porque já foi retirado da net; existe um outro vídeo, de outro programa de sátira política alemão, com legendas em inglês, que (ainda) não foi retirado). [Read more…]

Cavalo de Troika

A Alemanha concebeu a “Austeridade” como estratégia de guerra e de conquista da Europa. É um Cavalo de Troika.

Brexit


O Reino Unido não tem a mínima intenção, por agora, de abandonar a UE. Assistiu-se a uma mera encenação e ao fortalecimento da posição britânica por via da fraqueza alemã.

 

Ouro alemão

Por que estará a Alemanha a repatriar o seu ouro?

Morreu Helmut Schmidt, um dos maiores estadistas do século XX

A Europa ficou hoje mais pobre com a morte de Helmut Schmidt aos 96 anos.

Helmut Schmidt, uma das figuras maiores da social-democracia europeia, exerceu as funções de Chanceler da República Federal da Alemanha, entre 1974 e 1982, numa coligação entre social-democratas e liberal-democratas.

Helmut Schmidt desempenhou um papel determinante em plena guerra fria, deixando a sua indelével marca pessoal no processo de normalização das relações com a Alemanha Oriental e na aproximação com a ex-União Soviética e com os países do comunistas da Europa do Leste.

[Read more…]

Também há ventos na Alemanha

Só para lembrar os distraídos: na própria Alemanha, a Turíngia é governada, desde o ano passado, por uma coligação de esquerda. E, caso curioso, foi a direita lá do sítio (CDU) que ficou em primeiro. Em segundo ficaram os comunistas do Die Linke e em terceiro os sociais democratas do SPD. E, vejam só e espantem-se, foi nomeado ministro-presidente Bodo Ramelow, comunista, com o apoio do SPD, que preferiu apoiar e coligar-se com os comunistas – mesmo sendo deles o ministro-governador – a ligar-se à CDU. E a vida prosseguiu. Suponho que sem a histeria que se vê por cá. Na Alemanha, gente. Por isso, acalmem-se e apreciem o Verão de S. Martinho.

Determinação para o mal e para o bem e um país dividido

Angela Merkel é um fenómeno. Surpreendeu-nos com o abandono da energia nuclear na sequência de Fukushima. Indignou-nos – e indigna-nos!!! – pela sua posição quanto à dívida pública. E agora é essa mesma figura que se revela uma humanista intransigente, tudo arriscando e tudo fazendo em nome e em prol da defesa da universalidade da dignidade humana. Na sua política para os refugiados, Merkel não se cansa de repetir que estamos perante um desafio histórico, uma tarefa imensa, mas obrigatória. Tanto a nível europeu como a nível nacional, vem travando uma luta incansável e firme. Não é possível solucionar de imediato problemas que foram sendo criados ao longo de décadas e cujas causas são múltiplas e profundas (até Blair acabou de “apresentar as suas desculpas” admitindo que “os erros” na invasão do Iraque podem ter contribuído para o surgimento do grupo terrorista Estado Islâmico). De momento, resta gerir o imenso desafio de prestar assistência a milhões de refugiados.

[Read more…]

Alemanha 2015: 600 ataques xenófobos

«A sociedade alemã está em plena cisão e constata-se hoje que a vaga de solidariedade que entusiasmava a Alemanha no final de Agosto, princípio de Setembro, foi substituída por um novo nacionalismo.» [Kai Littmann, Eurojournalist]

 

As notícias que não passam nas tevês portuguesas #3

Henriette Reker foi eleita Presidente da Câmara de Colónia, na Alemanha, com 52,7% dos votos. Mas ainda não sabe, porque no dia anterior foi vítima de uma brutal agressão – que visou o seu trabalho na direcção dos serviços de integração de imigrantes da cidade e na gestão dos refugiados que ali têm chegado. Eis o resultado do discurso de ódio e desresponsabilização dos governantes alemães. [Eurojournalist]

Alemanha endurece posição

Kai Littmann

AFP_refugiados_Alemanha

 

Ontem, o Bundestag [o parlamento alemão] debateu a proposta de reforma da lei do asilo actualmente em vigor na Alemanha. A lei será sem dúvida votada favoravelmente pela chamada Grande Coligação, o que deverá acontecer em Novembro. Mas a reforma apresenta aspectos preocupantes e até mesmo anti-constitucionais.

São 94 páginas de novas medidas que o Governo alemão pretende fazer passar no Bundestag o mais depressa possível. O problema é que o pacote legislativo contém elementos que ferem os princípios da dignidade humana e até mesmo os direitos humanos universalmente consagrados. Se por um lado asseguram cuidados de saúde e formação em Língua e civilização alemãs para os refugiados, por outro suprimem direitos que a actual lei assegura: o existente pequeno subsídio de sobrevivência (uma média de 143 euros/pessoa/mês), que a proposta de lei pretende fazer substituir por uma «prestações em géneros». Assim fazendo, a nova lei, pelo reforço do papel assistencialista do Estado, vai dificultar a integração dos refugiados, manietando a sua autonomia e remetendo-os à indigência.

A reforma da referida lei favorece também a expulsão rápida dos refugiados cujos pedidos sejam indeferidos pelo sistema. A Amnistia Internacional e a ONG ProAsyl consideram que ela boicota o trabalho das organizações humanitárias e que favorece a criminalidade. [Eurojournalist]

Thomas Piketty sobre o modelo alemão

de lidar com os refugiados. Aqui [em francês].

“A grande invasão”

– eis como chamam os partidos políticos alemães à entrada maciça de refugiados, sírios e outros (estima-se que sejam mais de 800 000, os que entraram na Alemanha apenas em 2015), que procuram uma oportunidade de vida na Europa. É um jornalista alemão que o escreve, explicando o consenso que há entre os partidos alemães relativamente à tragédia humanitária que tem aportado nos territórios europeus.

migrantes_macedonia_agosto2015
(c) REUTERS | Ognen Teofilovski | Migrantes na fronteira da Grécia com a Macedónia

«Raramente os responsáveis políticos estiveram assim de acordo. Seja a extrema-direita, a direita, os social-democratas, os verdes ou o Die Linke, toda a gente usa a mesma palavra para designar o afluxo de refugiados – «grande invasão», «Völkerwanderung», em Alemão. (…) A expressão estimulará uma vez mais o ódio e a violência dos que não compreendem que os fluxos migratórios não emanam de Deus, antes são o resultado de más políticas, levadas a cabo durante séculos.»

Segundo a mesma fonte, «a única que ainda não usou a expressão é Angela Merkel. (…) Fiel aos seus hábitos, prefere esperar para ver como se comporta a «vox populi» antes de tomar uma decisão. Uma estratégia de uma ineficácia política absoluta, mas que a faz ganhar eleições. (…)» [Read more…]

A reestruturação da dívida grega e agenda alemã

Merkel

Com as milícias de extrema-esquerda entrincheiradas na linha da frente da batalha pela reestruturação da dívida grega, a poderosa chanceler continua a resistir, enfiada no seu bunker berlinense. Angela Merkel prefere deixar o FMI fora do terceiro resgate à Grécia do que aceitar a sugestão do Fundo de reestruturar a dívida, nem que isso signifique colocar toda a pressão de um eventual incumprimento sobre as economias fragilizadas dos estados membros da União Europeia. Para quem lidera um país tão experiente em calotes, o fanatismo do executivo alemão é admirável.

Assim, e segundo o jornal alemão Die Zeit, citado pelo Expresso, a solução proposta pelo executivo alemão passará pela prestação de garantias da União Europeia ao Fundo Monetário Internacional que acautelem potenciais perdas, para que este possa participar na nova intervenção deixando cair a exigência de reestruturar a dívida grega. Se correr mal, a Europa a 28 paga. Se correr bem o FMI leva a sua fatia. O problema é que o Fundo entende que a dívida de Atenas é insustentável e impagável nas condições actuais, motivo pelo qual vê a sua participação no resgate com apreensão. Já Merkel prefere avançar em direcção ao abismo e arrastar a Europa consigo. Sensato vindo da parte de quem tem na catástrofe grega um negócio tão lucrativo. No dia em que a dívida se tornar sustentável e pagável, a torneira pode muito bem começar fechar.

Grécia, a região mais lucrativa do império alemão

German Greece

Vale a pena ler o artigo Sala de Pânico 2.0 de Viriato Soromenho-Marques, publicado hoje no DN. A crise é sempre lucrativa para alguns e a Alemanha está sempre incluída nos alguns. Mesmo nos alguns que deixam dívidas por pagar.

Entre 2010 e 2015 a Alemanha lucrou cem mil milhões de euros com a baixa de juros ligada diretamente à crise grega. Mesmo que Atenas declarasse agora bancarrota total, as perdas alemãs seriam inferiores em dez mil milhões aos ganhos já obtidos. Os investigadores do Leibniz Institut analisam também, com minúcia, o modo como as más notícias na Grécia têm sido um bom sinal para o custo da dívida alemã. Este é um estudo de grande qualidade. Que honra a ciência alemã, e a honestidade académica dos seus autores. Por quantos mais anos poderá sobreviver uma união monetária em que os mais fortes beneficiam da desgraça dos mais frágeis? Por quanto tempo sobreviverá uma Europa governada pela propaganda, e não pela coragem de estar à altura da realidade?

Foto@Wikimedia

A disciplina de voto como arma anti-democrática

Kai Littmann
bundestag_CDU_Merkel
O grupo parlamentar da CDU de Angela Merkel

A Constituição alemã é clara: os deputados eleitos devem votar segundo a sua consciência e jamais coagidos pela chamada  “disciplina parlamentar” – prática que serve não os cidadãos que aqueles representam mas a estratégia partidária que pode ajudá-los a manter-se no poder.

Foram 60 os deputados da CDU que, em meados de Julho passado, votaram contra a política do governo alemão relativamente à Grécia. O que em nada afectou o resultado final, pois a “grande coligação” CDU/SPD [o equivalente ao português “bloco central”] dispõe no parlamento alemão de uma maioria esmagadora. Nesse contexto, o anúncio da punição dos 60 conservadores rebeldes da CDU pode surpreender.

Sucede que foi já declarado – pelo líder da bancada parlamentar da CDU no Bundestag, Volker Kauder – o primado do “espírito corporativista” (“korpgeist”), e que os deputados que votaram contra os empréstimos à Grécia (em favor da sua saída do euro) vão ser afastados das comissões parlamentares mais relevantes do ponto de vista do partido: as que se ocupam dos assuntos orçamentais e europeus, onde importa manter a maioria, e salvaguardar os interesses da posição do referido grupo parlamentar – e da espécie de bloco central que integra.

Esta semana, um novo pacote relativo à Grécia deverá ser objecto de votação no Bundestag. Se é certo que a “grande coligação” há-de passá-lo, certa é também a manutenção da posição dos rebeldes. O que lhes acontecerá, então? Serão realmente punidos? Está a Alemanha a abandonar de vez os procedimentos democráticos?

E a democracia representativa, o que se passa para que tenha cedido o lugar à democracia tecnocrata, em que apenas a vontade dos partidos conta? Um fenómeno que não é unicamente alemão, aliás, e que tende a afastar ainda mais a política dos cidadãos.

O facto de os deputados rebeldes da CDU serem os mais conservadores não invalida que Kauder esteja a levar por diante um verdadeiro ataque ao sistema democrático – pois por mais fragilidades que tenha, não deveria ser aceitável esse tipo de punição sobre quem vota de acordo com a sua consciência.

[Eurojournalist – publicação bilingue Alemão/Francês]

Como lucrar 100 mil milhões de euros com a crise grega?

A Alemanha explica.

Paris é o destino final da troika

«O Grexit é usado para gerar o medo necessário para forçar Paris, Roma e Madrid a aceitar. O plano de Schaüble é pôr a troika em todo o lado, mas sobretudo em… Paris! Paris é o grande prémio.» Yanis Varoufakis [Fonte: Libération]

«Morre mais depressa, Europa!» [Heiner Müller, 1989]

«A Europa tornou-se um conceito de higiene social, pois cada vez mais se faz da pobreza um problema de higiene. Como é que, nessas condições, poderia subsistir o fundo intelectual da Europa? É para mim um mistério, a menos que se atribua uma alma ao dinheiro. O tema poderia ser objecto dos mais amplos debates filosóficos – de qualquer modo, o capital tem uma líbido. Acabaremos sem dúvida por encontrar-lhe uma alma, também. E ela surgirá com tal impacto que teremos de a conter. Heiner Müller em 1989 [em Francês, parcialmente traduzido para Português em baixo]

Heiner-Mueller-1994-c-Roger-Melis
(c) Roger Melis (1940 – 2009)

 

«Morre mais depressa, Europa!»

Em 1989, a revista Transatlantik publicou cinco entrevistas com Heiner Müller, realizadas por Frank Raddatz. Publicamos as segunda e quinta entrevistas, realizadas respectivamente em Janeiro e no Outono de 1989, aqui reunidas sob o título da segunda: «Morre mais depressa, Europa!»

Transatlantik: Há relativamente pouco tempo, a palavra Europa designava antes de mais apenas a parte ocidental do velho continente. Agora, usa-se com cada vez maior frequência a noção de casa comum europeia, para melhor dar conta da realidade a Leste e a Oeste. Poucas pessoas têm percorrido as duas alas desta casa, como é o seu caso. Será Heiner Müller o Europeu por excelência?

Heiner Müller: Sou um Europeu bastante bera, mais não seja porque apenas posso comunicar em Inglês. No que respeita às outras Línguas, tudo se torna muito mais trabalhoso. Infelizmente, ignoro quem forjou esse belo slogan de «casa europeia», no entanto, encontrei recentemente essa formulação num texto de Carl Schmitt a propósito do discurso de Hitler sobre a Sociedade das Nações. Nele, Schmitt cita o seu Führer e chanceler do Reich, Adolf Hitler, que fala da «casa europeia». Isso evoca para mim, de modo muito vincado, o debate sobre a reunificação alemã. A Alemanha apenas existe por oposição aos outros, aos franceses, por exemplo. Talvez o mesmo suceda com essa ideia de “Europa”.

De um ponto de vista histórico, a Europa não existe. Por ocasião da entrega do prémio europeu de cinema a Krysztof Kielowski pelo seu filme Não matarás, o realizador disse algo muito interessante numa entrevista: regozijava-se por aquele prémio ter sido atribuído a um filme polaco, pois isso significava que a Polónia fazia parte da Europa. Acrescentou que havia duas Europas, uma marcada pelo cunho de Bizâncio, e a outra de filiação romana. Mais que não seja em razão do catolicismo, a Polónia faz parte da Europa «romana», enquanto que a Rússia e toda a Europa do sudeste relevam da cultura bizantina. A fronteira situa-se algures na Hungria. É uma condição prévia importante para toda e qualquer reflexão sobre a Europa. Muitos mal-entendidos entre o Leste e o Oeste resultam de um conhecimento insuficiente relativamente a esse facto histórico.

A actual discussão sobre a Europa é motivada por uma campanha puramente económica. Tal como os «Republicaner» ganharam existência por fazerem campanha contra os estrangeiros, utiliza-se a ideia europeia para vender aos alemães uma salsicha que não responde às normas de consumo em vigor na RFA. [Read more…]