A declínio do império americano

O filme a que roubei o título do post é uma comédia sobre a moral mas o vídeo que aqui trago tem no enredo a tragédia da queda de uma potência. Problema lá deles e, talvez, daqueles que são (eram?) os seus aliados.

O discurso de Trump, com palavras de tal rudeza, construído com a mesma visão maniqueísta plasmada nas suas declarações domésticas, vai progressivamente quebrando a áurea de parceiro que tem mantido os EUA numa posição dominante no mundo.

Na sua visão de merceeiro, rico mas não mais que isso, dividir para reinar torná-lo-á mais forte. Por isso, entrou em confronto com o Canadá, com a China, com a Alemanha, com a Inglaterra, com a União Europeia e com mais um bom leque de outros países. Onde vai, Trump espalha a discórdia, rasteia aqueles com quem fala, tal como fez com Merkel e May, sempre com o objectivo de os fragilizar antes da reunião.

Não faz o mesmo com a Rússia, afirmando, pelo contrário, que é mais fácil lidar com Putin do que com os restantes líderes mundiais. Nem com a Coreia do Norte, que agora tem, segundo Trump, um líder amado pelo povo. Nem com a ditadura da Turquia. É estranha, dado o passado recente de caça aos vermelhos, esta nova relação da América com a Rússia e ficamos sempre na dúvida sobre o que motiva estes passos. Para o perceber, será bom recordar que Trump é um egocêntrico e narcisista, pelo que o que faz será no seu próprio interesse, seja financeiro, seja de inflação do ego.

A estratégia de Trump consiste em destabilizar. Assistimos à forja de uma nova relação de forças no mundo, com a América cada vez mais a se isolar e a encostar-se ao seu anterior inimigo, o qual, por acaso, não é propriamente flor que se cheire. Trump acha que isso o tornará mais forte, mas depende muito como aqueles que eram os seus parceiros se organizarem.

Um elefante na sala de chá, com o quintal bem armado. Já agora, por se falar em armas, ao procurar que a NATO aumente o orçamento da defesa, quem sai a ganhar?

Quanto ao mercado interno das armas nos EUA, os horizontes têm sido dourados para os associados da NRA.

Fonte: WP. A tendência pós-2015 foi de aumento de produção e de vendas.

Agora, é só seguir as pegadas: política- mais procura de armas – financiamento partidário. A destabilização é só um meio para o fim egocêntrico da reeleição.

Em termos de lobby, a NRA gasta oficialmente cerca de US $ 3 milhões por ano para influenciar a política de armas. Fonte: BBC

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Insiste-se na diferença entre Trump e os seus antecessores.
    E agora associa-se a queda do Império a Trump.
    Nada mais errado na minha opinião.
    Trump vem na linha de um Bush, ou de uns mais dissimulados Clinton e Obama. Mas a linha é a mesma: a superioridade de quem olha para um mundo bárbaro como os romanos faziam com os restantes povos que habitavam a, agora, Europa.
    Mas a linha é a mesma, aquela linha que lhes permite, com a cobertura da ONU cometerem crimes de guerra atrás de crimes de guerra.
    Este povo europeu, é o mesmo que ataca a Rússia por ter invadido a Crimeia, mas acha muito bem que os EUA invadam a Líbia, o Iraque, e bombardeiem a Síria. Esta é a seriedade hipócrita de uma Europa que, muito tarde viu a cara (e outras coisas) aos EUA e agora se finge, hipocritamente, ultrajada.

    A diferença entre Trump e Obama, Bush e Clinton (para nos quedarmos nos últimos) é apenas na forma e nunca no conteúdo. O que Trump fez com Israel e Jerusalém, foi algo que qualquer dos outros presidentes nunca tiveram coragem de fazer, embora o dissessem, pensassem e executassem via ONU, através de uma matreirice medonha e hedionda.
    O actual idiota é, apenas, mais naif, para além de inculto.

    Estas coisas não surgem por acaso e não correspondem a nenhuma fractura antes, a um resvalar que tem décadas.
    A Oeste, nada de novo…

    Quando vejo essa catréfa de “comentadores independentes” que aperecem quais filósofos nos nossos canais de televisão, a puxar as virtudes de um Obama imaculado, chefe de família, antiracista e pasme-se … prémio Nobel da paz (!!!!!?????) dá vontade de perguntar como se explica que uma maioria de americanos preferissem, logo a seguir aos seus mandatos (e ainda preferem) Trump, faça ele o que fizer.
    A resposta é a “cultura” que lá foi sendo semeada e da qual os referidos presidentes se não podem desresponsabilizar. Os ditos “jornalistas independentes” desresponsabilizam porque, por definição, são irresponsáveis e não passam de uns cartilheiros mandatados para apregoar as virtudes dos seus oragos.
    A cultura da “barriga cheia” do egocentrismo, do umbigo proeminente e um mundo de bárbaros de que eles se sentem o único farol, foi o legado das diferentes presidências americanas. Parem de puxar tudo para Trump. Ele, apenas, fechou a porta.

    Nunca vi nada mais parecido com o Império Romano. Sabem como ele terminou?
    That’s all folks …

    • j. manuel cordeiro says:

      Está baralhado 🙂 não estou a comparar Trump com os antecessores.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Não, não estou de todo baralhado, nem o acusei de comparar o que quer que seja.

        Eu é que faço a comparação para reforçar a sua ideia de base – queda do Império – com a qual concordo, de resto.
        Repito, estou de acordo com a ideia. Agora no que não estou de acordo – e aqui com todo o respeito pelo caro J. Manuel Cordeiro – é que não associo, minimamente, a queda do Império a Trump. E isso é exactamente o que J. Manuel Cordeiro faz.

        Sabe, o último Imperador Romano chamava-se Rómulo Augusto. Contudo Calígula, Nero e quejandos, aqueles que de facto destruíram o Império, viveram uns séculos antes …

        A História tem destas coisas. Repete-se por estupidez do homem.

  2. joaovieira1 says:

    Quando se analisa, em profundidade, o papel desempenhado pelos EUA, na Europa e no mundo, desde finais do séc.XVIII, a perspectiva não parece ser, assim, tão catastrófica, até à implosão do império soviético (1991). A partir do 11 Set/2001, guerra do Iraque/2003 e crise financeira internacional/2008, contudo, a política externa americana sofreu grandes alterações que produziram impactes negativos internos consideráveis (na economia, finanças e comércio externo) que Obama conseguiu gerir, mas que, depois dele, conduziram à eleição de Trump, iniciando-se uma era, ainda, cheia de confusão, indefinição e riscos. Se se quiser, é como estarmos perante a necessidade urgente de fazer uma série de intervenções delicadíssimas ao cérebro e/ou coração de alguém e colocar nas mãos de um açougueiro os instrumentos a utilizar. É sempre preferível, colocá-los nas mãos de um cirurgião especializado e talentoso.

  3. JgMenos says:

    Trump é uma legítima representação da bruteza ignorante do americano médio e com um mesmo foco no dólar.
    A novidade é não ter escrúpulos democráticos e ter Putin por paradigma dos poderes presidenciais.
    Uma besta à solta que põe a Europa perante um compromisso de soberania de que se vem distanciando a troco das suas políticas sociais e de um modelo de felicidade que exclui o sacrifício.

    • ZE LOPES says:

      Em resumo: Trump é um filho da Putin…presidência.

    • Paulo Marques says:

      Trump é a inevitável consequência do rasto de destruição não só de Nixon, Kissinger, Gingrich, Limbaugh, Bush I, Bush II, mas também de toda a Terceira Via de progressistas responsáveis e imperialistas.
      A Desunião Europeia segue o mesmo caminho, desde o irrealista monetarismo ao rearmamento.

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