A perspectiva do alfaiate

LE PROFESSEUR. Vous savez très bien qu’une phrase tirée de son contexte n’a pas d’intérêt.
— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

“Okay, John… right, got it.”
Patrick Bateman (Bret Easton Ellis, American Psycho)

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Efectivamente,

A comprovação desses fatos, implica ainda a exclusão do bolseiro a futuros concursos para atribuição de bolsas de estudo do Município de Miranda do Douro, sem prejuízo de responsabilidade criminal

permite um estudo com diversos ângulos, vários prismas e algumas perspectivas.

Seleccionemos três perspectivas:

  1. A perspectiva do sujeito: o sujeito vê-se afastado do predicado por uma vírgula e fica perturbado, pois toda a gente sabe que “a comprovação desses fatos, implica”, em vez de “a comprovação desses fatos implica”, é um factor perturbador e não um fator perturbador;
  2. A perspectiva da preposição: de facto, olhando com olhos de ver para a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para (para e não pára: são diferentes), perante, por (por e não pôr: também são diferentes, mas enquanto a base IX se preocupou com o pára, a base VIII poupou o pôr, pois foi, pois foi), sem, sob, sobre e trás, é certo e sabido, a seguir a “a exclusão do bolseiro” é de e não a, como é sabido que se discorda de e se concorda com e que não se deve nem discordar com, nem concordar de;
  3. A perspectiva do alfaiate, a mais interessante e, em última análise, nestes tempos de crise ortográfica, a mais urgente: há bastantes sujeitos que vêem fatos, mas também, além de fatos, vêem contatos e vêem seções e não vêem os responsáveis por isto tudo, que pelos vistos não vêem nada disto, a assumir os erros e a fazer qualquer coisinha para acabar com esta situação.

Situação? Que situação?

Esta.

Continuação de uma óptima semana.

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Comments

  1. João Barroca says:

    Na perspectiva do alfaiate, é preciso (com)provar os fatos…

  2. fmart@sapo.pt says:

    De facto, há muita gente – até gente que “escreve” – a considerar que ortografia e sintaxe são preocupações de quem, não tendo talento, se detém em minudências próprias de mestre-escola. E, quando não há meio de se entender o que “escreveu” (ou se entende graças a uma dose cavalar de boa vontade), desfralda o estandarte da profundidade conceptual. Como se houvesse uma espécie de incompatibilidade temperamental entre o pensamento e a gramática. Como se o solecismo fosse a quinta-essência do génio literário.

  3. João Mendes says:

    Que grande posta!

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