Baptista Leite, o Expresso e a poupança de letras

André Previn. You’re playing all the wrong notes.
Eric Morecambe. I’m playing all the right notes but not necessarily in the right order. I’ll give you that. I’ll give you that, sunshine.
 Morecambe and Wise, 1971 Christmas Show

Éric Zemmour. Et mes voisins, que disent-ils? Mr. Attia[∅], il me dit…
Franz-Olivier Giesbert. Attia[s], Attia[s].
Éric Zemmour. Attia[s] ou Attia[∅], c’est…
Richard Attias. Non, non. Quand j’était petit, effectivement, un professeur m’apellait souvent Attia[∅], que faisait un peu de bruit et je lui ai dit Attia[s]. Mais il: « c’est pas le moment de vous mettre au pluriel ». Mais j’y tiens ce [s].
LGQ

***

Sendo verdade que o empresário marroquino Richard Attias tem direito à fricativa laminoalveolar surda [s] final na pronunciação do Attias, muito mais direito tem o deputado português Ricardo Baptista Leite ao ‘p’ medial no seu Baptista. Trata-se de questão antiga, que já afectou Chagas Baptista e que vem afectando João Baptista da Silva Leitão. Todavia, para o Expresso, tanto faz como fez.

Efectivamente, mais do que não dever fazer, não pode fazer. Na base XXI do AO90, diz-se que “para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote [sic] na assinatura do seu nome”.

Não havendo qualquer documento em que Baptista Leite [Read more…]

Viva o Porto

Ora eu nasci no Porto e criei-me em Gaia.
Almeida Garrett

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Sou do Porto, adoro o Porto e adoro ser conterrâneo de Garrett. Por adorar o Porto, ando atento a plataformas que divulgam a História do Porto e que me trazem conhecimento e alegria. Todavia, por vezes, lá vem um travo amargo.

Há uns anos, avisei que a eliminação da letra ‘p’ de palavras como excepção levaria a um aumento de ocorrências de *excessão em vez da grafia pretendida pelos autores do AO90 (exceção), com a consequente necessidade de, em publicações portuguesas, se indicar, como já acontecia antes do AO90 em publicações brasileiras, que «’excessão‘ (com dois ss) constitui erro grosseiro» (cf. Manual de Redação [sic] e Estilo do jornal Estado de S. Paulo).

Nessa altura, acrescentei que seria igualmente necessário um aditamento, exclusivo para a norma portuguesa, com a menção da diferença entre concessão e conceção (sem o ‘p’). Exclusivo para a norma portuguesa, efectivamente, pois, em português do Brasil, a concepção mantém-se imaculada.

Noutra altura, com os exemplos recepção, percepção e concepção, expliquei a importância grafémica da letra ‘p’, não só devido à função diacrítica , mas também por causa da correspondência com morfemas presos (“bound morphemes”), neste caso concreto, -ceber e -cepção.

Ora, o mesmo acontece com -ceder e -cessão. A confusão, criada por regras mal concebidas e mal explicadas, leva a que vários escreventes de português europeu grafem seção, em vez de secção.

Eis um exemplo fresquíssimo, no sítio do costume.

Ora, da seção à interseção, [Read more…]

A nota ortográfica

Hugo Stiglitz. Und auf die Entfernung bin ich ein richtiger Fredrick Zoller.
IB

À la fin du XVIIIe siècle, la tolérance perd enfin sa signification restrictive et péjorative.
Denis Lacorne

Bernard Tapie. C’est où la nature?
Michel Polac. En Suisse…
ONPC

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Hoje, não há *fatos no Diário da República, mas há *contatos. Sim, dois *contato no singular e muito perto um do outro. Tudo como dantes. Nada de novo a assinalar no sítio do costume.

Recentemente, recebi um testemunho, em forma de livro, que me trouxe reminiscências de uma prática há muito em voga entre gente forçada, por isto, por aquilo ou por aqueloutro, a adoptar o AO90. Essa prática (conheço exemplos concretos, mas ficam para próximas oportunidades) consiste em grafar alternativas, para que, de facto, o dito cujo não seja utilizado: por exemplo, metas em vez de *objetivos, excelente em vez de *espetacular, maravilhoso em vez de *ótimo, dar o dito por não dito em vez de *retratar-se, justamente em vez de *exatamente, etc.

Todavia, o exemplo desta “Nota Ortográfica” é diferente e, acrescente-se, interessantíssimo.

Os meus agradecimentos à Professora A.

Desejo-vos um óptimo resto de semana.

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Assinalar com um X

Assinalar com um X?

OK.

Agora, sem o X.

Quando? Hoje. Onde? No sítio do costume.

Continuação de uma óptima semana.

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O extraordinário caso do *externado com notas *inflaccionadas

Duh-dih-dih-dah-duh-dah-duh-dih-dah-dah-dah-dah.
Flea

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Trata-se de um caso extraordinário, extremamente curioso e, como outros, merecedor de distinção. Mesmo assim, cá entre nós, prefira-se *inflaccionadas a *inspeção (aliás, entre *inspeção e *externado, venha o diabo e escolha). Há razões que explicam a hipercorrecção *inflaccionadas. Nada explica *inspeção. Nada.

Os *fatos também têm explicação.

Continuação de uma óptima semana.

Nótula: João Mendes, obrigado pela notícia.

***

O fim-de-semana é óptimo

La la la la la la la…
John Frusciante

Aber eine Maschine kann doch nicht denken!—Ist das ein Erfahrungssatz? Nein. Wir sagen nur vom Menschen, und was ihm ähnlich ist, es denke. Wir sagen es auch von Puppen und wohl auch von Geistern. Sieh das Wort “denken” als Instrument an!
Wittgenstein (cf. Noam Chomsky)

***

Sendo certo que estamos há muito habituados a exercícios cosméticos, como rectificações no Diário da República ou este “pain in the ass” visto, apesar do “heart of glass” ouvido,

também não é menos verdade que, infelizmente, já temos como adquirida a ortografia corrompida no Diário Oficial da União… perdão, no Diário da República, uma montra daquilo que todos vêem no “portuguez lingua escripta” desde Janeiro de 2012.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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Brevíssima apreciação da aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990

J’ai seul la clef de cette parade sauvage.
Rimbaud

Es ist nach Disposition der Sätze (von denen der gewöhnliche I. Satz erst an 2. Stelle kommt) schwer möglich von einer Tonart der ganzen Symphonie zu sprechen, und bleibt, um Mißverständnissen vorzubeugen, lieber eine solche besser unbezeichnet.
Mahler

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Ontem, ao serão, um amigo enviou-me uma mensagem, na qual referia as denúncias que aqui amiúde faço acerca do aspecto da montra. Nessa missiva electrónica, o meu amigo mencionava concretamente a 2.ª série do Diário da República como fonte dos meus exemplos. Efectivamente, privilegio a 2.ª série, em detrimento da 1.ª, mas por meras razões de conveniência, devido à natureza dos actos, ao tratamento dos mesmos ou à dimensão dos diplomas. Todavia, com efeito, essa selecção de actos da 2.ª série pode dar aos leitores do Aventar a impressão errada de a 1.ª série ser extremamente virtuosa, digamos, uma espécie de paraíso do A090, no qual os fatos e os contatos não entram, em contraponto com o inferno da 2.ª série, e, lá está, lasciate ogne speranza, voi ch’intrate. Não é verdade. Um excelente exemplo do caos na 1.ª série foi dado através daquele que é, provavelmente, um dos diplomas mais marcantes do ano passado: a Resolução da Assembleia da República n.º 77/2020, de 6 de Outubro, com a apreciação da aplicação do estado de emergência, declarado pelo Decreto do Presidente da República n.º 17-A/2020, de 2 de Abril (pdf).

De facto, nessa apreciação, publicada na 1.ª série, encontramos vários o fato de

Mas não só.

Também encontramos diversos [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 é mais difícil de executar do que o scherzo da Nona de Beethoven

Kein Crescendo.
 H. von Karajan

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O scherzo da 9.ª Sinfonia de Beethoven tem um tempo muito rápido, é molto vivace – presto, sendo a execução extremamente difícil. Como não estamos nos Sons do Aventar, convém esclarecer que “tempo” aqui é entendido na acepção de «unidade de medida da pulsação rítmica, geralmente correspondente a cada uma das partes de um compasso musical». E “muito rápido”, salvo melhor opinião, é mesmo a designação mais correcta, pois rapidíssimo é o prestissimo. Portanto, o melhor é ficar pelo muito rápido e evitar superlativos sintéticos. Ao escutar este scherzo, sou imediatamente transportado para as margens do Mosela, quando entra na Alemanha, terminados os percursos francês e luxemburguês. Depois, o Mosela acaba por desaguar no Reno. Mas esse é outro assunto. Voltando àquilo que actualmente nos ocupa, como é sabido, apesar de difícil, a execução do scherzo da Nona é viável. Ou seja, é possível que isto

etc.

se traduza nisto [Read more…]

Hoje, obviamente, não há *contatos no sítio do costume

Das Älterwerden ist in der Tat eine Erfahrung, die man nicht vorwegnehmen kann und wahrscheinlich ist das Sterben erst recht auch eine solche Erfahrung, die man nicht vorwegnehmen kann.
Hans-Georg Gadamer

We’ve seen it hard, we’ve seen it kind of rough.
Clinton/Worrell

More specifically, all training conditions that included the visual modality lead to more on-target productions than the audio-only training.
van Maastricht, Hoetjes & van der Heijden (2019)

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A razão para não haver *contatos no Diário da República de hoje é simples e conhecida: ao sábado, não há Diário da República. Ontem, porque hoje é sábado, foi sexta-feira e, além disso, não foi feriado em Portugal. Por isso, houve Diário da República. Quando há Diário da República, a possibilidade de aparecerem espécies invasoras é extremamente elevada.

E essa possibilidade não tem a ver, note-se, com características concretas do Diário da República. O Diário da República mostra a quem quiser ver (há quem não queira ver) que o Acordo Ortográfico de 1990 afectou de forma negativa a consciência grafémica dos escreventes de língua portuguesa. Efectivamente, o Diário da República reflecte aquilo que actualmente acontece nas escolas de todos os graus de ensino, nas instituições de Ensino Superior, nas instituições de formação, nas instituições de investigação, nas empresas privadas, no sector público, nos partidos, nas agremiações, nas associações, na vida privada, enfim, em todo o lado. E o Diário da República, de facto, é uma montra. No entanto, como sabemos, uma montra não reflecte correctamente aquilo que se passa no armazém. O aspecto da montra é sempre óptimo e o espaço da montra é exíguo, sendo mostrada uma diminuta quantidade e uma reduzida variedade dos artigos que se encontram no armazém. O armazém, acreditai, é bem pior.

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Mencionar um fato: this never happened to Pablo Picasso

I loved all sorts of English language experimentation.
John Cale

In fact, comparing previous research on UG principles in L2 phonology vs. L2 syntax, and pointing out the relatively little work in this area by L2 phonologists, Young-Scholten (1995, 1996) argued that there is, nevertheless, reason to believe that interlanguage phonologies do not violate the principles of UG, because they often correspond to natural languages (a point first made by Eckman, 1981), and because learners can often reset phonological parameters, instead of being stuck with the L1 values.
Öner Özçelik & Sprouse (2016)

***

Há quem tente adoptar o AO90 e escreva fatos e contatos, em vez de factos e contactos. Nunca grafei nem fatos em vez de factos, nem contatos em vez de contactos. Ao não adoptar o AO90, estou automaticamente protegido da base IV e de interpretações abusivas (eufemismo para ‘erradas’) dela feitas, como o famoso “agora facto é igual a fato (de roupa)“. Neste contexto, jamais me ocorreria, por exemplo, mencionar um fato.

Mencionar um fato, em vez de facto? Homessa! Como cantam os Modern Lovers (e o Cale e o Bowie e o White), this never happened to Pablo Picasso.

Continuação de uma óptima semana.

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Cuidado!

In fact, theories such as direct realism suggest that perception and production are not just closely tied, but rather that production gestures are the basis of speech perception (Best, 1995; Fowler, 1986).
Baese-Berk & Samuel (2016)

Some people get a freak outta me
Some people can’t see what I can see
Some people wanna see what I see
Some people put an evil eye on me
Franz Ferdinand

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Efectivamente, como me disse o excelente leitor do costume (já tinha saudades de o mencionar):

Cuidado! São espetáveis!

 

Obviamente, segui o conselho.

Entretanto, houve outro leitor, um autor com quem simpatizo imenso, a almejar que uma pérola, sobre a qual conversávamos há dias, viesse desaguar no Aventar. Detectei-a, por suspeita, à margem da preparação de reunião sobre occisões (exacto, é a vida, como diria o actual SG da ONU). Trata-se de forma invasora, ocorrida nove vezes no sítio do costume: três entre 1985 e 2008 e seis entre 2017 e 2020.

Só três antes de 2008? E seis, só entre 2017 e 2020? Ora, tendo o AO90 começado a ser aplicado em Janeiro de 2012… Portanto, noves fora nada… Contas feitas, este aumento das ocorrências de *ocisão deve ser por razões que a literacia de cordel explicará.

Quanto à edição de hoje do Diário da República, tudo como dantes.

Continuação de uma óptima semana.

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2021 será melhor do que 2020?

I hate calling him die… It’s dice. It’s a dice!
Paul McCartney

… to be able to induce him… oh! induct!
Paul McCartney

***

A ver vamos se 2021 será melhor do que 2020. Francamente, não sei.

Pelas amostras hoje recolhidas, diria que não. O terrível ano de 2020 repercutir-se-á em 2021. E o de 2021 em 2022. E o de 2022 em 2023. E o de 2023 em 2024. E o de 2024 em 2025. E o de 2025 em 2026. E o de 2026 em 2027. E o de 2027 em 2028. E o de 2028 em 2029. Em 2030, veremos se há uma repercussão do provavelmente pavoroso ano de 2029.

Portanto, em suma e em princípio, como os culpados continuam a fingir que nada se passa, apesar de muito estar a acontecer, teremos em 2021 exactamente mais choldra igual à reinante desde Janeiro de 2012. Em princípio, repito. Pode ser que, entretanto, algum dos conhecidos culpados saia do armário onde toda a gente o viu entrar e se assuma publicamente, levando à reversão do processo.

Continuação de uma óptima semana.

Efectivamente.

***

Em Portugal, há quem seja condenado por fatos

Music with classical colours and a jazz touch, but fundamentally using the structure of pop music. (1)
A chord is made up of a tonic, a “third” (3 notes above the tonic) and a fifth. It’s the third that determines if it is major or minor. A tonic and a fifth is an “open” interval, like my two favorite notes C and G (also my initials) , a sound that is neither major nor minor. If the third is raised (E), it’s major. If it is lowered to the left (E flat), it is minor. Move your finger back to the right, and it’s major again. Left -minor. Right – major. Right-wing politics, left-wing politics… it’s all there. (2)
Chilly Gonzales

***

Efectivamente, em Portugal, há quem seja condenado por fatos relativos à prossecução dos seus objectivos e, como é sabido, há quem se esteja a marimbar para isso, nomeadamente quem nos meteu neste sarilho.

Que sarilho? Não sabeis?

Ei-lo:

Por vezes, em momentos destes, apetece-me fazer como Chomsky e dizer:

You just took me from the middle of a long article on new technical work to try to extend what’s called the Minimalist Program, which is an effort to provide genuine explanations for linguistic phenomena, by reducing them to elements so elementary that they satisfy conditions of evolvability and learnability, which are very narrow and strict empirical conditions. So it’s basically trying to show that, to put it kind of fancifully, that mother nature designed language as a perfect system for expression of thought – not very good for communication. That was not a consideration. But it’s very well designed for expression of thought. And it may, in fact, constitute thought- traditional view – which is not implausible, which, if correct, means that people like you are the only organisms with thought in the entire history of life and maybe in the entire universe.

Os meus votos de muita saúde, com Óptimas Festas e um Espectacular 2021.

Até para o ano.

***

O *Eletric e os seis *fatos de ontem no sítio do costume

I hate what computers have come to represent in a certain form of music.
Atticus Ross

In fact, learners may need instruction regarding particular sound sequences in the second language in order to overcome phonological bias that is transferred from their first language.
— Kilpatrick & Pierce (2014)

In fact, the study of electrical contacts has led to important conclusions in the theory of friction.
— Jones (1947)

***

Uma das consequências do Acordo Ortográfico de 1990 diz respeito ao impacto negativo na capacidade de falantes/escreventes de português europeu se exprimirem em determinadas línguas estrangeiras, quer oralmente, quer na escrita. Há muitos anos, a propósito do célebre “One Diretion“, receei que em português europeu o Having trouble with my direction /Upside-down, psychotic reaction dos The Cult pudesse ser transcrito como Having trouble with my diretion/Upside-down, psychotic reation. Ora, há dias, descobri que o álbum desta extraordinária canção foi vítima em português do Brasil deste fenómeno nada inesperado. Efectivamente, alguém grafou Eletric (em vez de Electric), o que é perfeitamente compreensível e só surpreenderá quem andar por aí muito distraído.

Os que andam por aí distraídos, dizendo aos quatro ventos que isto está a correr bem, não terão também reparado [Read more…]

Actos de Trump ultrapassaram fatos do Acordo Ortográfico de 1990

Forcing the factors to be orthogonal often allows extraction of factors that represent only a small number of variables, with each variable loading highly onto one factor or a small number of factors (Abdi & Williams, 2010).
— Ainsworth et al. (2019)

***

Efectivamente, neste preciso momento, “this claim about election fraud is disputed” tem mais ocorrências do que “o candidato declara serem verdadeiros os fatos constantes da candidatura“.

No entanto, até 3 de Novembro de 2020, de facto, ainda não era assim (cf. pdf, p. 7).

Continuação de uma óptima semana.

***

A actual aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 para totós

Efectivamente,

«Desporto pára quase todo este fim-de-semana: conheça as exceções».

Exactamente,

«representando um elo potenciador do contato e da transferência de conhecimentos para a sociedade».

Os meus agradecimentos ao excelente leitor do costume.

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Concordo com Martins e discordo quer de Mendes, quer do Expresso

Spanish /t/ is dental and English /t/ is alveolar, and the dental articulation leads to different formant transitions, particularly in the F2 of subsequent high vowels.
— Kissling (2015)

***

Foto: Tiago Miranda (https://bit.ly/31nsudF)

Não há qualquer «combate de palavras». Aquilo que há é indiferença e incompetência em relação às palavras. Eis o problema. Por exemplo, se alguém quiser ser Director do Serviço de Planeamento, Contratualização e Controlo de Gestão da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, E. P. E., só poderá obter “informação adicional” através de contato. E isso, francamente, é inadmissível. Por esse motivo, concordo com Martins e discordo de Mendes.

Obviamente, os leitores do jornal A Bola acharão [Read more…]

Felizmente, o Papa Francisco não lê o Diário da República

«Papa Francisco defende uniões de facto em casais homossexuais». Exactamente. Efectivamente.

Um novo rumo

Ninguém pára para pensar.
Elis Regina

Das Mißverhältnis aber zwischen der Größe meiner Aufgabe und der Kleinheit meiner Zeitgenossen ist darin zum Ausdruck gekommen, daß man mich weder gehört, noch auch nur gesehn hat.
Nietzsche

On ne vit pas dans un espace neutre et blanc ; on ne vit pas, on ne meurt pas, on n’aime pas dans le rectangle d’une feuille de papier.
Foucault (pdf)

***

Uma das hipóteses para a existência de contato num documento publicado no Diário da República é a redacção ter sido feita por um escrevente de português do Brasil ou por alguém que tenha tenha passado os anos formativos no Brasil ou em ambientes onde o português do Brasil era a língua dominante. É uma hipótese remota, mas as hipóteses remotas são as mais interessantes e são obviamente sempre excluídas à partida por quem escreve Orçamentos do Estado com os pés. Todavia, esta tese não se aplicará ao documento que hoje vos apresento, publicado no sítio do costume, no exacto dia em que os muito respeitáveis Nietzsche e Foucault fazem 176 e 94 anos,, respectivamente.

A razão é simples: [Read more…]

O contato do autor

For example, receptive bilinguals have high listening comprehension abilities, indicating a well-developed underlying language system, but possess limited ability to produce the language after a long period of disuse.
Dan Isbell

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Ontem, segunda-feira, não houve nem contatos, nem fatos, nem espécies invasoras afins no Diário da República. Contudo, há uma razão para essa excepção à situação vivida desde Janeiro de 2012: ontem foi feriado em Portugal e, nos feriados, não há Diário da República. Hoje, terça-feira, 6 de Outubro de 2020, não é feriado e, obviamente, tudo continua como dantes no sítio do costume.

Exactamente:

Continuação de um óptimo mês de Outubro.

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Trump & Melania

Tonight, @FLOTUS and I tested positive for COVID-19.
Donald Trump

Nathan Muir: Correct. Dinner Out is a go.
Dr. William Byars: “Dinner out is a go”? Hell of a way to speak to your wife.
Vincent Vy Ngo: Why do you think they keep dumping him?
Spy Game

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Hoje de manhã, ao ligar o computador, recebi esta notícia do The Guardian.

Fui tomar um café duplo e ouvir um bocadinho de Liszt.

No regresso ao computador, verifiquei que alguém do The Guardian repetira a notícia, mas com aspecto ligeiramente distinto.

Descubra as diferenças.

Mudando de assunto:

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***


O mês de Outubro começa lindamente

When perceiving speech, listeners need to first decode the auditory signal and transform this time-varying input into accurate phonemic representation (Cutler & Clifton, 1999).
— Jinghua Ou & Sam-Po Law (2017)

Keep me walking, October road.
James Taylor

Faz quatro anos em Outubro que aderi ao Movimento, disse o Homem. E por acaso, olha, como quase tudo o que me sucedeu na vida.
— António Lobo Antunes, Tratado das Paixões da Alma

***

Hoje, ao ler estes dois belos nacos de prosa,

não pude deixar de me lembrar de José António Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura que lamentava ainda não conseguir escrever fato em vez de facto:

“Ato jurídico” é fácil, agora “fato” em vez de “facto”…

Efectivamente, seguindo o princípio de Pinto Ribeiro, fruto de um deficiente conhecimento do instrumento sobre o qual frequentemente se pronunciou e relativamente ao qual tomou medidas políticas com consequências graves, mutatis mutandis, o redactor das pérolas de hoje no sítio do costume pensará que efetuar e eletrónico são fáceis, agora contatando e contatar em vez de contactando e contactar

Obviamente, depois de escritas estas linhas, não pude deixar de me lembrar do “agora facto é igual a fato (de roupa)“.

Desejo-vos um óptimo mês de Outubro.

***

Pelo fato

Well, I miss, really, silly things about Manchester. I miss the kind of things that nobody would understand why they could be missed, I miss the grey slate of the sky. And I miss silly things about Manchester people.  But you’re Southern, you wouldn’t understand. When you’re Northern, you’re Northern for ever and you’re instilled with a certain feel for life that you can’t get rid of.
Steven Morrissey

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Pelo fato de quê? Tendes de ler no sítio do costume. Quando? Desde Janeiro de 2012.

***

A doutrina Santana Lopes continua a dar os seus frutos

é preciso o fato
Mário Cesariny

***

É verdade que é importante estar atento à cruzada do Governo de Portugal e da Câmara Municipal de Lisboa, em nome do reforço da língua inglesa como língua de comunicação internacional. Todavia devemos continuar a prestar atenção a outros assuntos importantes, como o “agora facto é igual a fato (de roupa)” de Santana Lopes, que continua na ordem do dia no sítio do costume.

Exactamente. Efectivamente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

O Júri pode exigir o quê?

They are dumb proposals.
Frank Zappa

***

O novo ano lectivo começa na próxima semana. Felizmente, como nos garantiram há uns anos, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 corre sobre rodas.

***

A dimensão do contato

This is not a playable instrument.
Flea

***

Efectivamente, o Acordo Ortográfico de 1990 não funciona. Se ainda houver dúvidas, o Diário da República esclarece-as. Para uma visão pormenorizada do assunto, podeis recorrer à etiqueta sítio do costume.

Com votos de um óptimo fim-de-semana, eis o pano de fundo musical dos últimos dias, distinguindo-se um toque de deliciosa assimilação progressiva no primeiro verso:

O confinamento voluntário do poder político português

O que quer que aconteça na vida não se reduz nunca ao facto do seu acontecer.
— António de Castro Caeiro, ‘Epidemia’ e ‘pandemia’: manifestações de totalidade (pdf)

I believe it was inevitable
VH

nothing but an ego[‘s]-trip, yeah!
Bach

***

Em primeiro lugar, esta comparação entre Cristiano Ronaldo e o ministro das Finanças — seja ele Centeno, seja ele Leão, seja ela Alburquerque ou seja ele Gaspar — é inadmissível e ridícula. A culpa inicial é de Schäuble, sim, mas não vale a pena perpetuar o delírio: já chegam as vaidades patrocinadas pelo Expresso. Estou de acordo com Tennessee Williams, não nos devemos intrometer nas vaidades dos homens — embora o maravilhoso dramaturgo só tenha chegado a esta conclusão depois de satisfeito com a tareia dada à ego-trip de Menotti. No entanto, a vaidade de um maestro ainda é como o outro: mas um ministro, efectivamente, não é um maestro.

Passando àquilo que interessa, sabemos que é inevitável. Abre-se o Diário da República e… ei-los.

Continuai no vosso confinamento voluntário, encolhei os ombros, assobiai para o ar, tapai o sol com a peneira, escrevei Orçamentos do Estado vergonhosos, dai-nos música sobre a língua, blá, blá, blá, e, principalmente, mantei-vos no vosso buraquinho, muito escondidinhos, bem distantes da realidade, para que o vosso faz-de-conta tenha um ar bastante sincero.

***

Nótula: Segue-se um desabafo em forma de nótula, com reactivação dos primeiros apontamentos para este meu texto publicado na Torpor. Por mero acaso, tropecei neste debate entre Jack Lang e Éric Zemmour. Estava tudo a correr relativamente bem, até aparecer a história do pai de Zemmour. Enquanto os intelectuais que se pronunciam sobre tradução se mantiverem preguiçosamente encostados ao bordão do traduttore tradittore, continuaremos a assistir a debates vazios, travados por quem insiste em discutir pela rama assuntos efectivamente sérios. Como podereis reparar, o “traduire, c’est trahir” de Zemmour é acompanhado por aquela expressão corporal do “não se fala mais sobre o assunto“. Como diria Finkielkraut, “cette arrogance est absolument insupportable”. Quando políticos discutem língua, já se sabe que há despistes, mas, francamente, “idiot utile” (ou “inutile”, vai dar ao mesmo) não se admite e a réplica “idiot calculé“, passados uns dias, é igualmente inaceitável.

***

A sessão ortográfica

It was a new breed of men, created by the Renaissance cult of the individual, who embarked on these hazardous voyages of exploration.
Gustav Jahoda

You’re perfect, yes, it’s true.
Mike Patton

***

Já aqui se reconheceu a vantagem de sexão em relação a secção, por não haver cê à mão de semear para suprimir. Ou seja, enquanto secção é uma presa fácil, sexão é uma grafia à prova de bala. Há uns anos, secção começou a transformar-se em seção na consciência grafémica de determinados escreventes e chegámos ao ponto de sessão. De facto, no caso aqui apreciado, a doutrina alternativa de 1990 — a do n’importe quoi, estimulada por pérolas como “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’” — dividir-se-á entre duas interpretações extremamente sofisticadas: por um lado, a sexão de voto e, por outro, a sessão de voto.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2), cf. Aventar, 26/5/2019 (https://aventar.eu/2019/05/26/sexao-seccao-secao/)

Tudo começou a descambar [Read more…]

O discurso do Presidente da República e o excessivo *contato com a luz

Item 3 (diente ‘tooth’) and Item 9 (tribus ‘tribes’) do not fit the structure /ˈCVCV/ strictly; nevertheless, diente was used to allow for closer comparison with the comments from Moya Corral (1977: 34–35) and tribus was used as the combination /ˈCiCu/ is extremely rare in Spanish.
A. Herrero de Haro

Et cantant novum canticum dicentes:
“Dignus es accipere librum et aperire signacula eius, quoniam occisus es et redemisti Deo in sanguine tuo ex omni tribu et lingua et populo et natione; et fecisti eos Deo nostro regnum et sacerdotes, et regnabunt super terram ”.
— Ap 5,9 (apud NV, cf. KJV)

The high linguistic diversity resulting from the extreme multiethnic and multilingual composition of the post – De Boeck recalled that in 1901-2 Bangala-Station was composed of “people ex omni tribu et lingua” and a real “Tower of Babel” (De Boeck 1940a: 91) – made a lingua franca a dear necessity, for which the Europeans considered the Bobangi pidgin the most ready candidate.
— Michael Meeuwis (pdf)

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Apocalipse significa descobertaApocalipse significa revelação. No entanto, os assuntos de hoje diferem um pouco do implícito na epígrafe, onde encontramos salientadas palavras interessantes e muito actuais, quer no Antigo Testamento, quer em investigação recente. O primeiro assunto de hoje é, imagine-se só, política portuguesa pura e dura. O segundo assunto é o do costume.

Fiquei intrigado com o conteúdo deste texto de Alfredo Barroso e fui espreitar o discurso do Presidente da República. Efectivamente, pode discutir-se a consistência de argumentos contra a cerimónia na Assembleia da República, aduzidos, por exemplo, aqui no Aventar, por António Fernando Nabais, Carlos Garcez Osório, Fernando Moreira de Sá ou Francisco Figueiredo, e alhures, por outros intervenientes na vida pública, como Pedro Correia, Miguel Sousa Tavares ou João Soares. Aquilo que não se pode fazer, como faz Marcelo Rebelo de Sousa, é reduzi-los globalmente à [Read more…]

Se me chamasse Sara Azera de Almeida

My other callers are all professional. Banal psychiatrists and grasping second-raters. Pencil-lickers.
Hannibal Lecter

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Efectivamente, se me chamasse Sara Azera de Almeida, garanto-vos, processava a presidente do júri e impugnava o concurso.

Como se trata de assunto grave, fica aqui o pdf ao dispor dos interessados.

Continuação de uma óptima semana: com muita saúde e sem infecções.

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