«Lembrai-vos disto e meditai, reflecti, ó prevaricadores» (Is 46, 8)

Arguments that teaching explicit pronunciation is a waste of time or does not fit into a communicative classroom thus do not hold, as the benefits to the students are tangible.
Abby Bajuniemi

And then you cut
You cut it out
And everything
Goes back to the beginning
Choir of Young Believers

Mementote istud et confundamini; redite, praevaricatores, ad cor.
Is 46, 8

***

Ontem, foi dia de reflexão.

Hoje, é dia de meditação («lembrai-vos disto e meditai»).

Efectivamente, vede, incréus, o que aconteceu hoje no Diário da República.

Houve fatos

sim, houve fatos

e, além destes fatos, houve contatos:

Citando Frei Bento Domingues, num texto muito justamente intitulado Meditar em qualquer lugar,

boas férias e até Setembro.

***

Reflictamos acerca do fato

Nice chap, buys his round.

Ian Hislop

Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few.

Churchill (apud Boris Johnson)

Furthermore, there is an enormous class hatred: how can this uneducated worker who doesn’t even speak proper Portuguese dare to be sitting in the presidential palace?

Noam Chomsky

***

Efectivamente, depois de o livro de Nuno Pacheco ter sido muito bem apresentado, houve uma semana ligeiramente atribulada e o sossego do fim-de-semana.

Chegados a segunda-feira, encontramos isto, no sítio do costume:

Os responsáveis pelo desastre lá vão encolhendo os ombros, assobiando para o ar e, armados em Boris, fazendo de conta que não está a chover.

Apetecia-me escrever umas linhas acerca do verbo reflectir e da nítida função diacrítica do c nas formas arrizotónicas com e: reflecti, reflectia, reflectiam, reflectíamos, reflectias, reflectido, reflectíeis, reflectimos, reflectindo, reflectir, reflectira, reflectirá, reflectiram, reflectíramos, reflectirão, reflectiras, reflectirás, reflectirdes, reflectirei, reflectireis, reflectíreis, reflectirem, reflectiremos, reflectires, reflectiria, reflectiriam, reflectiríamos, reflectirias, reflectiríeis, reflectirmos, reflectis, reflectisse, reflectísseis, reflectissem, reflectíssemos, reflectisses, reflectiste, reflectistes, reflectiu.

Tal função torna-se perceptível, por exemplo, se compararmos com repetir: repeti, repetia, repetiam, repetíamos, repetias, repetido, repetíeis, repetimos, repetindo, repetir, repetira, repetirá, repetiram, repetíramos, repetirão, repetiras, repetirás, repetirdes, repetirei, repetireis, repetíreis, repetirem, repetiremos, repetires, repetiria, repetiriam, repetiríamos, repetirias, repetiríeis, repetirmos, repetis, repetisse, repetísseis, repetissem, repetíssemos, repetisses, repetiste, repetistes, repetiu — e quanto à justificação de -ct- nas formas com i (reflicto, reflictamos, etc.), lembremo-nos da “derivação ou afinidade evidente” e do <x>com valor [ks].

Além dessas apetecidas linhas, também queria propor formalmente uma adenda à lista de Vasco Pulido Valente. Ei-la, informal: agora facto não é igual a fato (de roupa).

Infelizmente, como o “bem-amado kaiser“, ando com pouco tempo: quer para as linhas, quer para a formalização da proposta. Fica para outra altura.

***

Haja caras que digam

Não é só três, como houve um cara que disse. (*)

… no gramado — como vocês dizem, eu digo relvado —, no gramado… (**)

— Jorge Jesus (*, **)

Pirate punk politician
I got you in a bad position

—  Perry Farrell

Blow, bugle, blow, set the wild echoes flying,
Blow, bugle; answer, echoes, dying, dying, dying.

Tennyson

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Vida nova pára Casillas no FC Porto ou vida nova para Casillas no FC Porto? Trânsito pára em Lisboa esta sexta-feira à tarde para deixar passar Eusébio ou trânsito para em Lisboa esta sexta-feira à tarde para deixar passar Eusébio? Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio ou bloqueio nos fundos da UE para projeto [perdão] de milhões na área do regadio? Tribunal pára despejos num dia em que uma morte trava uma vitória ou tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória? Ninguém pára a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto” ou ninguém para a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”? No regresso para em Lourenço Marques para visitar uma irmã ou No regresso pára em Lourenço Marques para visitar uma irmã? Ninguém para o Benfica ou ninguém pára o Benfica? André Horta para um mês ou André Horta pára um mês? Ninguém para para o socorrer ou ninguém pára para o socorrer? Alto e para o baile ou alto e pára o baile? Para o bailinho ou pára o bailinho? Uma legislatura perdida para a Educação ou uma legislatura perdida pára a EducaçãoSalvio para a história ou Salvio pára a históriaMourinho para Portugal ou Mourinho pára Portugal (DDD, pp. 49-50)? Ah! O acento (e o assento). Ah! A Vida Nova. Ah! O Diário da República!

Efectivamente, no sítio do costume, é a vida velha:

Como diz Ana Cunha,

Este é um trabalho que está em curso, que continua.

De facto, está em curso, continua, não pára:

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

Inquietações ortográficas

On est encore libre de ses lectures.

Nicolas Sarkozy

Barney Fein: Who are these savages?

David Mamet

Ça commence à devenir, effectivement, très inquiétant.

Dominique Rizet

***

Recentemente, consultei a versão electrónica do Expresso e o aspecto era este:

Havia sector e setor, na mesma página: tudo isto é um espectáculo e uma alegria, efectivamente, tudo isto é um forrobodó.

Provavelmente por andar a ler o Diário Oficial da União (para quem não souber, o homólogo brasileiro do Diário da República), o Expresso também transmitiu uns fatos que andam por aí:

No sítio do costume, a festa continua:

Eis, de novo, os factos esquecidos e os fatos novos, mas inadequados. É o tal grão de areia, há muito conhecido em S. Bento, a fazer das suas na engrenagem.

Bem-vindos à adopção do Acordo Ortográfico de 1990.

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Para quedas, para pentes e pentes para carecas

La résilience, la définition est très simple : c’est la reprise d’un type de développement, après avoir subi un traumatisme.

Boris Cyrulnik

Thus, if learners are applying a ‘first-noun strategy’ when beginning to learn Latin, they might miscomprehend something like Ursum tigris amat (bear-ACC tiger-NOM loves) as ‘The bear loves the tiger.’ For this reason, it is not enough to only measure reading times of grammatical and ungrammatical sentences to see if learners develop sensitivity to case marking. It is also prudent to determine whether learners can make use of case marking during sentence comprehension. That is, can they correctly interpret something like Ursum tigris amat as ‘The tiger loves the bear’?

VanPatten & Smith

Jouis et fais jouir, sans faire de mal ni à toi ni à personne : voilà, je crois, toute la morale.

Chamfort (apud Onfray, bah oui, Onfray)

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Já sabíamos que a ausência crónica de contacto com a realidade é uma disfunção que afecta muitos decisores políticos. Todavia, hoje, ficámos igualmente familiarizados com o conceito “sem contato com o solo”.

E lá está o famoso paraquedas (versão 1990 de pára-quedas), ao qual, apesar dos boatos, Manuel Monteiro não se referiu.

Efectivamente, como dizia anteontem Nuno Pacheco,

o Acordo Ortográfico não é uma coisa com erros, é um erro com coisas.

Siga.

***

Quem para a extrema-direita na polícia?

Les perroquets commencèrent à crier, âcres, aigres, puis les perruches ajoutèrent leur pépiement à cette symphonie discordante. Leur charivari montait avec la lumière.

Éric-Emmanuel Schmitt, “Les Perroquets de la place d’Arezzo

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Aliás,

Quem pára a extrema-direita na polícia?

Exactamente, apesar de ativa e de ativistas:

Como sabemos, existe uma diferença entre afirmar

Escrevo com o AO nos jornais

e escrever com o AO nos jornais.

É como a diferença entre determinar

a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa [..], a partir de 1 de Janeiro de 2012, […] à publicação do Diário da República

e permitir que isto aconteça:

— ou até um bocadinho semelhante a, por um lado, afirmar

No Acordo é limpinho: é muito mais fácil dizer que se é contra. E também parece que algumas pessoas têm de encontrar válvulas de escape para a insatisfação em que vivem. É um pouco como chamar nomes ao árbitro. Acho que às vezes as pessoas precisam de conhecer mais mundo.

e, por outro, escrever

Agora facto é igual a fato (de roupa).

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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O contato, os contatados e os contatos

En quelques secondes j’avais perdu mon père. Ce que j’avais si souvent craint était arrivé, en ma présence. Je ne suis jamais parti donner des conférences en Australie ou en Inde, au Japon ou aux États-Unis, en Amérique du Sud ou en Afrique noire sans penser au fait qu’il aurait pu mourir pendant mon absence. Je songeais alors avec effroi qu’il m’aurait fallu faire un long retour en avion vers lui en le sachant mort. Or, il mourrait, là, avec moi, dans mes bras, seul à seul. Il profitait de ma présence pour quitter le monde en me le laissant.

Michel Onfray

Tanto adiei esse dia que o deixei fugir.

Carla Romualdo

Nous vénérons beaucoup plus les idées que la réalité.

Michel Onfray

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Depois do fim-de-semana, se bem se lembram, tivemos segunda-feira e também houve terça-feira. Entretanto, chegámos a quarta-feira

e tudo continua exactamente na mesma.

A ideia “acordo ortográfico” é venerada pelo poder político de Portugal — todavia, a realidade passa completamente ao lado de quem decide, como passaram os pareceres críticos que previam o desastre e ficaram na gaveta a servir de forro. O Diário da República é simultaneamente a realidade e a sua demonstração, ou seja, uma montra que serve de prova visível, pública e notória do desastre actualmente a acontecer em todas as áreas do “portuguez lingua escripta“. No entanto, a reacção dos decisores, de quem se espera lucidez e a quem se exige coragem, resume-se efectivamente a encolher os ombros, assobiar para o ar e tapar o sol com a peneira.

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Actualização (7/6/2019): ligeira correcção estilística no último parágrafo.

Assegurar os contatos necessários

Quem sabe de mim sou eu

Gilberto Gil

Ik denk dat wij mensen te veel aandacht aan taal besteden. Ik heb mijn emoties en manipuleer mijn gevoelens, maar de taal gebruik ik pas als ik jou erover wil vertellen.

Frans De Waal

Serres est marqué sur ma carte d’identité. Voilà un nom de montagne, comme Sierra en espagnol ou Serra en portugais; mille personnes s’appellent ainsi, au moins dans trois pays. Quant à Michel, une population plus nombreuse porte ce prénom.

Michel Serres (1930-2019)

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Estas citações de Frans De Waal e de Michel Serres merecem veemente crítica: uma língua não se limita nem aos países que lhe dão nome, nem ao momento da entrada em acção do aparelho fonador. Nem pouco mais ou menos. Todavia, vendo bem as coisas, as afirmações destes dois excelentes autores não são tão graves como o espectáculo diariamente oferecido no Diário da República.

Actualização (5/6/2019): Amigo atento salientou o ‘eminente’ em vez de ‘iminente’. Trata-se de um aspecto muito importante (à consideração do Expresso, quando fizer a revisão da matéria) e convém perceber que o *eminente já encontrou há muito o seu lugar no sistema (aqui, ali, acolá), por razões que já expliquei alhures.

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Há vida além da sexão: o regresso da seção

Now, some people call that a theory of everything. That’s wrong because the theory is quantum mechanical. And I won’t go into a lot of stuff about quantum mechanics and what it’s like, and so on. You’ve heard a lot of wrong things about it anyway.

Murray Gell-Mann (15/09/1929—24/05/2019)

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Efectivamente, depois das ocorrências de seção da semana passada, houve a habitual interrupção do fim-de-semana, com a irrupção dominical de sexão.

Hoje, tudo voltou ao normal, com o regresso da seção:

Os fatos também deram o habitual ar da sua graça:

Nada de novo a assinalar: tudo como dantes, no sítio do costume.

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A sexão, a secção e a seção

Also, there is much needed research on the intersection of pronunciation instruction and individual differences.

— Pablo Camus

Factos são factos e fatos são fatos: uns à medida e outros sem ser à medida.

Pinto da Costa

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Uma das vantagens de sexão em relação a secção é a ausência de possibilidade da supressão do cê.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2)

De facto, a adopção de sexão impedirá coisas destas

ou destas

ou ainda destas [Read more…]

Acordo Ortográfico de 1990: os contatos estão assegurados

SUMO
SUMPTUOSO
SUBIDO
ESPLÊNDIDO
ERGUIDO
SUBLIMADO
TRANSCENDENTE

o casamento de adjectivos a que assisti

— Paulo Pego

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Efectivamente, depois do desastre da semana passada e de um fim-de-semana glorioso (sem Diário da República e com o Benfica campeão), regressamos ao mesmo, no sítio do costume:

Exactamente: “que não fique por fazer o que podia ter sido feito”.

© Global Imagens [https://bit.ly/2TrZPkT]

***

A união de fato e o pára-raios: hábitos e recaídas

Kein Mensch kann wirklich leben, wenn nicht noch ein Funken von Hoffnung in ihm ist. Und das sollten die Massenmedien nie vergessen.

Hans-Georg Gadamer

A marcha era lenta, iam velhos entre eles e mesmo os moços estavam no limite da fadiga, não podiam mais. Alguns quase se arrastavam, sustentados apenas pela esperança.

Jorge Amado

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Esta semana tem sido extremamente produtiva. Tivemos alguns exemplos do sítio do costume, como o contato de 13 de Maio ou os contatos de anteontem, aos quais se juntam os fatos de ontem:

 

Exactamente: fatos.

No Expresso. tem havido recaídas. Como se sabe, não há três sem quatro.

Ei-la:

Efectivamente: pára-raios.

E hoje?

Hoje, dedicaremos a nossa atenção ao sítio do costume e a outro aspecto da adopção do AO90 :

Exacta e efectivamente: coletivo, colectiva e colectivamente.

E amanhã?

Amanhã, felizmente, não há Diário da República.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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As recaídas do Expresso e os «contatos posteriores»

Rogava aos santos que lhe permitissem morrer. Ah! para não ver cumprir-se o inelutável destino, acontecer a inexorável desgraça.

Jorge Amado

Tu já sabes o que é que vai acontecer

— Conan Osíris

All this was real, it was really happening, but with a quality of the unreal; it was reality happening in quite a different way.

— Anna Kavan, “Ice”

***

Escreve o Expresso:

Queda de betão da parte inferior do tabuleiro da ponte da Arrábida origina inspeção.

Felizmente, o caso está a ser acompanhado pela Protecção Civil.

Efectivamente: Protecção.

Como é sabido, não há nem uma recaída sem duas, nem duas sem três, nem três sem quatro — e assim sucessivamente.

Quanto ao Diário da República, não há surpresas.

Aliás, quando se menciona Diário da República, todos sabemos, como cantava ontem Conan Osíris, “o que é que vai acontecer”:

Exactamente: a grafia habitual, no sítio do costume.

***

Ilusões ortográficas

Tu já imaginou a decepção, homem?

Coronel Jesuíno Mendonça

Para o segundo número da revista preparou um artigo, em português não menos clássico e com argumentos irrespondíveis, no qual, baseado em fatos e sobretudo nos versos do poeta Teodoro de Castro, esmagava definitivamente as negativas do conde.

Jorge Amado

***

Ontem, 13 de Maio de 2019, lembrei-me do dia 13 de Maio de 2009.

De facto, tendo lido isto,

lembrei-me disto:

O Diário da República não nos desilude.

Efectivamente,

Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver.

***

O Polígrafo, o sítio do costume e o contato escondido com rabo de fora

Pai, agora eu decolei, guardei meu celular, já tô no ar, mas não me desliguei

Gabriel, o Pensador

E se eu partir o telemóvel
Eu só parto aquilo que é meu

Conan Osíris

***

O Polígrafo volta a desiludir-nos, o Polígrafo continua a decepcionar-nos. Apesar de avisado, insiste em prevaricar:

Como sabemos, desde Janeiro de 2012, é muito mais fácil encontrar um contato no Diário da República do que um gato no meio de corujas.

Descobriram o gato? Sim? Não? Então, experimentem agora encontrar o contato:

Exactamente. Muito bem. De facto, está ali:

Na senda da decepção ortográfica do Polígrafo, procuremos agora o p do grafema (dígrafo) <ep> de decepção, no Diário da Assembleia da República (sexta-feira, 15 de Junho de 2018, I Série, N.º 94):

Encontraram? Não? Nem eu.

Então, experimentem agora [Read more…]

O progresso da ortografia e o véu da ignorância

A useful comparison here is with the problem of describing the sense of grammaticalness that we have for the sentences of our native language. In this case the aim is to characterize the ability to recognize well-formed sentences by formulating clearly expressed principles which make the same discriminations as the native speaker. This undertaking is known to require theoretical constructions that far outrun the ad hoc precepts of our explicit grammatical knowledge. A similar situation presumably holds in moral theory.

— John Rawls

L’agent voudrait se mettre au vert
L’Opéra rêve de grand air
A Cambronne on a des mots
Et à Austerlitz c’est Waterloo

Joe Dassin

***

Em recente debate com Steven Pinker, Paul Krugman teve a feliz ideia de lembrar o véu da ignorância, de John Rawls (cf. a partir de 24:15).

Debatia-se, então, o progresso da humanidade, note-se. Não se debatia o progresso da ortografia. O progresso da ortografia é assunto para os próximos parágrafos. Retomemos, então, neste nosso parágrafo, o véu da ignorância. O ponto de partida de Rawls é a possibilidade de se estabelecer um procedimento justo de tomada de decisão, de modo a que quaisquer princípios associados a este sejam também eles justos. No fim de contas, a ideia é anular efeitos de contingências concretas que constituam uma tentação para os decisores e os levem a explorar circunstâncias naturais e sociais em benefício próprio. Para esses efeitos serem anulados, um véu de ignorância deve impedir que os decisores saibam qual o lugar que ocupam na sociedade, qual a classe social a que pertencem, que estatuto social detêm, quanto vale a sua fortuna, quão inteligentes são, quanta força têm, etc.

Mudemos, abruptamente, de assunto.

Hoje é dia útil, portanto, não há novidades.

Efectivamente, no sítio do costume, além de adotante, temos união de fato:

De facto, ninguém ficará surpreendido, creio, com esse fato (sim, com esse fato):

Escrito isto, desejo-vos uma óptima Páscoa, com muitas amêndoas e pouco (se possível, nenhum) Diário da República.

Exactamente.

Até breve.

***

O buraco ortográfico

Credits: Event Horizon Telescope collaboration et al. (https://go.nasa.gov/2Z2mJPS)

Sey. The Queene (my Lord) is dead.
Macb. She should haue dy’de heereafter;
There would haue beene a time for such a word:
To morrow, and to morrow, and to morrow,
Creepes in this petty pace from day to day,
To the last Syllable of Recorded time:
And all our yesterdayes, haue lighted Fooles
The way to dusty death.
— Shakespeare, “Macbeth” (Folio I, 1623)

***

Depois das notícias de ontem sobre o buraco negro (eis o artigo), regressemos ao buraco ortográfico aberto pelo poder político.

Repare-se neste exemplo clássico:

Exactamente:

Menção de que o candidato declara serem verdadeiros os fatos constantes da candidatura.

Trata-se efectivamente de exemplo que é genuinamente clássico, conhecido no Palácio de São Bento, pelo menos, desde o dia 7 de Fevereiro de 2013 (cf. página 7 em “Documentação entregue [formato PDF]“). Entre a entrega do documento que redigi e o dia em que escrevo estas linhas, portanto, é só fazer as contas, deixa cá pegar num lápis aguçado, ora bem, já lá vai uma, já lá vão duas, já lá vão três, já lá vão, deixa cá ver… 322 semanas.

Até hoje, como se vê,

nada se fez.

Todavia, fala-se muito (“Portugal fez a sua parte“). Aliás, fala-se imenso (“Orgulho-me de ter assinado o Acordo em 1990“). Declara-se abundantemente (“O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico“) e profere-se bastante («Portugal “aguarda serenamente” a conclusão da ratificação do acordo ortográfico pelos membros da CPLP que ainda não o fizeram»), com tiros pela culatra.

Enfim, muita conversa e o buraco a aumentar.

***

A aliança ortográfica

Linguistics is the field that tries to figure out how human language works — for example: how the languages of the world differ, how they are the same, and why; how children acquire language; how languages change over time and why; how we produce and understand language in real time; and how language is processed by the brain.

David Pesetsky

***

Depois de Santana Lopes ter promovido os fatos, através do famoso “agora facto é igual a fato (de roupa)“, vem agora o Expresso (num intervalo das aulas) dar uma notícia sobre a Aliança com contatou:

Na quinta-feira, dia deste excelente artigo de Nuno Pacheco, o Diário da República trouxe-nos os habituais fatos

e andou a promover contatos [Read more…]

Depois do excepcional, a direcção

How can we explain that what is difficult to learn when moving from Lx to Ly is not necessarily difficult when moving from Ly to Lx, if it were true that it is mere L1–L2 differences that cause learning difficulty?

— Lourdes Ortega

***

Efectivamente, o Expresso, apesar das aparências e da propaganda, não adopta o Acordo Ortográfico de 1990.

Anteontem, o excepcional.

Ontem, a direcção.

O Expresso diz-nos que Armando Vara deixou de ser Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e que o despacho foi publicado no Diário da República de hoje.

Efectivamente, é verdade:

Todavia, também é verdade que no Diário da República, como no Expresso, há uma direcção, sem til e sem cedilha, claro, tendo em conta o contexto, mas com consoante não pronunciada ‘c’, quand même:

Além disso, como é costume, há contato

efectivamente, há contato

e fatos e factos.

Exactamente: no sítio do costume.

***

A pressão ortográfica

Breathe the pressure
Come play my game, I’ll test ya.
Prodigy

***

O meu destaque da semana podia ser esta magnífica foto dos heróis do Dragão.

© Global Imagens [https://bit.ly/2TrZPkT]

Todavia, há emergências mais urgentes (a propósito de emergências mais urgentes, durante a semana passada, faleceu José Vieira de Lima, o tradutor que me apresentou o Sam Shepard).

No sítio do costume, continuam a chumbar nos testes ortográficos da norma que eles próprios criaram e impuseram.

Já agora, é engatar e não enganar (efectivamente, é uma discussão interessante).

***

Keith Flint (1969-2019)

Alcouce, sim, mas com cedilha, claro

I’m a scientist. I never apologize for the truth.

Sheldon

***

Depois de uma introdução com terramotos para encher chouriços, Cristina Ferreira disse a Marisa Matias que não se conseguia fixar o nome da localidade onde a entrevistada cresceu.  Note-se que Ferreira não disse “é um nome difícil de eu memorizar/é um nome difícil para mim de memorizar/é um nome que eu não consigo memorizar”. Não. Ferreira disse: “é um nome difícil de memorizar” — ou seja, para ela, para mim, para si, caro leitor do Aventar. E Ferreira terá alguma razão, pelo menos, no que diz respeito à equipa daquele programa, a julgar pela memória grafémica do autor daquele Alcouçe, que não terá lido com cuidado qualquer biografia da entrevistada e, pior, não aprendeu a regra cacecicocu [kasɛsikɔku]. Isto é inadmissível, num programa em que o salário da apresentadora parece ser o assunto mais candente. em vez de se discutir o salário (ou a péssima remuneração) e o curriculum (ou a licenciatura na University of Westfield Online) do redactor dos rodapés e dos oráculos.

Quanto ao sítio do costume,

tudo bem.

***

O fato de apresentação

If ifs and buts were candy and nuts we’d all have a Merry Christmas.

Acquisition takes time; it takes far more than five hours per week over nine months to acquire the subjunctive.

Stephen Krashen

***

Como ontem e anteontem, temos na epígrafe uma referência ao conjuntivo. Como ontem e anteontem, temos grafias exóticas, no sítio do costume:

Amanhã e depois de amanhã, felizmente, é fim-de-semana e não há Diário da República. Efectivamente, fim-de-semana: com hifenes, com certeza, logo, sem fatos e sem contatos no sítio do costume. Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

O fato é parâmetro preferencial

Phenomena in physics are also conditioned by all kinds of extra-physical parameters, which may be biological, chemical etc. Would physicists try to explain physical phenomena by extra-physical causes before having tried physical explanations? Would anybody believe that extra-physical explanations are superior to physical ones per se?

Tobias Scheer

Penny meant “if he were a purple leprechaun”. Penny forgot to use the subjunctive.

Sheldon

***

Depois de termos ouvido Searle a pronunciar-se sobre o modo que exprime acções e estados ainda por realizar e hipóteses ou acções e estados irreais, hoje é a vez de ouvirmos (e lermos) o Sheldon a exprimir-se sobre o conjuntivo. Relativamente a ontem, esta é a grande novidade que me apraz registar. No sítio do costume, lamento imenso, continua tudo exactamente na mesma.

Continuamos com contatar (e contactar!):

Aliás, abrindo um parênteses, esta tendência não é exclusiva do Diário da República — também sofrem do mesmo mal quer a Lusa, quer quem divulga os despachos (os meus agradecimentos ao excelente leitor do costume, por este alerta):

Fechado o parênteses, mantêm-se os fatos:

Até há mais fatos: [Read more…]

Perspectivas de Adriano

Ce provincial ignorait le grec, et parlait le latin avec un rauque accent espagnol qu’il me passa et qui fit rire plus tard.

— Marguerite Yourcenar, Mémoires d’Hadrien

God, how I miss the subjunctive! […] Far be it from me to use the subjunctive in a lecture. But, anyway, I just did.
John Searle

Je pense qu’il faut avoir ressenti ce que Proust a ressenti pour pouvoir trouver du plaisir à la fameuse histoire de la madeleine, pour n’en rester qu’à ça. Et encore, la madeleine de Proust c’est le Don Quichotte contre les moulins: il suffit d’une anecdote pour résumer la totalité du livre.

Michel Onfray

***

A ortografia portuguesa continua na mesma: estável na sua instabilidade. Repare-se na crónica publicada no Expresso, acerca do jogo de futebol A.S. Roma-FC Porto de ontem. Começa tudo muito bem, do ponto de vista da ortografia portuguesa europeia e da “unidade essencial da língua portuguesa”, com perspectiva (quartos-de-final, mas não nos dispersemos).

Efectivamente, em primeiro lugar, para impedir o fechamento (ou elevação) da vogal, convém meter uma consoante (como já expliquei aqui e ali): neste caso, o c. Além disso, em segundo lugar, a tão propalada “unidade essencial da língua portuguesa” é mantida pela recaída do Expresso, mas posta em causa pelo próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990: no Brasil, mantêm a perspectiva; por cá, criaram a perspetiva.

Todavia, logo a seguir, a crónica do Expresso resvala para terrenos de 1990, com esta receção.

Portanto, perspectiva por um lado, mas receção por outro.

estamos habituados.

Quanto ao sítio do costume…

Exactamente.

Continuação de uma óptima semana, se possivel, com mais recaídas.

***

Boletim meteorológico

Cette arrogance est absolument insupportable. Mais pour qui vous prenez-vous? Mais pour qui vous prenez-vous, Emmanuel Todd? Vous ne passez plus les portes!

Alain Finkielkraut

I think that’s the way things work. You have some… It’s not that you… I mean, belief formation is often contingent on the outcomes that you want. You want a certain outcome and you construct a system of beliefs which makes that exactly right and just.

Noam Chomsky

***

Efectivamente.

Efectivamente, estava eu a escrever, 2019 continua com dias de céu geralmente limpo (Magnolia foi há 20 anos). Há vento. Vento que vem, desde 2012, do outro lado do Atlântico, como se vê pelo contato, mas em geral fraco, devido a ‘respetivo’ em vez de ‘respectivo’.

Há possibilidade de formação de neblinas em forma de contatos todas as semanas.

O arrefecimento, apesar de lhe chamarem noturno, é nocturno (para si, minha senhora). Quanto ao mar, há ondas, muitas ondas, só ondas (my wave), só ondas (waves roll in my thoughts) e há espuma (Fort ans Meer! ans Meer! es schäume die Welle), muita, muita espuma. A temperatura da água do mar, como os pareceres, não interessa rigorosamente nada.

***

Em Portugal, é «possível estabelecer contato imediato»

It’s hard to get the students who read a lot of Foucault, for example, to worry about anything as simple as national health insurance, or the minimum wage, or immigration policy, or NAFTA, or something like that.

Richard Rorty

É como chegar, não chegar

Pára, enfim, a relação

GNR

***

Efectivamente, no sítio do costume, a possibilidade de estabelecer contato imediato existe há 7 anos.

Sim, eis o ‘eminente’ tão associado ao ‘perigo’ no Diário da República, em vez do esperado ‘perigo iminente’ (recordo indicações dadas em Dezembro de 2015, Janeiro de 2016 e Novembro de 2016), mas não nos dispersemos.

Porque os primeiros dias úteis de 2019 estão a ser bastante excitantes e extremamente auspiciosos. Ontem, também houve contato.

E hoje? [Read more…]

A susceptibilidade e os espectadores

Em vez de se preocupar com a *suscetibilidade dos *espetadores,

convinha que a RTP prestasse mais atenção à susceptibilidade dos espectadores. E dos telespectadores.

Ou há ortografia

ou comem todos.

No sítio do costume, ’tá tudo bem:

Efectivamente, tudo bem. Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Efectivamente, isto é grave

Introspect for a while.

Noam Chomsky

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A resposta sobre estes *fatos está aqui, hoje, no sítio do costume (pdf):

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Nótula: Os meus agradecimentos a Isabel Nogueira.

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Trump, Chomsky e as línguas

Quem quer ouvir pintar em inglês do Mali?

— GNR

I’ll tell you what I want, what I really, really want
So tell me what you want, what you really, really want
I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha)
I wanna really, really, really wanna zigazig ah

— Elijah Wood (o original é este e eis um bónus)

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Segundo a versão do Politico («Without the US, the French would be speaking German»), Donald Trump terá escrito que, sem a intervenção dos EUA na Segunda Guerra Mundial, hoje em dia, os franceses estariam a falar alemão — como língua dominante no território francês, entenda-se. Já agora, fica aqui uma nótula informativa a indicar que a paisagem linguística do hexágono é extremamente complexa e interessante e, já agora, há vida francófona além do hexágono.

Adiante.

Com esta asserção do presidente dos EUA (a veiculada pelo Politico, a original encontra-se no chilreio), depreende-se que Trump não lê, não escuta, não ouve (ou — existe sempre esta hipótese — não concorda linguisticamente com) Chomsky. Há uns anos, perante a pergunta de  Al Page “porque é que a língua francesa é tão diferente da alemã?”, Chomsky criticou implicitamente o ‘tão’, retorquindo que Page estava a partir do princípio de que a língua francesa era diferente da alemã.

Além desta pequena provocação, deixo-vos uma linda imagem do sítio do costume, desta vez, sem fatos, sem contatos, mas com um belíssimo panorama de um aspecto que só tenho difundido em dias de Orçamento do Estado. Tradutores Contra o Acordo Ortográfico, obrigado pelo mote.

Efectivamente, ontem, no sítio do costume.

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A ortografia e a autenticidade

De voorspelling is dan dat er in riem meer alveolaire fricatieven zullen voorkomen (het meest waarschijnlijke resultaat van het mislukken van tongpunttrilling).

— K. Sebregts

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O Polígrafo estudou a matéria e divulgou que uma declaração atribuída a Catarina Martins não é autêntica. Convém ao Polígrafo debruçar-se também sobre a convenção ortográfica adoptada nas suas deliberações e comunicações. Um conselho aos redactores do Polígrafo: adoptai a ortografia de 1945, a autêntica, a verdadeira, a legítima, a da Bayer. Efectivamente, evitai contatos.

Quanto ao sítio do costume, pouco há a acrescentar.

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