Pelo fato

Well, I miss, really, silly things about Manchester. I miss the kind of things that nobody would understand why they could be missed, I miss the grey slate of the sky. And I miss silly things about Manchester people.  But you’re Southern, you wouldn’t understand. When you’re Northern, you’re Northern for ever and you’re instilled with a certain feel for life that you can’t get rid of.
Steven Morrissey

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Pelo fato de quê? Tendes de ler no sítio do costume. Quando? Desde Janeiro de 2012.

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A doutrina Santana Lopes continua a dar os seus frutos

é preciso o fato
Mário Cesariny

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É verdade que é importante estar atento à cruzada do Governo de Portugal e da Câmara Municipal de Lisboa, em nome do reforço da língua inglesa como língua de comunicação internacional. Todavia devemos continuar a prestar atenção a outros assuntos importantes, como o “agora facto é igual a fato (de roupa)” de Santana Lopes, que continua na ordem do dia no sítio do costume.

Exactamente. Efectivamente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

O Júri pode exigir o quê?

They are dumb proposals.
Frank Zappa

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O novo ano lectivo começa na próxima semana. Felizmente, como nos garantiram há uns anos, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 corre sobre rodas.

***

A dimensão do contato

This is not a playable instrument.
Flea

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Efectivamente, o Acordo Ortográfico de 1990 não funciona. Se ainda houver dúvidas, o Diário da República esclarece-as. Para uma visão pormenorizada do assunto, podeis recorrer à etiqueta sítio do costume.

Com votos de um óptimo fim-de-semana, eis o pano de fundo musical dos últimos dias, distinguindo-se um toque de deliciosa assimilação progressiva no primeiro verso:

O confinamento voluntário do poder político português

O que quer que aconteça na vida não se reduz nunca ao facto do seu acontecer.
— António de Castro Caeiro, ‘Epidemia’ e ‘pandemia’: manifestações de totalidade (pdf)

I believe it was inevitable
VH

nothing but an ego[‘s]-trip, yeah!
Bach

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Em primeiro lugar, esta comparação entre Cristiano Ronaldo e o ministro das Finanças — seja ele Centeno, seja ele Leão, seja ela Alburquerque ou seja ele Gaspar — é inadmissível e ridícula. A culpa inicial é de Schäuble, sim, mas não vale a pena perpetuar o delírio: já chegam as vaidades patrocinadas pelo Expresso. Estou de acordo com Tennessee Williams, não nos devemos intrometer nas vaidades dos homens — embora o maravilhoso dramaturgo só tenha chegado a esta conclusão depois de satisfeito com a tareia dada à ego-trip de Menotti. No entanto, a vaidade de um maestro ainda é como o outro: mas um ministro, efectivamente, não é um maestro.

Passando àquilo que interessa, sabemos que é inevitável. Abre-se o Diário da República e… ei-los.

Continuai no vosso confinamento voluntário, encolhei os ombros, assobiai para o ar, tapai o sol com a peneira, escrevei Orçamentos do Estado vergonhosos, dai-nos música sobre a língua, blá, blá, blá, e, principalmente, mantei-vos no vosso buraquinho, muito escondidinhos, bem distantes da realidade, para que o vosso faz-de-conta tenha um ar bastante sincero.

***

Nótula: Segue-se um desabafo em forma de nótula, com reactivação dos primeiros apontamentos para este meu texto publicado na Torpor. Por mero acaso, tropecei neste debate entre Jack Lang e Éric Zemmour. Estava tudo a correr relativamente bem, até aparecer a história do pai de Zemmour. Enquanto os intelectuais que se pronunciam sobre tradução se mantiverem preguiçosamente encostados ao bordão do traduttore tradittore, continuaremos a assistir a debates vazios, travados por quem insiste em discutir pela rama assuntos efectivamente sérios. Como podereis reparar, o “traduire, c’est trahir” de Zemmour é acompanhado por aquela expressão corporal do “não se fala mais sobre o assunto“. Como diria Finkielkraut, “cette arrogance est absolument insupportable”. Quando políticos discutem língua, já se sabe que há despistes, mas, francamente, “idiot utile” (ou “inutile”, vai dar ao mesmo) não se admite e a réplica “idiot calculé“, passados uns dias, é igualmente inaceitável.

***

A sessão ortográfica

It was a new breed of men, created by the Renaissance cult of the individual, who embarked on these hazardous voyages of exploration.
Gustav Jahoda

You’re perfect, yes, it’s true.
Mike Patton

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Já aqui se reconheceu a vantagem de sexão em relação a secção, por não haver cê à mão de semear para suprimir. Ou seja, enquanto secção é uma presa fácil, sexão é uma grafia à prova de bala. Há uns anos, secção começou a transformar-se em seção na consciência grafémica de determinados escreventes e chegámos ao ponto de sessão. De facto, no caso aqui apreciado, a doutrina alternativa de 1990 — a do n’importe quoi, estimulada por pérolas como “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’” — dividir-se-á entre duas interpretações extremamente sofisticadas: por um lado, a sexão de voto e, por outro, a sessão de voto.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2), cf. Aventar, 26/5/2019 (https://aventar.eu/2019/05/26/sexao-seccao-secao/)

Tudo começou a descambar [Read more…]

O discurso do Presidente da República e o excessivo *contato com a luz

Item 3 (diente ‘tooth’) and Item 9 (tribus ‘tribes’) do not fit the structure /ˈCVCV/ strictly; nevertheless, diente was used to allow for closer comparison with the comments from Moya Corral (1977: 34–35) and tribus was used as the combination /ˈCiCu/ is extremely rare in Spanish.
A. Herrero de Haro

Et cantant novum canticum dicentes:
“Dignus es accipere librum et aperire signacula eius, quoniam occisus es et redemisti Deo in sanguine tuo ex omni tribu et lingua et populo et natione; et fecisti eos Deo nostro regnum et sacerdotes, et regnabunt super terram ”.
— Ap 5,9 (apud NV, cf. KJV)

The high linguistic diversity resulting from the extreme multiethnic and multilingual composition of the post – De Boeck recalled that in 1901-2 Bangala-Station was composed of “people ex omni tribu et lingua” and a real “Tower of Babel” (De Boeck 1940a: 91) – made a lingua franca a dear necessity, for which the Europeans considered the Bobangi pidgin the most ready candidate.
— Michael Meeuwis (pdf)

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Apocalipse significa descobertaApocalipse significa revelação. No entanto, os assuntos de hoje diferem um pouco do implícito na epígrafe, onde encontramos salientadas palavras interessantes e muito actuais, quer no Antigo Testamento, quer em investigação recente. O primeiro assunto de hoje é, imagine-se só, política portuguesa pura e dura. O segundo assunto é o do costume.

Fiquei intrigado com o conteúdo deste texto de Alfredo Barroso e fui espreitar o discurso do Presidente da República. Efectivamente, pode discutir-se a consistência de argumentos contra a cerimónia na Assembleia da República, aduzidos, por exemplo, aqui no Aventar, por António Fernando Nabais, Carlos Garcez Osório, Fernando Moreira de Sá ou Francisco Figueiredo, e alhures, por outros intervenientes na vida pública, como Pedro Correia, Miguel Sousa Tavares ou João Soares. Aquilo que não se pode fazer, como faz Marcelo Rebelo de Sousa, é reduzi-los globalmente à [Read more…]

Se me chamasse Sara Azera de Almeida

My other callers are all professional. Banal psychiatrists and grasping second-raters. Pencil-lickers.
Hannibal Lecter

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Efectivamente, se me chamasse Sara Azera de Almeida, garanto-vos, processava a presidente do júri e impugnava o concurso.

Como se trata de assunto grave, fica aqui o pdf ao dispor dos interessados.

Continuação de uma óptima semana: com muita saúde e sem infecções.

***

Uma semana em cheio

Instruments sometimes have songs in them.
David Ellefson

Unser Schreibzeug arbeitet mit an unseren Gedanken.
Nietzsche

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Uma semana com factores, *inteletuais e *contatado não ficaria completa sem um *fato no sítio do costume.

Ei-lo.

Desejo-vos um espectacular fim-de-semana.

Votos de óptima saúde.

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A 1.ª Lei da Termodinâmica e o Paradoxo de Fação

Physical attraction 
It’s a chemical reaction 
It’s a physical attraction 
Sweet satisfaction
Madonna

Tezeo. Vem a meus braços, fiel amigo, e releva-me o errado conceito, que de ti formei.
António José da Silva (O Judeu), “O Labirinto de Creta

So when it was time to register for the [Spanish] class, we were standing outside, ready to go into the classroom, when this pneumatic blonde came along. You know how once in a  while you get this feeling, WOW? She looked terrific. I said to myself, “Maybe she’s going to be in the Spanish class —that’ll be great!” But no, she walked into the Portuguese class. So I figured, What the hell­­—I might as well learn Portuguese.
Richard Feynman

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Há uns tempos, estive para escrever algumas linhas sobre estas intervenções de políticos (do PSD). Naquela altura, uma delas deixara no ar a probabilidade quer de o secretário de Estado da Energia (do PS) desconhecer, por exemplo, a 1.ª Lei da Termodinâmica, quer de essa lacuna o desqualificar para o cargo. Acabei por não escrever as linhas, mas ri-me. Contudo, o meu riso não foi motivado pelos comentários. Antes pelo contrário. Ri-me, isso sim, do ensurdecedor silêncio. O ensurdecedor silêncio dos políticos do PSD, dos políticos portugueses em geral e da população portuguesa activa nos meios de comunicação social e nas redes sociais, aquando do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. O “agora facto é igual a fato (de roupa)” foi escrito por quem assinou o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em nome da República Portuguesa. Exactamente. O silêncio cúmplice mantém-se até hoje.

No que diz respeito ao [Read more…]

Os *inteletuais em Portugal

Programs characterized by instability and/or hostile environments were associated with lower effect sizes.
Ann C. Willig (apud Stephen Krashen)

I was raised in a religious atmosphere, Mr. Verger, but whatever that left me with, it’s not religion.
Alana Bloom

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Em princípio, os negociadores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990 não estarão satisfeitos com as frequentes supressões do cê medial de facto, de contacto e de secção que actualmente vão acontecendo em português europeu. Mas ignoraram os avisos e criaram as condições para este desastre. No entanto, há excepções. Por exemplo, Pedro Santana Lopes desejou e até promoveu a supressão do cê de facto, com o célebre

Agora facto é igual a fato (de roupa).

 

Facto, contacto e secção são as vítimas a quem tenho dado palco, quer aqui, quer ali, quer alhures.

Mas há mais.

Recentemente, o excelente leitor do costume (que tem andado entretido com outras vítimas do AO90) enviou-me esta ocorrência de *inteletual no sítio do costume:

Em Abril de 2008, Fernando Venâncio previu [Read more…]

Ensaio sobre Penderecki

FALLON. I read somewhere that you said you’d lost fifty pounds.
PHOENIX. Fif… No. Fifteen. Did you say fifty? 50 [five-o]?
FALLON. 50!
PHOENIX. No! 15 [one-five]. Fifteen.
The Tonight Show Starring Jimmy Fallon

***

Há cerca de 15 anos, fui pela primeira vez a Cracóvia. Em pleno Rynek e com os olhos postos na basílica de Santa Maria, o meu espírito encontrava-se alhures, no triângulo formado pelas aulas de violino quando era miúdo, no Porto, pela minha Fender a descansar dentro do estojo, em Trier, e pela obsessão por Penderecki. Além disso, nessa altura andava a dar os meus primeiros passos no /S/ português em coda, por isso, para mim, um <c> como o de Penderecki era uma loucura. E ainda hoje estou, felizmente, obcecado: pelo /S/ português em coda e pelo Penderecki. Por coincidência, 13 anos depois deste episódio em pleno Rynek e com os olhos postos na basílica de Santa Maria, regressei a Cracóvia, para dar uma palestra sobre o /S/ português em coda. Tentei voltar à Tubitek/Bimotor lá do sitio, de onde trouxera todo o Penderecki com selo polaco que encontrara ao alcance da minha carteira nessa primeira incursão, mas a loja fora substituída por uma armadilha para turistas. Desiludido, fui comer żurek e pierogi, moderadamente regados com Żywiec.

Há 15 anos, não havia contato por contacto no Diário da República.

Efectivamente, em 2005, houve quatro ocorrências de contato no sítio do costume:

  • três por contrato, o que acontece com alguma frequência, como mencionei no meu estudo de 2013 (pdf);
  • uma correspondente ao nome de um gabinete de contabilidade;
  • zero por contacto.

Amanhã, dia das mentiras, entra em vigor o Orçamento do Estado para 2020.

***

De facto, acontece frequentemente com Brecht

If Jesus came back and saw what’s going on in his name, he’d never stop throwing up.
Frederick (Max von Sydow, 1929-2020)

Das Unrecht geht heute einher mit sicherem Schritt.
Die Unterdrücker richten sich ein auf zehntausend Jahre.
Bertolt Brecht

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O The Guardian foi extremamente rápido e publicou este esclarecimento em 2014, antes de eu poder cumprir a minha promessa de 2013. Efectivamente, prometera a versão brechtiana deste sarilho com Voltaire, propagado até pelo NYT. Cumpro hoje o prometido.

De facto, tão certo como aparecerem contatos no Diário da República

ou fatos no Expresso (que agradeço ao excelente leitor do costume), [Read more…]

Sereis contatados

I thought, at first, I might try to say something about the topic (the relevance of statistical information to study the structure and use of language), but I realized very quickly I wouldn’t have anything to say about that.
Noam Chomsky

You can just pick it up and use it as an exercise machine.
Jeff Beck

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Portanto, estávamos a falar sobre… Ah! Já me lembro:

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

Padrões & grafias: o desejo de entrar em *contato

We ordinarily obey a rule according to which anyone who finds an empty seat first is entitled to that seat.
Jesse Prinz

In the literature on the phonological complexity of listening input, contracted forms (e.g., can’t) have been proposed to have a potentially negative impact on decoding auditory information, because the recognition of lexical items and syntactic constructions might pose a greater challenge due to decreased phonological information (e.g., Rubin, 1994).
— Brunfaut & Révész (2014)

***

Há muitos anos, ao volante da minha excelente Volkswagen Passat azul — mas azul à Benfica, note-se — , algures na B 419 alemã, ali pertinho do Mosela, ouvia frequentemente o ‘adagio sostenuto’ do concerto para piano n.º 2, em dó menor, do Rachmaninov, sempre na expectativa (e na esperança) desse all by myself avant la lettre e muito mais interessante do que o próprioAliás, já algo de semelhante me acontecera, muitos anos antes, no 35, a caminho da Rua do Heroísmo. De facto, quando saiu o não posso mais do Pedro Abrunhosa, houve ali um breve momento who pays the price dos INXS. Depois, a sensação passou. Anteontem, enquanto estudava, ouvi o início deste excerto do danúbio azul e lá veio a gran partita. Recentemente, estive envolvido numa violenta discussão sobre um caso quase tão bem conhecido como o de Rachmaninov & Eric Carmen, o do pour some sugar on me dos Def Leppard e do we will rock you do Axl Rose (sim, pois, OK, dos Queen).

Resta acrescentar que não estamos a falar nem, por um lado, de homenagens implícitas (tvmural para tvc15), explícitas (submissão para sub-mission), cómicas (sol da caparica para california sun), hilariantes (bué de baldas para baggy trousers), esforçadas (judgement day para while my guitar gently weeps), esforçadíssimas (universal para o navio fantasma), trágicas (jorge morreu para damaged goods), auto-referenciais (hangar 18 para the call of ktulu, [1] a 4.ª sinfonia para o evgeni onegin ou the hands para i don’t believe in love), confessadas ([2] the phoenix para i wanna be your dog [a prever o Iggy Pop no new york city?] e californication para carnage visors), [3] deliciosas por abrandamento (Quebra-Gelo para London Calling), nem, por outro, de carreiradas (l’idiot, city of new orleans…). Também anteontem, antes de dedicar uns minutos da hora de almoço à defesa Cunningham, pus-me a ouvir o i want you (she’s so heavy) dos Beatles e, logo no início, lá estava um dos meus momentos predilectos dos Mötley Crüe. Entretanto, voltei a preocupar-me com as diferenças entre a Lisboa de Madonna e a Lisboa de Letterman.

Adiante.

O fim-de-semana está à porta. Isto significa que acaba hoje mais uma série de dias úteis de vergonha para o Governo de Portugal e para os seus cúmplices. Efectivamente, desta vez, além dos exemplos habituais no sítio do costume

e alhures,

tivemos a bonita homenagem [Read more…]

A Bronx Tale

In such a language as German or Latin the adjective would have one definite ending indicating more or less distinctly gender, number, and case, but all of these are left indefinite in English combinations like a heavy sleeper, the dirty clothes-basket, a public schoolboy, a practical joker, etc.
Otto Jespersen

I think that it is the obligation of the people that have created, and perpetuate and benefit from, a system of oppression to be the ones that dismantle it.
— Joaquin Phoenix

SONNY
You’re worried about Louie Dumps. Nobody cares. Nobody cares!
A Bronx Tale

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Em Janeiro, estive no Bronx, o borough nova-iorquino onde ainda não pusera os pés. Nos últimos anos, não encontrara ainda pretexto para me deslocar ao território dos Yankees — além disso, o Chez Bippy e afins ficam em Queens. Aproveitei uma manhã triste, de chuva, no dia do regresso a Bruxelas, para andar a passear por ruelas e parques, passando à porta da Rafael Hernandez Dual Language Magnet School, descendo a avenida Jerome, subindo a avenida Shakespeare, virando para a rua 167, na direcção da avenida Woodycrest, olhando com um sorriso para os turistas que faziam acrobacias na escadaria do Joker — alguns dos acrobatas retratavam-se (efectivamente, sem cê) e retratavam outros como eles, aperaltados e maquilhados a rigor, enquanto davam pontapés no ar, equilibrando-se com segurança naquele recanto sujo do Bronx profundo. O Five Boro Bike Tour não passa por aqui. A rua 166, mesmo ao lado, também tem uma escadaria, mas ninguém lhe liga. Cá está ela.

Foto: Francisco Miguel Valada (Bronx, NYC, 4 de Janeiro de 2020)

Terminada essa agradável manhã no Bronx, voltei para Manhattan e desenferrujei os dedos no piano do Port Authority Bus Terminal. Chegado a Bruxelas e lida a correspondência do Natal, verifiquei que nada mudara: o Acordo Ortográfico de 1990 continuava a fazer vítimas, na leitura e na escrita, e os responsáveis por esta situação continuavam no faz-de-conta habitual.

E hoje, primeiro dia útil de Fevereiro, mudou alguma coisa? Efectivamente, nada mudou.

No sítio do costume, como é óbvio, está tudo exactamente na mesma.

***

As infra-estruturas e o fato

I follow Lakoff and Johnson’s definition of a conceptual metaphor as an underlying association that is systematic in both language and thought and explains something new or abstract in terms of something familiar or concrete. Although the focus of my analysis is on metaphor, I also relate to metonymies and similes, which function in similar ways (Lakoff & Johnson 1980 : 36).
Marta Neüff

MÉNÉLAS
Les déesses furent rapides à exiger de toi le prix du sang.
Le fait d’avoir vengé ton père ne t’est-il pas compté?
ORESTE
Pas encore, et pour moi le retard équivaut au refus.
Eurípides, “Électre/Oreste” (trad. Marie Delcourt Curves)

***

Efectivamente, enquanto houver quem ache este salgueiro

melhor do que este,

não há qualquer problema.

Todavia, enquanto houver quem ache que agora facto é igual a fato (de roupa), o problema é grave, pois pode levar a isto:

De igual modo, [Read more…]

A seção, o fato e o contato

Now let K be a homologically trivial transverse knot in a contact 3–manifold (M, ξ), with M oriented such that ξ is a positive contact structure. Let Σ be a Seifert surface for K. As in the definition of the rotation number, we make use of the fact that the plane field ξ|Σ is trivial. Choose a non-vanishing section X of ξ|Σ and push K in the direction of X to obtain a parallel copy K’ of K.
Hansjörg Geiges  (2008)

It is important to look at the results of this meta-analysis with a critical eye in light of two facts: the average training took place over the course of 20 days, and the L2 setting encouraged larger gains than the FL environment. […] [E]very attempt was made to contact the author(s) and retrieve necessary data. […] (The topic of generalization is discussed in more detail in the Discussion section of this article.)
— Sakai & Moorman (2018)

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Efectivamente, a seção, o fato e o contato. Quando? Hoje. Onde?

No sítio do costume.

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Fatiotas

Der hof Heinrichs IV. ahmte Spanisches wesen auf sklavische weise nach und sprach mit Vorliebe Spanisch.
— Trautmann (1880), apud Runge (1973)

Norris: Are you attempting to tell me my duties, sir?
Philip Marlowe: No, just having fun trying to guess what they are.
— The Big Sleep (1946)

In further reference to [ʀ], he [Vischer] calls it adulterated, contemptible, perverted, and even describes it as a “castration” of tongue-trilled [r], since he considers the latter to be the “most masculine” of all sounds.
— Runge (1973)

***

Segundo o Diário da República de hoje, a verificação de fatos que exijam tomada de posição urgente pode conduzir à realização de reuniões de emergência. É verdade que o assunto em apreço diz apenas respeito à Comissão de Trabalhadores do Instituto Politécnico de Bragança. Todavia, os actuais responsáveis por esta situação

deveriam seguir o exemplo aqui exposto e convocar uma reunião de emergência para este assunto (fatos) ser discutido. É verdade que essa reunião teria feito mais sentido e tido mais impacto há uns anos, quando os culpados foram alertados para a situação (pdf). Recordo que a culpa não é minha. Nunca promovi a adopção do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, não encolhi os ombros, não assobiei nem para o ar nem para o lado, não tapei o sol com a peneira, não fiz de conta que não estava a chover, logo, não sou responsável pela concomitante proliferação de fatos, contatos e seções no Diário da República e alhures. Convém que os culpados se mexam. Não vos escondais. Mexei-vos.

Efectivamente, enquanto o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 for adoptado, é escusado utilizarem o Dia Mundial da Língua Portuguesa para nos atirarem arena para os óculos (aparentemente, uma alternativa ao clássicoatirar areia para os olhos“).

Continuação de uma óptima semana.

***

Os fatos unidos jamais serão vencidos

Driver: Where to, sir? Où désirez-vous aller?
Prisoner: Take me to the nearest town.
Driver: Oh, we’re only the local service.
Prisoner: Take me as far as you can. Why did you speak to me in French?
Driver: French is international.
The Prisoner (1)

And you can find that. And you’ll know it. You’ll just know. Dah dah dah. If you’re connected with your inner ear. Otherwise you’re meandering nowhere.
Steve Vai

***

Efectivamente, em vez de tergiversarmos, convém centrarmo-nos naquilo que é importante.

Apresentado o exemplo, resta-nos esperar que os proponentes resolvam rapidamente esta confusão.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Nótula: Agradeço o titulo ao leitor POIS!.

***

Os anos excepcionais

La palabra “jubileo” proviene del término hebreo “yobel”que era el cuerno de cordero que anunciaba a los judíos el comienzo de un año excepcional dedicado a Dios.
González, González & Brunner

Como se mencionó en el primer informe, 1998 fue un año excepcional para la construcción naval en el mundo, ya que la crisis financiera de Corea del Sur bloqueó la producción y la aceptación de pedidos en Corea.
Comissão Europeia

O respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho?
José Mário Branco (1942-2019), “FMI” [“por determinação expressa do autor, fica proibida a audição pública parcial ou total desta obra“]

***

De facto, os fatos do Diário da República vieram para ficar.

Embora hoje não haja contatos no sítio do costume, podemos sempre contar com a colaboração desse maravilhoso espaço de resistência silenciosa cercado por liberdade de expressão (os meus agradecimentos ao muito atento e excelente leitor do costume): [Read more…]

O fato das alianças, a persistência dos contatos e o massacre contínuo

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. La voix U se forme en rapprochant les dents sans les joindre entièrement, et allongeant les deux lèvres en dehors, les approchant aussi l’une de l’autre sans les joindre tout à fait : U.
MONSIEUR JOURDAIN. Il, U. il n’y a rien de plus véritable : U.
MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. Vos deux lèvres s’allongent comme si vous faisiez la moue : d’où vient que si vous la voulez faire à quelqu’un, et vous moquer de lui, vous ne sauriez lui dire que : U.
— Molière, “Le Bourgeois gentilhomme

Considering that the sound /y/ is absent from the vowel space of the subjects in the present study, both at the phonemic and allophonic levels, and consequently that /u/ varies freely, beginner L1 American English learners of L2 French should have difficulty establishing contrastive phonemic categories for /y/ and /u/.
Ruellot

Specifically, the study focused on production by native English speakers of the French vowels /u/ and /y/. French /u/ is realized with variants that are similar, yet acoustically non-identical, to the realizations of the /u/ category of English. French /y/, on the other hand, does not correspond directly to an English vowel, and can therefore be regarded as a new sound for English native speakers who learn French as an L2.
Flege

***

Há um importante aspecto — com <c>, que em português do Brasil ilustra /k/ e em português europeu fixa o /ɛ/, impedindo um /ɛ/→[e] (cf. ‘espeto’) — a ter em mente, ao reflectirmos — também com <c>, que ilustra o /k/ subjacente e fixa igualmente o /ɛ/, evitando-se /ɛ/→[ɨ] (cf.repetirmos‘) — sobre a recorrência de grafias como aquela ali à esquerda:

Agora, de forma escorreita.

Há um importante aspecto a ter em mente, [Read more…]

Os factos de Câncio e os fatos da CMTV

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d’Alfaroubeira
Courut le monde et l’admira.
Il fit ce que je voudrais faire
Si j’avais quatre dromadaires.
— Apollinaire, “Le Dromadaire

Sedulo curavi, humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.— Espinosa

Woah oh oh oh oh oh oh oh.
Ian Astbury

***

Convém sempre lembrar que nem só de fatos se vive no Diário da República:

Seja como for, de fatos efectivamente muito se vive, no Diário da República em particular e na realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, desde Janeiro de 2012.

Eis um exemplo, no Diário da República de hoje:

Quanto à realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, peguemos na nossa fidelíssima lupa e debrucemo-nos sobre um episódio extremamente interessante. Ao contrário do excelente Público, que traduziuperspectiva‘, para a nossa correcta interpretação da *perspetiva de Daniel Oliveira, a CMTV deturpou factos, indicando fatos,

quando Fernanda Câncio claramente não se refere aos fatos “de roupa” espalhados por Santana Lopes.

Apresentado este meu pequeno relatório, resta-me desejar-vos um óptimo fim-de-semana.

***

É necessário um novo acordo ortográfico da língua portuguesa

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Et l’R, en portant le bout de la langue jusqu’au haut du palais ; de sorte qu’étant frôlée par l’air qui sort avec force, elle lui cède, et revient toujours au même endroit, faisant une manière de tremblement, RRA.
MONSIEUR JOURDAIN.- R, R, RA ; R, R, R, R, R, RA. Cela est vrai. Ah l’habile homme que vous êtes ! et que j’ai perdu de temps ! R, r, r, ra.
MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Je vous expliquerai à fond toutes ces curiosités.
Molière, Le Bourgeois gentilhomme

***

Por muito paradoxal que possa parecer a alguns distraídos, o Acordo Ortográfico de 1990 impede uma límpida leitura brasileira das polémicas portuguesas, logo, deve ser substituído. Ao ler as perspetivas de Daniel Oliveira, um falante/escrevente de português do Brasil fica obviamente escandalizado e profundamente incomodado. Valham-nos os serviços de tradução do Público. De facto. Exactamente.

Efectivamente, a necessidade de um novo instrumento ortográfico para a língua portuguesa justifica-se também por outro motivo: hoje em dia, um falante/escrevente de português europeu fica naturalmente perturbado quer perante os contatos de hoje, no sítio do costume,

quer diante disto (*):

É preciso um instrumento ortográfico que substitua o Acordo Ortográfico de 1990. Como dizia há uns tempos Michel Onfray, nada fazer quando tudo desaba é efectivamente (effectivement) contribuir para a decadência. Para evitar o desabamento e a decadência, a solução é simples: regresse-se a 1945 (pdf).

Desejo-vos uma óptima semana.

(*) Os meus agradecimentos a Manuel Monteiro.

***

Contato?

But nowadays, as far as I can tell, no one believes in the existence of immortal spiritual substances except on religious grounds. To my knowledge, there are no purely philosophical or scientific motivations for accepting the existence of immortal mental substances.
John Searle

***

Contato? Apesar de visto e revisto e apesar da elevada frequência desde Janeiro de 2012, aparentementente, ninguém acredita.

Para quem não souber o que significa INA, passo a citar:

A Direcção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas, abreviadamente designada por INA, é um serviço central da administração directa do Estado, integrada no Ministério das Finanças.

Até breve.

***

A perspectiva do alfaiate

LE PROFESSEUR. Vous savez très bien qu’une phrase tirée de son contexte n’a pas d’intérêt.
— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

“Okay, John… right, got it.”
Patrick Bateman (Bret Easton Ellis, American Psycho)

***

Efectivamente,

A comprovação desses fatos, implica ainda a exclusão do bolseiro a futuros concursos para atribuição de bolsas de estudo do Município de Miranda do Douro, sem prejuízo de responsabilidade criminal

permite um estudo com diversos ângulos, vários prismas e algumas perspectivas.

Seleccionemos três perspectivas:

  1. A perspectiva do sujeito: o sujeito vê-se afastado do predicado por uma vírgula e fica perturbado, pois toda a gente sabe que “a comprovação desses fatos, implica”, em vez de “a comprovação desses fatos implica”, é um factor perturbador e não um fator perturbador;
  2. A perspectiva da preposição: de facto, olhando com olhos de ver para a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para (para e não pára: são diferentes), perante, por (por e não pôr: também são diferentes, mas enquanto a base IX se preocupou com o pára, a base VIII poupou o pôr, pois foi, pois foi), sem, sob, sobre e trás, é certo e sabido, a seguir a “a exclusão do bolseiro” é de e não a, como é sabido que se discorda de e se concorda com e que não se deve nem discordar com, nem concordar de;
  3. A perspectiva do alfaiate, a mais interessante e, em última análise, nestes tempos de crise ortográfica, a mais urgente: há bastantes sujeitos que vêem fatos, mas também, além de fatos, vêem contatos e vêem seções e não vêem os responsáveis por isto tudo, que pelos vistos não vêem nada disto, a assumir os erros e a fazer qualquer coisinha para acabar com esta situação.

Situação? Que situação?

Esta.

Continuação de uma óptima semana.

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O Acordo Ortográfico de 1990 é extremamente indigesto

… e o psiquiatra sentiu-se prestes a ser devorado por um réptil terciário em cujas mandíbulas o sangue do baton revelava claramente monstruosas intenções assassinas.
— António Lobo Antunes, “Memória de Elefante
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Efectivamente, enquanto uns sugerem que engulamos insectos, outros, além de nos imporem uma dieta de insetos (cruzes, credo!), enfiam-nos pela goela abaixo osgas, cágados, relas, camaleões, cobras, lagartixas, lagartos, sardões, víboras, rãs, salamandras, sapinhos, tritões, fatos, sapos, licranços, seções e contatos:

Aliás, a foto que ilustra esta glorificação de quem não precisa de crivos académicos para a adopção de teses, apenas da gratidão do poder instalado,

Foto: José Carlos Carvalho [http://bit.ly/2P4sedY]

não valendo por mil palavras (valerá umas 50, se tanto), explica muito bem a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990: [Read more…]

Os fatos são averiguados? How dare you?

Predictably, people reacted to the late-night tweets (I had misspelled “douche bag”) with how-dare-you outrage and labeled me a hater and a jealous troll.
Bret Easton Ellis, “White

Como vos atreveis?
Greta Thunberg

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Como vos atreveis (“how dare you?”) a averiguar fatos?

Enfim, podeis retorquir, tal Vieira:

como vos atreveis a pelejar com tal gente?

Efectivamente:

Em suma, tudo como dantes, no sítio do costume.

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Novidades no Diário da República

Some of the others seemed altogether slipping their hold upon speech, though they still understood what I said to them at that time. (Can you imagine language, once clear-cut and exact, softening and guttering, losing shape and import, becoming mere limps of sound again?)
— H.G. Wells, “The Island of Dr Moreau

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Novidades? Além do aspecto, nenhumas. Aliás, já tínhamos reparado nessas mudanças cosméticas e o próprio Governo fez publicidade ao “novo grafismo“. Efectivamente, o grafismo do Diário da República é novo, mas a grafia caótica mantém-se e já tem sete longos anos. Em vez de combater as *seções, os *fatos e os *contatos e acabar com o instrumento que deu à luz este caos (para quem não souber, trata-se do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), o Governo prefere mudar de penteado e arranjar as unhas.

Depois do *contato e dos *contatados de ontem, o *contato de hoje:

Não há novidades. Tudo tranquilo.

Como diria o Patrick Bateman, “Listen, John, I’ve got to go. T. Boone Pickens just walked in…”.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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GIGO e AO90: imagens da rentrée

Some meta-analysts have opted to only include published or so-called high-quality research, citing what is known in the meta-analysis literature as the garbage in, garbage out (GIGO) validity threat (e.g., Truscott, 2007).
Plonsky & Oswald

Let’s put it this way: if successful, a CL approach may serve as a high-speed train to Word City, but its terminus is in a suburb. That’s okay, as long as one realises it’s still a bit of a stroll downtown, where the real action is.
Frank Boers

That’s right! Cristiano Ronaldo. He’s that new kid … uh… from Benfica… (Porto…?)
Ian Astbury

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Ontem, vi um resumo do PSG-Real Madrid e lembrei-me, imagine-se, de uma recente menção ao fato de Zidane, feita pelo jornal A Bola. Efectivamente, no momento em que experimentava sistemas diferentes, Zidane envergava um fato, de acordo com as palavras grafadas nessa ilha ortográfica do Dr. Moreau, nesse maravilhoso espaço de resistência silenciosa cercado por liberdade de expressão:

Aliás, a foto que ilustra o texto mostra Zidane (como Monti, há uns anos) de fato:

Quanto ao sítio do costume…

Ora bem, portanto, vejamos:

Tudo na mesma. OK. Siga.

Nótula: Agradeço a Manuel Monteiro o envio deste engomadíssimo fato de Zidane.

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