Teclados e cenotáfios

Michael Aspel: You’ve got lakes as well, haven’t you?

George Harrison: Legs? Yeah! I’ve got legs.

—  Aspel & Co. 1988

Sê prudente no pisar, pois pisas os meus sonhos.

— W.B. Yeats (PT/EN1/EN2)

Queimava‑se‑lhe o corpo na tarimba. E agora aqui está na noite chuvosa e fria, de samarra grossa bem agarrada ao corpo, sem saber o que deve fazer, embora saiba bem o que deseja fazer. Mete por detrás das barracas que ficam junto do valado. Quer confundir‑se com a escuridão, não vá alguém descobri‑lo; sobe ao carril das oliveiras, esconde‑se, espreita a noite para descobrir qualquer vulto, ou luz, ou ruído. O Tejo marulha de mansinho na areia.

— Alves Redol, “Avieiros

***

Há uns anos, ou seja, antes de Janeiro de 2012, “contatar diretamente” não era possível em Portugal. Todavia, actualmente, no sítio do costume, isto é, em Portugal, de facto, é possível.

E “fim-de-semana”, assim, com hífenes, é possível com o Acordo Ortográfico de 1990? [Read more…]

As Lições de Português do Professor Expresso

Andrew ‘Andy’ Osnard: No paper trail.

— The Tailor of Panama

Domitius Enobarbus: And what they undid did.

— Antony and Cleopatra

Avanço por aí
No gelo salgado
O meu hálito derrete
O teu corpo congelado

— Rui Reininho

This is the glamorous life there’s no time for fooling around.

— Lloyd Cole & The Commotions, “My Bag“, Mainstream, October 26 1987 (obrigado, Nuno Miguel Guedes)

***

Por aí, leio o seguinte:

Há um discurso por aí que valoriza demasiado os erros ortográficos.

É verdade. Todavia, há outros discursos, como este (a reproduzir este), que os desvalorizam em demasia. Já agora, erros sintéticos?

De síntese? Ou sintácticos? De sintaxe? Ou *sintáticos? De nada?

Pelos vistos, o “por aí” criticado no texto será auto-referencial, pois o Expresso indica mais erros ortográficos do que “outros erros”:  

  • «A Joana foi há escola» é erro ortográfico;
  • «Ele tem uma obcessão por carros» também é erro ortográfico;
  • «É um fato que existem alterações climáticas» é um erro ortográfico;
  • «Eles vêm a dobrar» é efectivamente erro ortográfico;
  • «Derepente a zanga começou» é objectivamente erro ortográfico;
  • «É uma casa portuguesa, concerteza!» é de facto erro ortográfico;
  • «Hádes conseguir escrever um livro» não é erro ortográfico;
  • «Já fizestes os trabalhos de casa?» não é erro ortográfico;
  • «Quero duzentas gramas de fiambre!» não é erro ortográfico;
  • «A polícia interviu naquela confusão que houve na rua» não é erro ortográfico.

Curiosamente, como vimos, o texto em apreço debruça-se sobre [Read more…]

Corrupção activa, corrupção ativa e corrupção passiva

Das Zusammenpacken und Beladen des Rads am nächsten Morgen ist längst zur Routine geworden.

— Dirk Rohrbach

Avant, pour les mâles, dehors, le travail à la main faisait la règle générale : pelle, pioche, fourche, hache, pic ou rivelaine, faux. Pendant la guerre, ils obtinrent des cartes d’alimentation au titre de travailleurs de force. Pas de mécaniques pour lever les charges, aucun moteur pour soulager la peine, tout au biceps, le dos courbé.

Michel Serres

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Baudelaire

***

É um dos preços da passividade: assim se escreve, actual e activamente, em português europeu.

Efectivamente, também temos a prática habitual do sítio do costume quer no Jornal de Notícias,

quer no Expresso,

quer, como se espera, no sítio do costume.

Por sinal, esta imagem provém de um acordo que substitui outro, publicado no sítio do costume, em Novembro de 2014.

Descubramos as diferenças [Read more…]

José Sócrates e o despacho de acusação do Ministério Público: fraudes e fiascos

We’ll try to stay blind
— Duran Duran “Come Undone

Thomas: Excuse [ˈskjuːz] me, you don’t know who I am.
Johanna: Yes, I do.
Thomas: Do you?
Johanna: You’re the boy who follows me. You’re also Ethan’s son.

— The Only Living Boy in New York

***

Foto: Carlos Manuel Martins/Global Imagens (http://bit.ly/2kOGAC4)

Não sei se o advogado João Araújo já teve tempo para ler as mais de 4000 páginas da acusação deduzida pelo Ministério Público, no âmbito da Operação Marquês. Marques Mendes não teve. Quando João Araújo tiver tempo, pode recorrer às directrizes que aqui exponho — infelizmente, só me chegou às mãos o documento facultado pelo CM —, com um apanhado aparentemente semelhante ao do recente exercício orçamental, mas efectivamente diferente:  [Read more…]

Ensaio sobre a ambiguidade

He’s gonna be wild
I’m giving you warning
He’s gotta have room
Keep an eye on him

Waylon Jennings

***

Reflictamos acerca da ambiguidade de “não pedi licença a ninguém para tomar a decisão que está tomada”. Passado esse momento, reflictamos acerca da clareza de “agora facto é igual a fato (de roupa)”.

Depois dessa reflexão e antes do jogo da selecção, vejamos o Diário da República de hoje.

Exactamente.

***

A valorização dos fatos: enquanto houver Egipto, há efectivamente esperança

We’ve got five years, what a surprise.

David Bowie

If you wanna get to heaven, gotta D-I-E

you gotta put on your coat and T-I-E

Curtis Buck/Waylon Jennings

Σωκράτης … τῆς Αἰγύπτου…

— Platão, “Fedro

***

Passado um lustro (e muitos meses), com algumas saudáveis e louváveis recaídas (como diria Hollande, há sempre «des rechutes possibles»), eis que surge ortografia no jornal da silenciosa resistência, da grafia rasca, da grafia inadmissível.

Exactamente, há redação e seleção. Todavia, enquanto houver Egipto, há efectivamente esperança.

Os meus agradecimentos àquele excelente leitor.

Quanto ao sítio do costume, como é habitual, nada de interessante a declarar.

Outra vez.

***

As velhacarias de Scapin e o fato de não ter sido prestada garantia

SILVESTRE: Si vous n’abrégez ce récit, nous en voilà pour jusqu’à demain.

— Molière, Les Fourberies de Scapin

O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economi… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista…

— Octávio Machado, 24/9/2017

***

Três meses volvidos, façamos um exercício semelhante ao das perpectivas,

 

apresentando dois exemplos teóricos com ortografia portuguesa europeia antes do AO90 e confrontando-os com formas ortográficas de português do Brasil antes do AO90, português europeu com AO90 em teoria, português do Brasil com AO90 e português europeu com AO90 na prática.

Comecemos pelo exemplo teórico

pelo facto de não ter sido prestada garantia (…) não tiver sido suspensa a respectiva execução.

Confrontemo-lo então com formas ortográficas de [Read more…]