A perspectiva do alfaiate

LE PROFESSEUR. Vous savez très bien qu’une phrase tirée de son contexte n’a pas d’intérêt.
— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

“Okay, John… right, got it.”
Patrick Bateman (Bret Easton Ellis, American Psycho)

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Efectivamente,

A comprovação desses fatos, implica ainda a exclusão do bolseiro a futuros concursos para atribuição de bolsas de estudo do Município de Miranda do Douro, sem prejuízo de responsabilidade criminal

permite um estudo com diversos ângulos, vários prismas e algumas perspectivas.

Seleccionemos três perspectivas:

  1. A perspectiva do sujeito: o sujeito vê-se afastado do predicado por uma vírgula e fica perturbado, pois toda a gente sabe que “a comprovação desses fatos, implica”, em vez de “a comprovação desses fatos implica”, é um factor perturbador e não um fator perturbador;
  2. A perspectiva da preposição: de facto, olhando com olhos de ver para a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para (para e não pára: são diferentes), perante, por (por e não pôr: também são diferentes, mas enquanto a base IX se preocupou com o pára, a base VIII poupou o pôr, pois foi, pois foi), sem, sob, sobre e trás, é certo e sabido, a seguir a “a exclusão do bolseiro” é de e não a, como é sabido que se discorda de e se concorda com e que não se deve nem discordar com, nem concordar de;
  3. A perspectiva do alfaiate, a mais interessante e, em última análise, nestes tempos de crise ortográfica, a mais urgente: há bastantes sujeitos que vêem fatos, mas também, além de fatos, vêem contatos e vêem seções e não vêem os responsáveis por isto tudo, que pelos vistos não vêem nada disto, a assumir os erros e a fazer qualquer coisinha para acabar com esta situação.

Situação? Que situação?

Esta.

Continuação de uma óptima semana.

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Pelos animais, ração!

(houve até quem falasse de foguetes, deus nos livre)
Carla Romualdo

Who do you think it’s for? For the animals.
William Henry Duffy & Ian Robert Astbury

LE PROFESSEUR. Vous devenez un véritable animal, Marina.
MARINA. Non : je suis un animal.
— Amélie Nothomb, “Les Combustibles

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Fonte: http://bit.ly/333I4tm, foto de 6/4/2019 (graças à EPHEMERA: http://bit.ly/2oSqVUq)

Efectivamente, o esquecimento do <r> inicial de ‘ração’ é uma das hipóteses mais plausíveis para aquele cartaz. Sim, aquele da direita. Convém recordar o que foi recentemente dito pelo porta-voz do PAN sobre a revisão do Acordo Ortográfico de 1990:

Faz sentido, a ortografia não deve ser legislada por decreto.

Isto é, em última análise e vendo bem as coisas, aquele cartaz não faz sentido.

Por outro lado e por incrível que possa parecer, não se trata apenas nem da tristeza sentida por Cavaco Silva, perante a prestação de anteontem do PSD, nem do impacto dos recentes resultados internacionais do Glorioso no ânimo do presidente do Benfica. A crónica ausência do cê medial, naquelas palavras encontradas no sítio do costume, deixa-me profundamente triste e deverá deixar os respectivos responsáveis tristes e envergonhados.

Continuação de uma óptima semana.

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