Uma questão de saia

O Ricardo M. Santos, antigo membro desta casa, deixou na efemeridade do facebook um dito tão genial que consegue abarcar duas áreas ao mesmo tempo: a política e a ortografia (que é, neste país de parolos, uma questão política, quando devia ser apenas científica). Tudo veio a propósito da saia com que o assessor do Livre entrou na nova legislatura.

Escreveu, então, o Ricardo, o seguinte:

“”O assessor do Livre foi de saia para criar um fato político.”

Santana Lopes seria capaz de dizer esta frase, mas a sério. Não é que o Ricardo não seja sério, mas, ao contrário de Santana, sabe que nem o chamado acordo ortográfico (AO90) conseguiu tirar o C de “facto”. Por outro lado, isso também não é exactamente verdade, porque, desde que o AO90 foi imposto, até o Diário da República transforma “factos” em “fatos”.

A saia do assessor do Livre tem escandalizado muita gente e tem causado alguma indignação noutros, estupefacção e revolta noutros ainda. Sendo eu um amante da História, habituado a túnicas, togas e saiotes, confesso que me é indiferente que haja homens de vestido ou mulheres de calças, sendo que os políticos que mais repulsa me causam usam fato e gravata, essa espécie de uniforme tecnocrático dos gestores e empreendedores que gostam mais de Economia do que de pessoas. Se o assessor, por estar de saia, se sente mais Livre, que seja muito feliz.

Na minha qualidade de burguês cínico sossegado, não deixo, no entanto, de entrever nesta saia um desejo de epater le bourgeois, uma vontade de transformar um fato político num facto político. Não me incomoda, mas não me convence.

O que me incomoda verdadeiramente no Parlamento, entre outros problemas, é que tenham aprovado e mantido um alegado acordo alegadamente ortográfico que subsiste para lá dos fatos. No que se refere a “saia”, neste contexto, interessa-me, sobretudo, o presente do conjuntivo: é preciso que Portugal saia do AO90.

Comments

  1. JgMenos says:

    O Carnaval Livre promete reality show para 4 anos, e um voto para a festa esquerdalha.

  2. Ana Cristina Pereira Leonardo says:

    Se for por vontade do Livre, não saia, perdão, sai.

  3. Ana A. says:

    “…confesso que me é indiferente que haja homens de vestido ou mulheres de calças…”

    Estamos num tempo é que se exige igualdade!

    Eu, em meados da década de 60, e na minha condição de jovem rapariga, filha de pai conservador/católico (num Portugal, idem, aspas), implorei para que me deixasse usar calças. Que não! Nem pensar!

    Estratégia que eu usei para vestir as ditas cujas: por cima delas enfiei um vestido, e assim, foi mais ou menos aceite pelo “tirano”!

    É por isso, que acho risível, que no ano da graça de 2019 ainda haja gente, que coloca a indumentária num patamar que decididamente ela não ocupa!

  4. Ricardo M Santos says:

    sodádes!

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