Como por encantamento

La Belle et la Bête, Jean Cocteau (1946)

A comunicação digital dos objectos com a internet, que permite que estes possam recolher e transmitir dados – a chamada “internet das coisas” – faz lembrar o castelo do Monstro, cujos portões e portas se abriam sozinhos, e em que os candelabros pairavam no ar sem que alguém os sustivesse, e um espelho permitia ver tudo o que se desejasse, por mais longínquo. Tudo isto era possível porque o castelo do Monstro, como a Bela viria a descobrir, estava sob um poderoso encantamento. Uma vez declarado o amor da Bela pelo Monstro, porém, o encantamento desfez-se, pondo fim à bizarria e inaugurando uma era de felicidade monótona.

Como por encantamento, também as luzes da nossa casa comunicam – ou fá-lo-ão em breve – com o nosso telemóvel, para acender-se à nossa chegada, o frigorífico elaborará a sua lista de compras, a máquina de lavar comunicará ao frigorífico que inclua detergente na lista, e assim por diante, num diálogo que irá em crescendo mas do qual não teremos de ouvir nada. Tudo funcionará sem que mão alguma pareça sustê-lo.

E nada garante que as coisas, assim dotadas destas facilidades de comunicação, se limitem a resolver tarefas práticas. É possível que em breve se pareçam mais com os televisores inteligentes do Fahrenheit 451 que interpelavam a dona da casa, exigindo a sua atenção, e a quem ela se referia como sendo a sua família. Poderemos vir a viver cercados por uma muralha de leds, mas uma muralha interactiva, ultra HD, com as cores mais nítidas e brilhantes. O espelho que o Monstro ofereceu à Bela também permitia ver tudo o que ela desejasse para que assim não caísse na tentação de sair do castelo.

Apesar da vantagem destas promessas, tem havido sempre cépticos. Numa das cartas a Milena, Kafka perguntava-se como era possível pensar-se que as pessoas conseguem comunicar através de cartas. Os beijos escritos não chegam ao seu destino – argumentava – são bebidos, no caminho, pelos fantasmas, que neles têm o seu alimento. O caminho-de-ferro, o automóvel, o avião são esforços da humanidade para comunicar e, dessa forma, eliminar os fantasmas entre os vivos. Mas o correio, o telefone, o telégrafo mostram que os fantasmas nunca morrerão de fome. Aquilo a que Kafka chamava “fantasmas”, um resquício do romantismo oitocentista, é hoje o milagre digital, a grande revolução que nos permite estreitar o mundo para sentir-nos sós na companhia de uma multidão de  desconhecidos.

Voltemos aos automatismos. Notícia recente contava a história de Isabel Rivera Molina, que morreu quando tinha 78 anos, em 2004, mas cujo corpo só foi descoberto 15 anos depois, na casa em que vivia em Madrid, num edifício de muitos apartamentos. Os 15 anos de vida virtual que Isabel teve só foram possíveis graças à automação de procedimentos que apenas de forma supérflua podemos crer dependerem de nós, humanos. A reforma de Isabel era paga mensalmente por transferência bancária, os pagamentos das suas despesas correntes saíam da conta por débito directo. Ainda que morta, nunca falhou um pagamento.

Num mundo automatizado, o ser humano não é dispensável, não exageremos. Digamos que é um facilitador cuja acção pode ser dispensada, sim, mas só a partir do momento em que deu origem à criação de automatismos capazes de  perpetuar-se indefinidamente sem a sua intervenção. Como por encantamento, o dinheiro entrava e saía de uma conta e, nesse vaivém, gerava a ilusão necessária para que se acreditasse que havia ainda um ser humano chamado Isabel Rivera Molina, que vivia uma vida numa casa fechada de Madrid. O apartamento cheirava mal, o cão do vizinho ladrava sempre que passava à porta, a caixa de correio abarrotada cuspia cartas para o chão, ninguém via Isabel há anos, mas as contas eram pagas a horas.

Certo dia, um vizinho do mesmo andar dirigiu-se a uma “Junta de Distrito” (um órgão oficial que intermedeia entre os cidadãos e a autarquia) para informar que ninguém sabia nada de Isabel há muitos anos e que suspeitava de que ela estaria morta. Seria verdade? Responderam-lhe que não podiam fornecer-lhe nenhuma informação em virtude da lei de protecção de dados pessoais. Informar se Isabel estava viva ou morta poderia constituir uma violação da sua privacidade, sem dúvida. O que ninguém poderia imaginar era que, de tão privada, a vida de Isabel terminara sem que ninguém o soubesse.

Tampouco a polícia podia intervir. Apenas poderia arrombar a porta se houvesse um incêndio ou uma inundação. Os familiares, contactados pelo telefone, disseram que talvez ela estivesse num lar de idosos. Quando o corpo foi encontrado, uma vizinha contou aos jornalistas que suspeitava que Isabel estaria morta e que falou no assunto numa reunião do condomínio, mas acabou por desanimar-se porque ninguém lhe fez caso. É que Isabel continuava a pagar a sua contribuição e, como explicou o responsável do condomínio, “enquanto pagar…”. Assim ficou a frase, inconclusa, mas mais não foi necessário porque todos entendemos como termina: enquanto pagar, está viva.

E esta frase, que apanhei por sorte num final de jornal televisivo, encheu-me de esperança. Poderá não ser a vida eterna, mas há, afinal, vida depois da morte, até para os não crentes. Basta que acreditemos na domiciliação bancária e no débito directo. Encantamentos modestos, mas acessíveis.

Comments

  1. fantasiaseperplexidades says:

    Um texto que é um encanto, nos tempos que correm. Obrigada!

  2. j. manuel cordeiro says:

    Que deleite para o espírito.

  3. Isabel Atalaia says:

    Lindo e aterrador. Já tinha saudades dos suas micro-histórias. Obrigada.


  4. Bastou ler as primeiras frases, para que os automatismos do meu cérebro (ainda ele) me levassem até às palavras finais, apesar destas se suspenderem numa tela de computador e não nos fantasmas de Kafka. Deleite, sim, e preocupação…

  5. Paulo Campos says:

    Comecei a ler sem ver quem era o autor. No fim, ocorreu-me que só podia ser de quem veriquei que efectivamente era 🙂

  6. Abel. Barreto says:

    Lindo e premonitório

  7. César P .Sousa says:

    Assim sendo ,o presidente do benfica L.Filipe Vieira , o Joe Berardo ,o Duarte Lima ,etc.etc. estão mortos ou mal enterrados ?.Têm calotes com mais de 10 anos !!!

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