Dia dos Namorados

© Paulo Abrantes

Alto, bem encasacado, vozeirão, passos firmes, gestos elegantes, um homem habituado a que lhe façam caso. Anda de um lado para o outro no hall, impaciente, ausente, fora de si. Pega no telefone, procura um número, aguarda. Começa a falar, altíssimo.

– Sim, meu amor… Sim, estou aqui, no hotel…. Efectivamente… Quando vens buscar-me?… Compreendo… Sim, meu amor, compreendo… Espero-te aqui… Até já, meu amor, até já.

Enquanto fala, percorre o hall com passadas largas, gesticula com a mão livre, esboça um gesto de resignação. Desliga. Esperará, que remédio, esperará.

O funcionário da recepção evita olhar para ele. Os clientes não conseguem deixar de fazê-lo. [Read more…]

Portugal: uma sociedade doente

Os portugueses são um povo neurótico, a precisar de colo e de se pensar a si próprio e à sua existência. Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico, pensa que o considerável aumento do mal-estar que a austeridade provocou espelha de forma preocupante as patologias mentais de uma sociedade doente. E responsabiliza os políticos portugueses por esse quadro depressivo.

(c) Sandra Bernardo
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Há dias, no Facebook, apareceu uma frase que creio que define bem o mal-estar que está na raiz de várias patologias que afectam os portugueses. Essa frase diz assim: «Doutor, sofro de retenção de tristeza». O que pensa da frase?
Diria que a partir do momento em que a pessoa expressa de forma tão clara o seu mal-estar, uma parte do caminho já se fez. O sofrimento mais profundo e mais existencial da nossa vida, nós temos muitas vezes dificuldade em expressá-lo, ele não é sempre traduzível em palavras. Nessa medida, essa frase indica muito claramente que a pessoa que a diz está muito triste, ou muito melancólica, relativamente a uma sociedade que não corresponde ao seu ideal. Penso, também, que há depressão na existência dessa pessoa. Mas não posso saber, apenas pela frase, a gravidade dessa depressão, o grau que tem na sua vida diária e de que forma a afecta.

CARLOS CÉU E SILVA (n. 1960) é Psicólogo clínico e Mestre em Aconselhamento Dinâmico. Fundador e Presidente da Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental, é também Presidente da Laços Eternos – Associação de apoio a pais e irmãos em luto. Como pensador e escritor, assinou Dicionário Psicológico da Criança – a partir da obra de João dos Santos (Âncora, 2008), As Mulheres de Henry James (Coisas de Ler, 2009), Édipo – Uma História Completa (Coisas de Ler, 2009) e Infâncias (Esfera Poética, 2014).

O que transforma essa frase num enunciado significativo é a palavra retenção. Porque essa palavra diz-nos que há uma justaposição de várias camadas de tristeza que estão retidas, que não foram ainda ou libertadas ou transformadas noutra coisa.
Concordo. Mas podemos também interpretar essa palavra de outra forma, porque ela também pode dizer-nos que a pessoa detém um poder individual sobre a situação.

Que é capaz de se auto-controlar?
Sim. E talvez até de um egoísmo.

Não percebo a ideia de egoísmo. Pode explicitar?
Se olharmos para o ser humano nas suas componentes internas e mentais, percebemos que há sempre egoísmo, porque para sobrevivermos tem de haver da nossa parte um constante esforço suplementar. É porque temos esse poder individual, seja ele mental, emocional ou fisiológico, que somos capazes de reter – tal como uma criança se torna capaz de controlar a micção, por exemplo. A capacidade de retenção tem a ver com a forma como nós nos concebemos como seres individuais e sociais. E é este conflito, por vezes desorganizado, que faz com que possamos sentir-nos melancolicamente desprovidos de capacidade para viver socialmente em equilíbrio.

Considera, ou não, que a frase define o povo português?
Considero que define bem e mal o povo português. Define bem porque de facto o povo português é um povo que deseja poder, que deseja conquistar poder, e também o poder de se auto-controlar. Mesmo que depois experimente dificuldade em ter poder, em lidar com o poder, qualquer que seja. E define mal porque quando o português adquire poder, a forma como o gere revela uma dificuldade operacional em assumir conscientemente as suas decisões. E revela também um equívoco, porque a relação com o poder não obriga ao uso de autoritarismo, mas a uma disciplina afirmativa e estimuladora.

O que quer dizer quando diz que os portugueses não lidam bem com o poder?
Quero dizer que nós, portugueses, historicamente, não fomos e continuamos a não estar preparados e a não ser educados para o poder. O português típico deseja o poder, e inveja o poder de quem o tem. Quem tem poder é sempre visto pelos portugueses como um ser a abater. Porquê? Para que possam substituir os outros nesse poder.

Podemos encarar isso como um defeito constitutivo do carácter nacional?
Podemos. Mas vale a pena perguntar porquê, por que é que esse carácter tem essas características? Porque é que nós, portugueses, somos tipicamente invejosos e temos, tipicamente, a tendência para ver o outro de forma deturpada e como um ser ameaçador?

Porquê?
A nossa história existencial enquanto povo, e a criação da nossa pátria enquanto chão, mostram-nos que fomos sempre assim. [Read more…]

O céu sobre nós

Pode dar-se o caso de levantarem os olhos da estrada e descobrirem a figura de cartão no topo de um edifício, como me aconteceu a mim. Era a silhueta de um dos anjos de Wim Wenders, quase de certeza o Damiel, e suponho que deveria ser o anúncio de um ciclo de cinema. No cimo do edifício, olhando cá para baixo, as costas ligeiramente curvadas, os braços caídos ao longo do corpo, as assombrosas asas atrás de si, como se não lhe pertencessem, como podem elas pertencer a um homem de gabardina? Um homem curvado sobre os monólogos de quem está preso à terra e dela não pode desprender-se. Curvado sobre a dor do mundo e as suas finitas, previsíveis variantes.

Ainda bem que o vi de longe, de fugida, e que assim não pude deter-me nas imperfeições de um cartaz que o vento destroça, que a chuva deforma. Apenas vi uma silhueta, tão improvável que tomou a força de um anjo calado e impotente, ele que jamais poderá resolver um problema terreno. Poderá escutar os monólogos de cada um de nós, o sofrimento calado que vamos desembrulhando, dissecando, carregando connosco como pele, como carne, como memória que não se apaga. Ainda bem que o vi assim, de fugida, com o sol a fazer-me semicerrar os olhos, com a necessidade de não deixar de atentar na estrada, porque assim ele foi uma aparição inútil e transformadora, como todas as aparições. [Read more…]

Sem ninguém

2 de Novembro, Dia dos Fiéis Defuntos. Pensei naqueles que não têm ninguém que os recorde, que deles sintam saudades e que por eles chorem. Aumentou em Portugal o número de corpos não reclamados (sem-abrigo, toxicodependentes, imigrantes, etc.). Mortos que ninguém chora.

A vida parece ser injusta para tantos seres humanos. Uns muito amados e saudados, merecedores até de homenagens e prémios póstumos ao fim de um ano, de dez, de cinquenta… Queria dar um bem-haja ao serviço prestado pela irmandade, de São Roque que, para muitos, é a única família presente no funeral. Tratam de providenciar ao falecido uma despedida digna. Manifestam também que aquela criatura significou, com toda a certeza, algo para alguém nalgum momento: algum gesto seu, um olhar, uma palavra. Por isso, terá valido a pena a sua vida!

Antigamente, as pessoas eram menos súbitas

Quando andava a estudar na Universidade (Aveiro), tinha a mania de fotocopiar as páginas mais marcantes de livros que ia descobrindo na maravilhosa biblioteca da instituição e outras municipais…

Hoje encontrei uma cópias de textos avulso. Cópias com mais de 15 anos! Partilho esta jóia de Pedro Alvim, um texto publicado, por certo, no Diário de Lisboa em 11 de Outubro de 1988. Ainda vou confirmar ou talvez o leitor (diga-me se descobrir).

Antigamente, as pessoas eram mais demoradas. Diziam as palavras sílaba a sílaba, sorriam com vírgulas, mostravam nos dentes um ponto de interrogação à laia de uma flor. Quer isto dizer que não faziam uma pergunta exigindo de imediato uma resposta. Esperavam esbeltas no tempo, os olhos isentos de qualquer desafio …

Hoje, não. Hoje não nos sabemos demorar (…) nas margens desta ou daquela situação. 

Se alguém nos acena, quase que não lhe podemos acenar. Se alguém nos mostra um objecto que o deslumbrou, só do objecto conseguimos apreender unicamente o resquício. Se alguém se lamenta de um morto querido, nem o nome do morto nós ouvimos…

(…) perdemos a noção da existência de um tempo descontínuo, de encontros vagarosos, de festa, de entendimento. Vivemos um tempo em linha recta, súbito (…)

Estamos em fuga, ultrapassamos todos os possíveis encontros – e cada vez, embora de muitas coisas acompanhados, nos sentimos mais sós uns dos outros. Sem nos apercebermos, vamos tendo o deserto à nossa frente.

Antigamente, pois, as pessoas eram menos súbitas … e porque eram a noite e o dia, e tinham dentro de si uma longa tarde, lentas se davam, lentas sorriam, e lentas (uma a uma) entardeciam.

Deste texto, descobri um excerto num só blogue.

Pedro Alvim…

Viver só

Ontem, na revista do Público, uma reportagem sobre quem escolheu viver sozinho, mostrando que “viver só não é necessariamente sinónimo de solidão”.

Não transcrevo as várias histórias narradas (gostei particularmente da história de Nazaré, 83 anos, que sempre viveu na mesma casa…). Transcrevo sim, os dados científicos deste fenómeno que tem vindo a acentuar-se:

“As trajectórias e fases da vida de quem vive sozinho podem ser muito distintas. (…)  Rosário Mauritti, socióloga e autora do livro Viver Só, compara essas realidade. Os idosos começam a viver sozinhos não por opção. E esse viver sozinho tem fases: um autofechamento e depois a descoberta da libertação“, disse à revista 2. Nas mulheres, e nos casos decorrentes de viuvez, é uma espécie de descoberta de que afinal são capazes“, sobretudo as que viveram muito tempo limitadas pelos pais ou pelos maridos. (…)

O número de famílias de uma só pessoa aumentou 37,3% nos últimos dez anos (…). Hoje em dia, em cada 100 famílias portuguesas, 21 são constituídas por uma só pessoa (…). São múltiplos os trajectos sociais de quem vive sozinho. Sejam os idosos que enviuvaram, “os adultos que, por opção, ou não, permaneceram sós e que, podendo já ter vivido em casal, passaram por situações de ruptura conjugal”, ou as novas gerações “em transição para a vida adulta”. “Portugal está na cauda da Europa neste fenómeno por termos menos dinheiro.” Com outras condições económicas, “haveria, entre jovens, sem dúvida, um maior número a viverem sozinhos” (Suécia, 47%, ocupa o topo).

Fala-se aqui de «famílias unipessoais». O tradicional conceito de família está a mudar. É estranho dizer-se família de uma só pessoa…

é por isso que os tascos têm as janelas tapadas

O tasco ainda tem uma dessas portas de vai-e-vem que nos recordam os saloons, essas portas que dão vontade de empurrá-las, imaginamo-nos a aproximar-nos delas com passos sonoros, pausados, projectando sobre a sala uma sombra que fará com que todos voltem a cabeça na nossa direcção, para apenas descortinarem umas pernas, talvez um chapéu de abas largas, se o tivéssemos. E então poderemos empurrar as portas com firmeza mas sem demasiada força (porque nos lembramos de que as portas que vão também acabarão por vir)  e avançar para o balcão, ou ficar por uma das mesas e pedir um pratinho de moelas ou de tripas enfarinhadas.

Mas não foi isso que aconteceu, eu não cheguei a entrar, passei à porta do tasco e só me detive brevemente à janela. Não sei se já repararam que as janelas dos tascos costumam estar tapadas? Não permitem que olhos indiscretos espreitem esse momento silencioso e solene em que um homem leva o copo à boca, acercando os lábios para que os dedos trémulos não derrubem o vinho, bebe-o com a máxima seriedade, todo concentrado nesse acto, e pousa-o finalmente sobre a mesa, com o gesto já preciso e firme, um movimento rápido, e o olhar de súbito brilhante e mais entristecido. Na janela dos tascos encontramos tantas vezes um cortinado com rendas escurecidas, um estore de lâminas imundas, um simples trapo estendido, mas, para suavizar essa recusa aos olhos de quem passa, a dona do tasco deixa à janela um vaso de begónias ou um lírio-da-paz.

A janela deste tasco, porém, estava desimpedida e deixava ver o único cliente àquela hora, um homem de idade difícil de determinar (cinquenta e muitos, quarentas, recém-entrado nos sessenta?), sentado à mesa mais próxima da janela, absorto nos seus afazeres. [Read more…]

Quando um filho morre primeiro…

Penso neste assunto muitas vezes…

Hoje, ao ler o DN de 7 de junho, que andava perdido no balcão da receção da minha escola, uma notícia de última página chamou-me à atenção: a filha do tão conhecido arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer morreu na passada quarta-feira, aos 82 anos. O seu pai já vai com 104 e, no mês passado, esteve internado 15 dias no hospital. Estava ansioso por voltar a trabalhar!

Este homem tem mais de um século de vida. Não é comum alguém atingir a sua idade. Viu morrer muitos amigos e muitas pessoas de família. Está mais só. Muito mais só agora, sem a filha, a única. Saberá Niemeyer enfrentar duma forma mais sábia a morte dum filho? Será para ele a morte algo mais «natural» que para o resto dos mortais?

O trabalho poderá ser a sua grande companhia.

Lamento imenso a morte de Anna Maria.

(Lamento imenso a morte dos filhos de quem quer que seja ainda vivo).

Espero que a criação de Niemeyer não termine por aqui…

A aceitação da Morte

Chegamos ao hipermercado com a lista na mão: pão, batatas, vinho, peixe, etc. e, à entrada, os livros como que se oferecem (não estão na dita lista…). Se tivessem asas, atiravam-se e assediavam-nos mais.

Gosto de ser eu a descobri-los. Quanto mais difícil, mais vontade sinto de os ter em minha casa.

Uns livros levam a outros. Cheguei a Cidadela através d’ O Principezinho do mesmo autor, tão conhecido, o aviador Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) .

Mais de quinhentas páginas onde podemos encontrar meditações sobre “a solidão, o silêncio, as imagens do deserto [tema tão querido a Saint-Exupéry], o problema do tédio e da morte, do prazer e da liberdade, do «sentido da vida»”. [Read more…]

Dia do Pai

Hoje pensamos, com redobrada atenção, nos pais do mundo inteiro. Mas, sobretudo,
naqueles que estão velhos e (muito) sós,
nos que morreram sem a despedida merecida, sem os filhos por perto e sem o aperto das mãos;
também naqueles que sobreviveram aos filhos e choram por eles todos os dias sem compreender – «Porquê?»;
nos que lutam pelo «pão nosso de cada dia»;
nos que já nem isso podem pôr na mesa e passam o dia deambulando de um lado para o outro, sobrecarregados sob o jugo do maldito desemprego;
nos que se viram obrigados a deixar mulher (mães coragem) e filhos para emigrar e não podem ver os pequenos crescer e, por isso, sofrem silenciosamente de outra doença, a saudade.
Ficamos felizes por todos os pais que sabem e querem aprender com os filhos, que os amam e por eles são loucos. Que os adoram a seu jeito, à sua maneira, talvez um pouco como os próprios pais o foram…

E, finalmente, a todos os que se esforçam por conseguir fazer o seu melhor, um abraço.

Um especial para o meu pai!

Coincidência do carago!

Deixem-nos Ser Professores, imagem de uma das manifestações de ProfessoresAqui no Porto, a semântica do título seria diferente, mas atendendo ao bom nome da casa  vamos adoptar uma referência mais simpática: CARAGO!

Que a vida nas escolas está longe de ser brilhante, todos o sabiam. Que se transformaram, muito depressa, em espaços de solidão onde os professores não vivem. Sobrevivem apenas no meio de tarefas sem sentido e no meio de gente que não quer saber, nem quer aprender…

São coincidências do carago ou talvez não, mas se eu fosse Professor de Biologia mudava de grupo

A Razão

adão cruz

A razão

tamanho de todos os céus no silêncio de sonho-menino os olhos cheios de serenas manhãs na frouxa luz do fim da tarde.

 A razão

palavra que se prende por entre as folhas dos álamos a doce margem de um regato no sobressalto do pensamento.

 A razão

saber se o tempo vai se o tempo vem no calendário do sonho não dar contas ao tempo de um tempo que se não tem.

 A razão

semente branca da vida no fruto maduro da tarde a esperança dos olhos frios na quente ilusão de outro dia.

 A razão

três lágrimas vertidas na corrente do alto rio um redemoinho de pedra e água brincando à beira do abismo.

 A razão

coração bem apertado nos braços da solidão a felicidade cantada sem voz nova na garganta.

 A razão

a firmeza do vento no rio que não volta atrás …ou a leveza do luar nas margens da sombra.

 A razão

coração cravado na erva espantalho de emoções longos braços de palha entrelaçados de ilusões.

Dia de reflexão. Por quem votar

É o mais pesado dia antes das eleições legislativas, esse de por quem votar e qual é o meu partido.

Qual o meu partido, é claro para mim desde que me lembro, o socialista fundado por Marx: Socialismo refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização económica advogando a propriedade pública ou colectiva e administração dos meios de produção e distribuição de bens e de uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades/meios para todos os indivíduos com um método mais igualitário de compensação. [Read more…]

as diferenças que levam às complementaridades

Wagner – Tannhäuser, Coro de peregrinos

Pensava escrever sobre a observação das diferenças entre homem e mulher. Pensava. Continuei a pensar e consultei amigas. No meu ver, as amigas são complemento de nós homens. Não pela sexualidade, mas pela intimidade que se desenvolve entre gâmetas diferentes, sendo gâmetas cada uma das duas células (masculina e feminina) entre as quais se opera a fecundação dos animais e vegetais.

A minha ideia original era escrever sobre as diferenças entre homem e mulher. No entanto, ao rever os códigos que nos governam, especialmente o Código Civil, reformulado em 2001, não encontrei nem diferenças nem complementaridade. Hoje em

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Jaz morta e arrefece

Augusta Duarte Martinho completaria 96 anos no próximo dia 12. Completaria, porque está morta há nove anos. Mas apenas agora é notícia. Porque só ontem o seu corpo foi encontrado.

O andar em que vivia foi vendido em leilão pelas Finanças e quem o comprou encontrou o corpo da idosa. Terá morrido sozinha. Não sei se era boa ou má pessoa. Se mereceu ou não viver os últimos dias em total solidão, como uma espécie de castigo.

O desaparecimento de Augusta Duarte Martinho tinha sido participado à GNR, em Novembro de 2002, por uma vizinha. Parece ter sido a única interessada. Ela e o cão que lhe fazia companhia. E que foi encontrado morto na varanda da casa.

as minhas memórias -1- campo de concentração

Por ser duro de ver as roupas de um campo de concentração, troquei por camponeses


Os pesadelos são os sentimentos mais hediondos da vida. Não há nada para mudar o sonho que nos causa essa infelicidade. Especialmente se derivam de uma realidade de tempos passados que nos persegue até a morte. Como tem sido o meu caso. Toda a história que me assusta está narrada no meu livro Para sempre tricinco. Allende e eu, editado pelo meu amigo Carlos Loures em Estrolabio.

Não é estranho que os pesadelos nos façam sofrer. Não é apenas uma sensação emotiva, é também fisiológica: é uma opressão angustiosa da respiração durante o sono. Como etnopsicólogo que sou, era capaz de curar essa sensação de opressão, mas não a mim próprio, sendo o sujeito de essa angústia. Uma angústia que advêm da realidade,

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as mortes da doença

a solidão é outra forma de morte

Nunca, mas nunca, pensei que uma doença pudesse ter tantas mortes e todas elas diferentes. De índole diferente. Conhecia apenas uma, a que todos sabem: a do corpo que fica sem alma como definiam os gregos clássicos antes da nossa era. Ou essa morte física em que a alma, como define Agostinho de Hipona no seu texto As Confissões, do ano 398, editado primeiro em pergaminho, para passar a suporte de papel a partir do Século XVI, editada a versão, que guardo comigo, em 1937 por Thomas Nelson & Sons, Ltd, London, Edinburgh, Paris, Melbourne, Toronto e New York; não é a mais antiga, mas sim, após pesquisa na Biblioteca da minha Universidade de Cambridge, a que usa o significado das palavras latinas da época traduzidas para o inglês antigo: Great art Thou, and greatly tobe praised; great is Thy power, and Thy winsdom infinite, morre pelas ofensas causadas à Divindade que a tinha criado. Em XIII pergaminhos, confessa publicamente os seus pecados e manifesta o seu arrependimento, afirmando estar certo de gastar muito da eternidade às portas do paraíso (o Purgatório ainda não tinha sido criado, pois surge no Concilio de Trento, Século XVI, após a separação das

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o som de um ninho vazio…

o dia em que amar coverte-se numa constante ironia

Para os meus discípulos de Etnopsicologia da Infância.

Falava ao telefone com uma antiga estudante minha, amiga que age como entende e ajuda-me em todo o que é possível. Dizia-me, logo de manhã ao telefone, que um homem é uma pessoa atroz. Perguntei porque. A resposta foi simples: nada fazemos para as agradar. Comecei a pensar: o que será que agrada a uma mulher, além da intimidade sexual? O carinho gratuito, o amor sem parar, as flores elegantes, dizer que é bonita, acompanhar no minuto da tristeza? Passear para namorar? Devo dizeres que enquanto os anos passam, a minha experiência com as Senhoras são cada vez pior e difícil: mais tempo passa, menos agradamos. Procurei no dicionário a palavra atroz, e fiquei espantado e ferido: cruel e desumano, que excede quanto é imaginável, monstruoso. Não sabia que eu era assim! Bem ao contrário. Pensava ter sido gentil, um cravo, uma rosa branca de carinho, simplesmente, um ser masculino que seduz. Enganei-me. A ironia da frase, reiteradamente referido, desapontou-me. Especialmente, por não me considerar machista. No final, ficamos sós e não prestamos. Como acontece quando os descendentes crescem e formam as suas famílias: devemo-nos habituar a esse som de ninho vazio, sem descendentes, sem companheira. E mais nada acrescento nestes andares, cada ideia minha, será mais uma ironia que amedronta. É melhor pensar na ideia do cabeçalho do texto, que é bem mais triste.

 Confesso que a frase do título não é minha. Antes fosse. É a frase de Mac Kinsey ou Clare McMillan, a mulher do Biólogo, Entomólogo e Sexólogo, o Professor Doutor Alfred Kinsey, o autor do denominado Relatório Kinsey, sobre a sexualidade da

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Como Se Fora Um Conto – O Descalabro do J

O Descalabro do J

O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas. [Read more…]

Em que estás a pensar?

Desde que abri uma conta no Facebook (FB) tendo aprofundado a suspeita de que vivemos vidas de fachada. Para quem não conhece, o FB transmite a cada uma das pessoas que compõem a nossa rede de amigos informação sobre as nossas actividades, mostra-lhes as fotos que colocamos online, as ligações para videos do youtube, conta os resultados dos testes tipo revista Maria que pululam por lá, das frases que se escrevem em resposta à pergunta central que o FB faz a cada um dos inscritos: “Em que estás a pensar?”.

Que essa seja a pergunta isco, aquela com que o FB espicaça os seus utilizadores, já não augura nada de bom, claro. Há perguntas demasiado perigosas e essa é uma delas. Tomem como exemplo o meu amigo A. (as letras são completamente aleatórias, claro). O A. é um artista, um homem de sensibilidade e talento, cujas noites, pensava eu, se consumiam numa boémia criativa onde não faltariam álcool, mulheres, poetas malditos, nuvens de fumo…

Mas quando ligo o FB e recebo a lista das suas actividades recentes, descubro que ele passa essas noites a ver videoclips dos anos 80, que busca, em sucessivos testes, a resposta a perguntas como “quem eras noutra vida?” e “de que cor é a tua aura?” e que, nas raras noites em que parece sair de casa, anuncia-o três dias antes em parangonas “Vai ser de arromba!!!”

Não é o único a surpreender-me, claro. A B. é uma mulher de muitas qualidades, solteira, atraente, profissionalmente bem sucedida, mas que, por ainda não ter encontrado o parceiro amoroso com que sonha, dá como resposta ao tal “em que estás a pensar?” confissões acerca do homem ideal, dos desencontros das suas relações amorosas, e até declarações explícitas que fazem corar de vergonha alheia.

E que dizer do C., que descreve cada uma das suas comezinhas actividades diárias com o detalhe de um maníaco? E fotografa a comida antes de tocar no prato para poder publicar uma imagem do seu jantar?

Uma atrás de outra, abrem-se janelas para um desamparo que por vezes é ridículo, mas nem por isso menos pungente. O que nos leva a contar o inconfessável, quando, na solidão das nossas casas, o único elo de ligação com o mundo é um teclado e no monitor se acende esse aguilhão. “Em que estás a pensar? Em que estás a pensar? Em que estás a pensar?”

Aliciaram-me com o argumento de que o FB seria uma ferramenta que me permitiria manter o contacto com os amigos geograficamente distantes, ou estabelecer contacto com pessoas com quem dificilmente me cruzaria de outro modo, mas quer-me parecer que o FB é muito mais do que isso. É uma janela para a solidão alheia. Eu que o diga, naquelas madrugadas em que me ponho à procura de videos da Nina Simone.

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