O Acordo Ortográfico da Relógio D’Água

Numa passagem por uma livraria, peguei em Pensar Sem Corrimão, de Hannah Arendt, e, como de costume, passei os olhos pela ficha técnica, em busca, também, da opção ortográfica. Pude ler o que se segue:

Espreitei a última página e encontrei isto:

A ainda prestigiada editora consegue levar mais longe o caos ortográfico, o que é obra, sendo de notar que, de qualquer modo, “espectador” é uma das grafias admitidas pelo AO90, alternando com o agudo “espetador”. Procurando ver o copo meio cheio, isto pode significar que a Relógio D’Água está a dar início ao caminho de regresso à ortografia de 1945, a melhor possível neste momento. Tenhamos esperança.

Não pude ler alguns trechos. A Relógio D’Água, no seu acordo ortográfico privativo, prefere a grafia “recepção”. Tendo em conta que se trata de uma obra de Filosofia, calculo que Hannah Arendt não tenha direito a “concepção”, estando garantida a concessão ao AO90.

A manter-se esta situação, é inevitável que a Relógio D’Água passe a integrar a CPLP, porque, apesar de tudo, usa uma ortografia mais próxima do português que a da Guiné Equatorial. Na verdade, é preciso reunir os vários países lusófonos e a editora para que se aprofunde qualquer coisa talvez ortográfica.

Comments


  1. Quanto felicito este seu rigor e perseverança na saga complexa do AO com tanto campo minado, e mais esta sua análise crítica numa ironia inteligente, profunda e certeira, António Fernando .Nabais !
    Bem haja !


  2. Parece haver alguns equívocos. A Relógio d’Água é conhecida por não aplicar o Acordo Ortográfico, e o seu editor já o criticou várias vezes, a última das quais no ano passado: https://www.jornaldeleiria.pt/entrevista/francisco-vale-so-um-editor-que-nao-le-se-pode-dar-ao-luxo-de-publicar-maus-livros-8090.
    Assim, a opção pela aplicação parece ter sido da tradutora, daí a lista de palavras da editora em aparente confronto com isso. O critério das palavras mantidas é que não é claro e acaba por criar ainda mais confusão. Seja como for, não parece que seja de agredir uma editora que continua a publicar genericamente sem AO.

    • António Fernando Nabais says:

      De criticar a agredir ainda vai uma distância razoável. O que está na última página compromete a editora.

    • Paulo Marques says:

      Das duas uma, ou segue um acordo, ou segue outro. Fazer à escolha do tradutor, pode-me corrigir quem leu, é mais para Saramago do que Arendt.


      • Infelizmente, nada que não tivesse sido previsto.


      • Isto de seguir um “acordo” (suponho que quer dizer a ortografia em vigor, de 1945) ou seguir algo que não está minimamente em vigor não parece ser uma opção possível num estado de direito.
        É inquietante como meia dúzia de pessoas – literalmente – podem criar uma ficção legal.

        • Paulo Marques says:

          Bem, uma editora privada pode imprimir com a ortografia que bem entender. O estado é que se devia dar ao respeito.


  3. Um clássico do português suave. Estou em segunda fila, mas é só para aviar uma receita na farmácia.

  4. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Excepção também não teve direito ao P. Gostaria de saber porquê recePção, e porque não excePção…

  5. João Barroca says:

    Um cardápio ortográfico…

  6. fmart@sapo.pt says:

    «“espectador” é uma das grafias admitidas pelo AO90, alternando com o agudo “espetador”». Não é tão agudo um quanto o outro?

  7. ana cristina leonardo says:

    Mas mantém “exceções”?!

    • António Fernando Nabais says:

      Assim parece: não abrem excepções para “exceções” 🙂 São acepções. No futuro, ainda há-de aparecer muita Maria da Concessão.


  8. Muito bom 😀

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