A vida humana

Conheci a história do infame Dr. Petiot através de uma obra do historiador David King, que tem explorado de forma mais ou menos ligeira casos reais da Europa das décadas de 1930-1950. Marcel Petiot foi um médico que, durante a II Guerra Mundial, assassinou cerca de 60 pessoas, em Paris. Um assassino em série cujo número exacto de vítimas nunca foi estabelecido e que confessou não saber ao certo quantos tinham sido.

Com o nome de código de “Dr. Eugéne”, prometia ajudar a fugir de Paris todos os perseguidos pela Gestapo e pelo governo de Vichy, fazendo-os chegar até Espanha, daí a Portugal e, finalmente, de barco até à Argentina. Na realidade, recebia os honorários por este serviço e assassinava os seus clientes, desfazendo-se depois dos corpos num poço de cal, esquartejando-os e queimando os restos numa salamandra. Como as vítimas sabiam que não regressariam a Paris, levavam consigo na bagagem (e até escondidos no forro das roupas) maços de nota, jóias, todos os valores que podiam transportar. Em pouco anos, Petiot acumulou uma fortuna.

Petiot matou homens e mulheres de todas as idades, franceses, estrangeiros, pobres e ricos, novos e velhos, e até uma criança de 9 anos que fugia com os pais. Foi descoberto por acidente, quando a salamandra que usava para queimar os cadáveres começou a expelir fumo suficiente para que os bombeiros entrassem em casa na ausência do seu proprietário.

O julgamento de Petiot teve início em 1946 e depressa se transformou num circo. A população encheu a sala de audiências a cada dia, rindo, protestando, aplaudindo o que ouvia, como se assistisse a uma representação para seu divertimento e até celebridades, como o príncipe Rainier do Mónaco, apareciam nas sessões, porque o julgamento, nas primeiras páginas dos jornais durante meses, se tinha tornado num acontecimento da moda.

Tão horrenda quanto as descrições dos assassinatos foi certa reacção dessa plateia durante as alegações finais. Depois de seis anos de guerra, da brutal ocupação nazi, dos milhares de judeus franceses levados para os campos de concentração, dos milhões de mortos, quando o advogado de acusação clamou “A vida humana é sagrada!”, a população de Paris presente no tribunal, nessa Primavera de há pouco mais de 70 anos, riu à gargalhada.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    A Carla Romualdo escreve muito bem.


    • Não escreve apenas bem. Escreve por bem. Um tipo de bem que como sociedade teríamos todo o interesse em preservar. As crónicas dela (há outras aí pela blogosfera) deveriam ser coligidas e dadas à estampa em forma de livro.


      • Há muita gente a escrever bem nos blogues, ou talvez deva dizer que há “ainda” muita porque também foram muitos os que desistiram da blogosfera nos últimos anos. Talvez o anúncio da morte dos blogues seja tão prematuro quanto a do Mark Twain, logo veremos.

        Soliplass, que bom voltar a lê-lo! Um abraço e, já agora, outro para o Fernando, que anda desaparecido.

  2. JgMenos says:

    Conclusão:
    A tudo as gentes se habituam?
    A paranoia colectiva é possível?

    Por todo o lado se vê isso, e sempre o senso comum é ridicularizado para princípio de conversa, ao serviço de altos valores.

    • Paulo Marques says:

      Sendo que o senso comum está cheio de disparates como o frio causar constipações, que se foda o senso comum.

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