A vida humana

Conheci a história do infame Dr. Petiot através de uma obra do historiador David King, que tem explorado de forma mais ou menos ligeira casos reais da Europa das décadas de 1930-1950. Marcel Petiot foi um médico que, durante a II Guerra Mundial, assassinou cerca de 60 pessoas, em Paris. Um assassino em série cujo número exacto de vítimas nunca foi estabelecido e que confessou não saber ao certo quantos tinham sido.

Com o nome de código de “Dr. Eugéne”, prometia ajudar a fugir de Paris todos os perseguidos pela Gestapo e pelo governo de Vichy, fazendo-os chegar até Espanha, daí a Portugal e, finalmente, de barco até à Argentina. Na realidade, recebia os honorários por este serviço e assassinava os seus clientes, desfazendo-se depois dos corpos num poço de cal, esquartejando-os e queimando os restos numa salamandra. Como as vítimas sabiam que não regressariam a Paris, levavam consigo na bagagem (e até escondidos no forro das roupas) maços de nota, jóias, todos os valores que podiam transportar. Em pouco anos, Petiot acumulou uma fortuna. [Read more…]

O homem que nunca existiu

©Marian

Um amigo recebeu, por motivos pessoais que não vou contar, uma pequena parte da biblioteca de um ilustre bibliófilo. “Pequena” tendo em conta o tamanho total, mas, ainda assim, pouco mais de uma centena de livros. Cheguei a conhecer o bibliófilo, ainda que só de vista. Era um professor aposentado, conhecido pelo humor cáustico, pelo apetite voraz e por jamais sair à rua sem um livro na mão. Troquei com ele pouco mais do que uma saudação fugaz, nos restaurantes do bairro, adiando sempre o dia em que me decidisse a meter conversa. Tanto adiei esse dia que o deixei fugir.

Ajudei o meu amigo a organizar a biblioteca e recebi, em troca, alguns exemplares (não vale a pena esconder o meu oportunismo). Entre as páginas dos livros foram aparecendo consultas de mesa de todos os restaurantes da zona, recortes de jornal sobre os mais diversos temas, algum número de telefone rabiscado, apontamentos nas margens, guardanapos com definições de palavras, escritas com uma letra vagarosa e muito desenhada, postais de viagem. Com tudo isto, foi-se definindo o retrato desse homem que mal conhecíamos, como se pudéssemos recriá-lo a partir destes escassos vestígios da sua passagem pelo mundo.

No final, com os livros ordenados e o montinho de papéis pescados entre as páginas pousados sobre a mesa, achei piada à ideia de que o meu amigo e eu tínhamos feito a operação “Carne Picada” ao contrário. Eu explico. [Read more…]

Revoluções inevitáveis

Raquel Varela*

Este ano celebram-se os 100 anos da revolução alemã, os 100 anos da revolução húngara, os 70 da revolução chinesa, os 60 da revolução cubana, os 40 da revolução iraniana, os 40 da revolução na Nicarágua, e para quem, como eu, considera a queda do Muro e Tiananmen dois movimentos revolucionários (porque em história não se confundem processos com resultados), celebram-se os 30 anos do começo do fim da URSS e das esperanças numa China com menos opressão política. Todas estas datas têm vários factos em comum, mas dois deles são fulcrais: a força das massas contra o Estado, criando uma esperança única ao nível das mudanças no século XX,  e a derrota destas forças em regimes políticos que se consolidaram contra elas. Negar o papel das revoluções no século XX é negar que a par do lucro, força motriz das nossas sociedades capitalistas, há uma outra força que determinou os nossos destinos como a lei da gravidade: a ideia de que podemos viver num mundo mais livre e igualitário.

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A guerra não foi um filme americano

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É natural que os vencedores escrevam a sua versão de uma guerra, as suas histórias. Não lhe chamem é História.

Setenta anos depois da derrota do nazi-fascismo Clara Barata escreve no Público, e sem se rir, sobre “o mito estalinista de que a salvação do fascismo assentou no sacrifício do povo russo“,  para depois tropeçar em sim mesma e criticar: “os 27 milhões de mortos só contam como pequena história, a história familiar, dos indivíduos, e não como análise, reflexão. Aliás, desde 2014, existe uma lei que pune com penas até cinco anos de prisão a “distorção” do papel da União Soviética na II Guerra Mundial.”

Como se o revisionismo não estivesse sujeito a idênticas condenações em França ou na Alemanha, como se a II Guerra Mundial tivesse sido um filme americano desembarcado na Normandia.

O primeiro problema historiográfico das guerras, seus vencedores e vencidos, é o da sobrevivência do positivismo oitocentista, que reduz a a História aos líderes, fazendo de Hilter o único mau da fita, elevando Churchill a homem espectáculo (e esquecendo que em Inglaterra, no poder, estava um governo de coligação) e metendo Estaline onde não é chamado. [Read more…]

Aroma de Hitler

Cada vez estou mais convencida de que o mundo está a transformar-se na caricatura de si mesmo, ridícula e superficial até ao limite do suportável.

Numa época em que se vão fazendo evidentes as semelhanças entre o momento actual e a história recente, e em que por isso tão vital é conhecê-la, quanto mais não fosse como antídoto para a repetição do que ela teve de pior, reparem na promoção que um canal televisivo temático decidiu fazer de uma série de programas dedicados à II Guerra Mundial.

O perfumista Lourenço Lucena foi convidado a criar um aroma para cada um dos protagonistas da série: Winston Churchill, Adolf Hitler, Franklin D. Roosevelt, Hideki Tojo, Benito Mussolini e Josef Estaline. Conhecer os “aromas da história”, é a original metáfora, e enormíssimo desafio, porque os aromas desta história não são aqueles que costumam caber num frasquinho de essências: o sangue derramado, e “só o sangue cheira a sangue”, dizia Anna Akhmátova, o gás das câmaras de Auschwitz-Birkenau, a carne queimada em Hiroshima. Não era simpático, deve ter pensado o perfumista, e por isso inspirou-se nas características dos protagonistas, homens fortes, de aroma intenso. [Read more…]

Solidariedade

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Muçulmana protege judia com o seu véu, escondendo a estrela amarela. Autor desconhecido, Saravejo, 1941

Postais de propaganda da II Guerra Mundial em Portugal

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Há uns anos tive que vagar a casa dos meus avós paternos. Na secretária do quarto de meninice do meu pai descobri uma pequena colecção de propaganda de guerra. Principalmente britânica, postais, folhetos e brochuras, alguma alemã, brochuras e folhetos, e um par de brochuras de origem americana. [Read more…]

A Alemanha vai continuar a ser caloteira?

A Alemanha deve reparações de guerra, os gregos vão pedir que pague. Será que a dona de casa alemã vai nisso?

Foto da II Guerra Mundial

Frente de Leninegrado. Na imagem, um grupo de oficiais alemães e portugueses observam um capturado ou destruído tanque russo do tipo KV1. Eram normais estas visitas de elementos de exércitos de países neutrais, às frentes de combate do Eixo e dos Aliados e neste caso, conhecemos bem um dos oficiais portugueses. Em último plano, à esquerda e entre dois militares da Wehrmacht, vestindo um sobretudo e de bivaque escuro na cabeça, está aquele que mais tarde seria o Marechal Spínola. Na foto não conseguimos vislumbrar o famoso monóculo. Terá adoptado a moda nessa visita à Frente Leste?

Império do Sol

Extraordinário filme de Spielberg, com uma notável interpretação de Christian Bale, o actual Batman, na altura com 13 anos. A acção decorre em 1941, na China, durante a invasão japonesa. Legendado.

8 de maio de 1945: a guerra acabou na Europa

Escolho esta fotografia de Yevgeny Khaldei, intitulada O Hastear da Bandeira Soviética nos Telhados do Reichstag para ilustrar o dia por várias razões. A sua beleza plástica é indiscutível, não tenho pachora para o mito cinematográfico de ocultar que a guerra se decidiu a leste e a sua batalha decisiva foi a de Kursk e também porque demonstra como antes antes do photoshop já se retocavam imagens.

Esta é a versão original. Após o corte publico a retocada. Descubra as diferenças… [Read more…]

Hoje dá na Net: Os canhões de Navarone (1961)

A sra. Merkel anda cansada, a precisar de ir ao cinema, e nada melhor que um clássico dos filmes de acção, com a paisagem grega em fundo. Fazia-lhe bem, aposto.

Página do IMDB.Legendado em português

Petição sobre a dívida da Alemanha à Grécia em reparação pela invasão na II Guerra Mundial

Justification – In Detail

Germany Should Pay its Long-overdue Obligations to Greece

In the summer of 1940, Mussolini, perceiving the presence of German soldiers in the oilfields of Romania (an ally of Germany) as a sign of a dangerous expansion of German influence in the Balkans, decided to invade Greece. In October 1940, Greece was dragged into the Second World War by the invasion of its territory by Mussolini. To save Mussolini from a humiliating defeat, Hitler invaded Greece in April 1941.

Greece was looted and devastated by the Germans as no other country under their occupation. The German minister of Economics, Walter Funk, said Greece suffered the tribulations of war like no other country in Europe.

Justificação – em detalhe

A Alemanha devia pagar as suas obrigações à Grécia, há muito em dívida

No Verão de 1940 Mussolini, apercebendo-se da presença de soldados alemães nos campos petrolíferos da Roménia (um aliado da Alemanha), considerou isso um sinal perigoso da expansão da influência alemã nos Balcãs e decidiu invadir a Grécia. Em Outubro de 1940, a Grécia foi arrastada para a Segunda Guerra Mundial pela invasão do seu território. Para salvar Mussolini de uma humilhante derrota, Hitler invadiu a Grécia em Abril de 1941.

A Grécia foi saqueada e devastada pelos alemães como nenhum outro país durante a ocupação alemã. O Ministro Alemão da Economia, Walter Funk, assumiu que a Grécia sofreu as atribulações da guerra como nenhum outro país da Europa.

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Uma foto quase desconhecida


A Comissão Oficial do Centenário da República, tem divulgado muitas fotos de exaltação da bandeira do seu amado regime. Aqui está uma imagem praticamente desconhecida, tirada pelo exército alemão na antiga União Soviética, há uns setenta anos. Num momento de ajudas da Alemanha, convém amansar os espíritos dos generosos patronos.

22 de Junho de 1941

Apesar do Pacto Germano-Soviético de 23 de Agosto de 1939 e das vantagens que ambos os regimes retiraram dessa cooperação, Hitler ordenou o ataque à URSS. Às 3.15H da madrugada de 22 de Junho, iniciou-se o ataque. Uma campanha mal preparada e executada segundo as “visões, palpites e infalíveis instintos” do Führer e que chegando ao fim, marcaria um catastrófico resultado para o germanismo, cuja fronteira recuou de uma forma sem precedentes. Essa queda arrastaria a Europa inteira, apagando-se o seu predomínio sobre o planeta Terra.

São precisamente 3.15H de 22 de Junho de 2011. Há precisamente setenta anos, começou a Operação Barbaruiva.

Raposas do Deserto


Os italianos olhavam para a sua recentemente criada colónia da Líbia, como uma frente de combate convencional, quase à imagem da Venécia ou Flandres da I Guerra Mundial. Pautavam os seus movimentos pela obsessão da conquista de posições, ou melhor, de um terreno inóspito, sem água, calcinado pelo sol e pedregoso, enfim, uma autêntica armadilha para qualquer serviço de logística do mais poderoso exército. Após meses de estéril simulacro de campanha, as tropas do Duce enterraram-se em posições que pensavam ser bastiões impenetráveis. Não houve fosso anti-carro, jardim de minas e de arame farpado, trincheiras, redes de bunkers e losangos de artilharia que as salvassem pois os seus adversários britânicos, com efectivos numericamente muito inferiores, aperceberam-se das verdadeiras condições decorrentes da arcaica mentalidade militar imperante em Roma. A consequência consistiu numa série de desastres, dos quais o governo de Mussolini e o Eixo jamais recuperariam. O desembarque de Rommel em Trípoli, modificaria o estado de coisas e desde cedo mereceu a alcunha de Raposa do Deserto, sempre apto a caçar no terreno que o inimigo pensava ser seu. Invertendo-se os papéis, o general alemão conseguiu com elementos quase irrisórios, anular os sucessos apenas recentemente obtidos pelos ingleses que paradoxalmente, acabaram por cometer os mesmos erros do exército italiano. Rommel manteve a logística como o ponto essencial para o sucesso das operações e a agilidade como norma. Apercebeu-se que combatia num mar de areia, onde os “tanques eram navios” e pouco importando sucessos de ocasião e obtidos pela conquista de uma ou outra desoladora localidade isolada do resto do mundo. Milhares de quilómetros quadrados “conquistados” e apresentados nos mapas avidamente coleccionados pelos estrategas de café, nada significavam. Em suma, compreendeu aquilo que o território líbio significa. Longe ainda estava o tempo em que a Cirenaica se tornaria num ponto vital da indústria petrolífera e ironicamente, sem jamais o saber, o Eixo tinha aos seus pés, o filão de combustível de que desesperadamente necessitou durante toda a guerra. Aliás, a falta de carburante, ditou a sorte da campanha e certamente, o destino da Alemanha e da Itália.

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A «Guernica» aplicada ao ensino da História


Desde sempre que procurei inovar nos métodos de ensino e no tipo de recursos apresentados aos alunos, mas agora que estou numa escola com computador ligado à internet em todas as salas de aula, a minha tarefa é muito mais fácil e aliciante. Vem isto a propósito da «Guernica», o famoso quadro de Picasso, que costumo utilizar quando abordo os antecedentes da II Guerra Mundial. Uma fotógrafa inglesa, Lena Gieseke, pegou no quadro e exporou-o minuciosamente em 3 D. Em menos de três minutos, qualquer aluno fica a perceber o mais pequeno pormenor. Palavras para quê?

A máquina do tempo: esquecer ou não esquecer

 Dizem-me que já não tem interesse falar nestas questões do fascismo, do nazismo, do Holocausto, da resistência à tirania… Que já não se usa, que são temas muito batidos. É precisamente por isso, por «já não ter interesse» que não me calo e nunca deixarei de falar nesses temas que já foram vistos por milhares de ângulos e que, mesmo quando julgamos estar a ser originais, mais não fazemos do que repetir o que outros já disseram. Não me importa, pois trata-se, não de uma questão de originalidade, mas de um imperativo – não esquecer.

 Tenho aqui falado da grande quantidade de franceses que, durante a ocupação alemã (1939-1944), colaborou com os invasores nazis. Porém, é preciso dizer-se que muitos outros, resistiram, organizando-se e lutando. Muitos deles pagaram com a vida essa patriótica atitude. Dizer-se que a França resistiu heroicamente à ocupação germânica, seria um exagero e um falseamento da verdade histórica. Tão grande e tão grave como dizer-se o contrário. É que a verdade tem sempre, no mínimo, duas faces.
 

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Today is Churchill day

Em meados de 1940, Churchill e a Inglaterra estavam sozinhos. Hitler tinha, em poucos meses, invadido vários países. A França estava em ruínas e à beira do armistício, os Estados Unidos não cedia apoios, Rosevelt conspirava contra Churchill, Mussolini acabara de se juntar a Hitler e, para cúmulo, os britânicos tinham sido forçados a uma retirada humilhante em Dunquerque e Hitler preparava-se para invadir a Inglaterra.

Tudo corria mal.

Churchill percebeu então que as ilhas britânicas estavam em sério risco. O Primeiro-Ministro inglês, que tinha sido Ministro de Guerra, sabia que Inglaterra estava a correr sérios riscos de derrota. Abandonado por todos, sabia que a única esperança era a “Royal Navy”. A frota inglesa era considerada a mais poderosa do mundo, e ele sabia que a defesa da Grã-Bretanha e mais do que isso, a sua sobrevivência, dependiam directamente da sua Marinha.

A Inglaterra tinha assinado um tratado com a França que dizia que nenhum dos dois países podia render-se sem a aprovação do outro.

Quando Hitler invade a França e o Primeiro-Ministro francês se demite, o novo Governo decide rasgar o tratado que tinha feito com a Inglaterra e assinar o Armistício. No acordo que Hitler propõe ou impõe à França, diz que deixa o Sul de França desocupado, mas que a frota francesa tem que passar para as mãos dos alemães. Ao saber disto, Churchill fica aterrorizado. 

Se os navios franceses passassem para a posse dos alemães, juntando ainda à frota alemã e italiana, a marinha inglesa, por muito poderosa que fosse, nunca conseguiria fazer frente ás outras três. Contudo, foi prometido a Churchill, pelo Almirante Darlan, que caso os alemães tentassem apoderar-se dos navios franceses, estes iriam ser destruídos antes de serem entregues aos alemães. Darlan deu a sua palavra.No entanto, Churchill, sentindo-se traído pelos franceses, não acreditou. Prepara então a “Operação Catapulta”, que consistia em mandar navios britânicos a todos os portos onde estavam atracados navios franceses e reclamar para os britânicos a entrega dos navios. Por qualquer meio que fosse. Isso aconteceu com os navios que estavam na costa inglesa, com os navios em Alexandria, e com os navios que estavam na Argélia, pois eram nestes locais que estavam atracados os principais navios da frota francesa. Os navios franceses situados na costa inglesa foram entregues aos ingleses com alguma retaliação o que acabou por matar três britânicos e um francês. Os navios na Alexandria foram entregues sem retaliações, mas o maior problema deu-se na Argélia, em Mers el Kébir. Era aqui que se encontram os maiores navios franceses, o Dunquerque, Provence e o Bretagne. Churchill dá ordens expressas ao Almirante Somerville, para entregar um ultimato ao almirante francês Gensoul, que era Almirante de um dos maiores navios que estavam em Mers el Kébir. Este ultimato dava aos franceses três opções: 1- acompanhem os britânicos, com os navios, para continuarem a lutar contra os alemães 2 – Dirijam-se a um porto britânico com a menor tripulação possível. 3- Ou então dirijam-se para algum porto francês nas Caraíbas ou para os Estados Unidos. Caso recusassem alguma destas opções, os britânicos não teriam outra hipótese senão atacar os navios.

Este ultimato provocou uma onda de indignação. Gensoul sentiu-se ofendido e transmitiu a situação a Darlan que, furioso, lhe disse para ele empatar até que reforços franceses chegassem a Mers el Kébir. Os ingleses interceptaram-se esta mensagem e Churchill percebe que não tem outra hipótese senão dizer a Somerville para abrir fogo. O que se segue é absolutamente terrível. Os marinheiros franceses foram encurralados no porto, e os ingleses abriram indiscriminadamente, fogo. Os que ainda há poucas semanas tinham sido seus aliados estavam agora a atacá-los. No documentário que passou na RTP 2 e que motivou este texto, há um relato arrepiante de um marinheiro francês que conta como viu os seus companheiros sem membros, a morreram queimados, implorando pela morte. A água, supostamente a única salvação, “fervilhava” como se fosse uma fritadeira, e ele próprio não teve outra hipótese senão saltar para a água arriscando-se também a morrer queimado. O navio em que estava, Bretagne afundou-se vinte segundos depois. Os navios Provence, Dunquerque e Mogador foram reparados, e dirigiram-se para Toulon. Morreram mais de 1200 franceses, sem contar com os que ficaram feridos.

Churchill ao saber das baixas sentiu-se fisicamente doente, como os relatos contam. Tinha ainda outro problema. Como é que ia justificar as suas acções perante a Câmara dos Comuns? No discurso que fez disse que não podia arriscar que a frota francesa passasse para as mãos dos alemães. No discurso que fez, chorou e a Câmara dos Comuns levantou-se para aplaudir. Todos aprovaram. A imprensa, os deputados, os ingleses, e finalmente, Rosevelt percebeu que Churchill e a Inglaterra nunca desistiriam. Nunca cederiam. E o Presidente americano acedeu finalmente aos pedidos de Churchill e começou a ajudar a Grã-Bretanha.

Meses depois, quando os alemães foram apoderar-se dos restantes navios franceses, Darlan cumpriu a sua promessa. Os marinheiros franceses afundaram ou incapacitaram os navios para que os alemães não pudessem apropriar-se deles. Em resultado disto, o Almirante Darlan, mandou uma carta a Churchill dizendo que era aquela a prova de que o ataque de Mars el Kébir tinha sido completamente despropositado.

Churchill disse a História o iria julgar. E julgou, sem dúvida. E a História foi bastante simpática. Há, contudo, algo que é semelhante a todas as grandes personagens históricas. Todas elas são complexas. Todas elas são contraditórias. Todas elas tiveram os seus maus momentos, os seus erros. Como devemos então decidir quem admiramos? Se vamos buscar inspiração à História e se quase ninguém na História é completamente Bom, se toda a gente na História cometeu erros, como decidimos que determinada pessoa deve ser idolatrada e admirada? Não decidimos. Pura e simplesmente aprendemos. Aprendemos e tiramos lições com os erros deles e inspiramo-nos com os seus feitos e com a sua coragem. É assim que deve ser.