Um futuro negro

Lembro-me do princípio da pandemia (parece que foi há anos). Lembro-me de, ingenuamente, esperar que a tragédia global que se adivinhava tivesse, pelo menos, o condão de funcionar como um “click” para impulsionar a raça humana para uns degraus acima na escalada da evolução. Sei que não fui o único.

Em termos políticos, parecia haver a disponibilidade para acertar agulhas e criar uma harmonização tranquila em relação ao que era importante, atenuando diferenças ideológicas e abrindo caminho para, mais tarde, aproximar e resolver outros aspectos onde a clivagem fosse mais acentuada.

Mas cedo, essa quimera começou a desmoronar-se. Primeiro, foi a manifesta e ostensiva incompetência governamental. As informações eram imprecisas e contraditórias. As instruções com excepção do “fiquem em casa” eram incompreensíveis e ilógicas. O governo e a AR entraram em “diarreia” legislativa que além de confusa pela sua extensão, era confusa pelo seu conteúdo e pela rapidez com que ia sendo, sucessiva e infinitamente, alterada. Pior, começava-se a perceber que havia uma enorme diferença entre o que se anunciava e o que, efectivamente, acontecia. Mas, ainda assim, o sentimento generoso de um Povo farto de quezílias, parecia caminhar mais para a desculpabilização (coitados, fazem o que podem; nunca ninguém passou por isto). E aceitaram, pacífica e ordeiramente, a maior restrição de direitos, pelo menos, deste século.

Só que rapidamente se percebeu que os interesses do governo e dos seus aliados, iam muito além da ingénua predisposição do Povo Português para colaborar. O objectivo surgia inequívoco. Brutal, ostensivo e agressivo. A intenção era, pura e simplesmente, governar sem escrutínio e sem contraditório.

E houve um momento determinante: as comemorações do 25 de Abril. Foi aí que à custa de quem, justa e legitimamente, se indignou, pudemos perceber a enorme diferença entre o que se apregoava e a crua realidade. Percebeu-se que nem todas as agendas políticas tinham cedido à emergência nacional. E a partir daí, foi o descalabro. O aumento exponencial das divisões ideológicas, a marcação de notícias por uma Comunicação Social arregimentada, a omissão propositada e dolosa quer da incompetência quer da verdadeira situação da nossa economia, o chamamento à colação e, consequentemente, a exponenciação de causas não urgentes, mas que sustentam algumas agendas ideológicas, etc.

Por isso, talvez seja o momento de elencar alguns factos que, quer se goste ou não, parecem irrefutáveis nesta altura de desconfinamento:

A) não houve qualquer milagre português na gestão da pandemia; somos, neste momento, o 15º País no mundo com mais mortes por milhão de habitantes, o 2º País da UE com mais casos novos na última semana, etc.; isto num País que só tem fronteiras terrestres com Espanha;

B) Estamos perto, muito perto da bancarrota cuja efectivação apenas não será certa no caso da UE realmente enviar para aqui “paletes” de dinheiro; os milhares de milhões que foram anunciados para a nossa economia, afinal não eram mesmo milhares de milhões, isto é, se não reduzirmos a nossa economia ao Novo Banco e à TAP (que mais não são que consequências desastrosas de decisões do 1º governo de Costa);

C) Há um “status quo” de interesses que apesar de, aparentemente, decapitado da sua mais visível cabeça (Ricardo Salgado) sobreviveu à Primavera Passista e regenerou-se muito mais forte e insidioso à custa, predominantemente, da ajuda dos seus dois mais bem colocados funcionários, Marcelo e Costa; este “status quo” ri-se e prospera nas divisões ideológicas que distraem o País;

D) Temos um PR que acreditávamos poder ser o garante de alguma justiça no equilíbrio da balança política, mas que traíu, repito, traíu sem qualquer aparente remorso o eleitorado que o elegeu, privilegiando sem pudor os que contra ele votaram; para isto mais valia termos votado na Maria de Belém (isto, pessoalmente, é uma figura de expressão porque, orgulhosamente, não votei Marcelo);

E) Temos uma esquerda psicopata que recorrentemente não tem qualquer pejo em agir de má-fé (aliás, estou sinceramente convencido que ser de esquerda já pressupõe uma perturbação psíquica, nomeadamente, ao nível da essencial aspiração à autonomia e emancipação individual); despudoradamente confunde o “à vontade” que o sistema democrático concede com o “à vontadinha” que por mírifica superioridade moral (só eles não percebem que é exactamente ao contrário) acham que merecem; o abuso de privilégios excepcionais durante esta pandemia, além de insultuoso foi sintomático;

F) O Centro e a Direita recusam medrosamente qualquer tipo de confrontação e remetem-se ao cobarde ‘agarrem-me senão vou-me a eles”, principalmente nas redes sociais (o que é, mais ou menos, o meu próprio caso); com isto, deixam o espaço para ineptos como o Ventura brilharem e angariarem eleitorado; é a grande pecha do Centro e da Direita, a necessidade avassaladora de um Líder (também não deixa de ser uma deformação mental), a incapacidade de se mobilizar sem ser sob a égide de alguém que os comande.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Someone is going in the opposite direction to reality.
    But everyone is free to see hell in the first setback

  2. POIS! says:

    Pois estou preplexo!

    Estranhei a expressão, porque não dei por nada dessa “Primavera Passista” . Quando foi?

    Nem consigo ver de onde vem a expressão. De passeio? Passadeira? Passado? Passa?

    Ah! Ah! Ah! Sim, rio! Rio porque auguro para a centrocoisa um futuro montenegro. Haverá choro e rangel de dentes.


  3. seria diferente se a “primavera” passista (há pessoas com jeito ara o humor negro ou sofrem ressabiamento/desilusão crónica…) estivesse no poder? Quase de certeza que a culpa da recessão da pandemia era dos portugueses, que apanharam Cobid para lá das suas possibilidades…. e os modelos do equiparado a catedrático serviriam de alguma coisa?

  4. Paulo Marques says:

    Desconto em saladas russas, esta semana, só no Pingo Doce.

  5. Poeira nos olhos says:

    “ …
    A) não houve qualquer milagre português na gestão da pandemia; somos, neste momento, o 15º País no mundo com mais mortes por milhão de habitantes, o 2º País da UE com mais casos novos na última semana, etc.; isto num País que só tem fronteiras terrestres com Espanha;”

    Convinha talvez antes de mandar poeira para os olhos dos mais incautos, quem são os outros países, do 1.° ao 14.°, com quem nos comparamos.
    Pelo seu raciocínio, a Grã Bretanha, não tendo fronteiras terrestres com nenhum outro Estado, nem sequer devia ter casos. Dessa forma, não é com toda a probabilidade um dos países com maior número de mortos por milhão de habitantes.
    E que tal a Suécia? País que faz fronteira com a Noruega, e lá nos confins da Lapónia, com a Finlândia. Têm o triplo dos nossos óbitos.
    A Bélgica, a França, a Itália, a Espanha, a Holanda, os EUA, todos estes países estão à nossa frente, nesse fatídico ranking.


  6. Adoro aqueles “gajos” especialistas no totobola à 2 feira. Gramo aqueles chico-espertos que escrevem bem-mal sobre tudo e sobre todos porque lhe alivia o Helicobacter-pylori. Deleito-me com estes corvos de bico afiado que sofrem de azia permanente e eu é que tenho de lhes aturar a indisposição de meia em meia hora. Chega de Chegas de ocasião incapazes de construir uma parede com dois tijolos, mas se sentem capazes de procurar destruir quem teve a ousadia de governar e construir um país. Suma-se! Cale-se! Agradecemos.