Testes Covid

Sandra Capela*

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Pandemia de Covid 19? Ou será outra coisa?

Sandra Capela*

Entrevista ao Dr. Fernando Nobre por Rui Unas:
“O mundo está a ser flagelado, mas não é pelo vírus”.

 

A vacina muçulmana


Os dois cientistas por trás da vacina da Pfizer são filhos de imigrantes turcos na Alemanha. Ugur Sahin e Özlem Türeci, da BioNtech, começaram a estudar o vírus ainda a Europa não sabia o que a esperava, em meados de Janeiro, e são os parceiros da farmacêutica que, aparentemente, está mais próxima de disponibilizar a tão ansiada vacina.

Sublinho a ironia de sermos “salvos” da pandemia do século por filhos de imigrantes, ainda por cima muçulmanos, enquanto outros, com menos sorte, se afogam no Mediterrâneo, numa outra pandemia sem fim. Ou são perseguidos e espancados por grupos de extrema-direita. Ou são estigmatizados e enfiados no mesmo saco que a minoria terrorista. Ou são usados como arma de arremesso por demagogos oportunistas com agendas totalitárias. Não sei quanto a vós, mas eu vi aqui um belo raio de sol neste 2020 sombrio. Quanto à extrema-direita xenófoba e racista, bem, é lidar.

Costa, a anedota

A gestão política, e política é a palavra certa, que Costa tem aplicado à pandemia é um exemplo escolástico do chamado atirar areia para os olhos.

No fim-de-semana dos finados, assistimos àquele cerco cheio que excepções, que acabou por se reduzir à proibição de se visitar a família.

Nessa sexta-feira, o circo começou logo com uma fila de 17 Km nos acessos ao Porto. Sensibilizar os condutores e, naturalmente, as audiências dos folhetins noticiosos.

A partir de amanhã, a palhaçada atinge outro marco. Recolher obrigatório entre as 23h e as 5h de segunda a sexta e a começar às 13h ao fim-de-semana. Excepções a serem cozinhadas.

Como se sabe, o grosso dos contágios ocorre noite fora, quando já não se pode comprar bebidas alcoólicas e com as discotecas e bares transformados em pastelarias. Não é nas escolas, onde os miúdos se misturam uns com os outros, levando o contágio até à restante família. Nem sequer nos transportes públicos sobrelotados, onde a distância social, no reino das sardinhas enlatadas, é uma anedota. E muito menos no trabalho do dia-a-dia, como a construção civil, onde o uso das ferramentas e a proximidade é o que tem que ser.

Este exercício tem um fim óbvio. Parecer que algo está a ser feito. O capítulo segundo da série Terás Que Mostrar A App do Covid Instalada No Telemóvel.

Livre arbítrio e imposição coerciva: descubra as diferenças


Faz-me imensa confusão, esta comparação disparatada entre a possibilidade do governo nos enfiar uma app telefone adentro, transformando agentes de segurança em monitorizadores de telemóveis, e os dados que entregamos voluntariamente aos Facebooques da vida. Será assim tão difícil de perceber a diferença entre uma imposição coerciva e uma decisão pessoal e voluntária?

Sejamos sérios: se eu, ou qualquer um de vocês, decide entregar informação pessoal a uma plataforma digital, bem ou mal, é de uma escolha livre que se trata. Uma escolha que pode ser revertida a qualquer momento. Se um governo decide impor uma aplicação, fazendo uso de multas e de patrulhamento policial, é o espírito da democracia que está a ser posto em causa. São os nossos direitos, liberdades e garantias que estão na prancha. [Read more…]

A bolsa ou a vida?

Num mundo em que a econometria é a fita métrica de tudo, nada pode estar fora da economia, tudo é PIB, crescimento e outras virtudes absolutas. A economia, já se sabe, passou a viver convencida de que é uma ciência exacta, esquecendo-se das suas raízes humanas e sociais. Aliás, deixou de se falar em sociedade, porque tudo é economia.

Nesta visão dominante, o que dá vida à economia são as empresas. Tudo o resto é, na prática, considerado um peso que as empresas, estoicamente, arrastam às costas. Deste modo, poderemos dizer que a sociedade precisa de serviços públicos, como escolas ou hospitais; a economia diz-nos que os serviços públicos são parasitas (a não ser que escolas e hospitais sejam privados ou privatizados – aí, passam a ser economia, mesmo que não sirvam uma grande parte da sociedade).

Viver em pandemia ou com pandemia acrescentou problemas às certezas absolutas que subordinam tudo à economia. Se é verdade que o confinamento afecta a economia, não é menos verdade que o vírus afecta a sociedade (e também a economia). [Read more…]

Durão Barroso, vacinas e marxismo cultural

É o exemplo acabado de um político de carreira. Quando batia, na década de 70, doutrinou-se em marxismo cultural e foi dirigente do MRPP, extrema-esquerda a sério, maoista. Na década de 80, tornou-se social-democrata, no sentido PPE da coisa, e rapidamente chegou ao governo de Cavaco Silva. No início dos 90 já era ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministério perfeito para fazer amigos e entregar currículos, e por ali ficou, sereno, até ao final do cavaquismo.

Uns anos de oposição depois, chegou a primeiro-ministro, mas por curto período de tempo. A sua guerra era outra, e foi como mordomo da fabricação de uma que se lançou numa imparável carreira internacional. Começou na Comissão Europeia, de fraca memória, que liderou durante o desastre que foi a resposta da União à crise das dívidas soberanas, essa que se revelou um enorme sucesso de vendas para a entidade empregadora que se seguiu na vida de Durão Barroso: o Goldman Sachs. [Read more…]

E a Festa do Avante, pá?

Num ápice, a Festa do Avante deixou de ser tema. E só voltará a sê-lo, apenas e só, caso seja identificada alguma cadeia de contágio que possa ser comprovadamente associada à festa comunista. E porque deixou a Festa do Avante de ser tema, assim, num ápice, depois de meses a fazer manchetes atrás de manchetes, a alimentar indignações de Rui Rio e outros notáveis militantes do PSD e do CDS-PP, para não falar na fachosfera, para gáudio de uma certa turba embrutecida? Porque o Santuário de Fátima conseguiu fazer incomparavelmente pior que o PCP, que, apesar de tudo – e estou perfeitamente à vontade para o dizer, visto que me opus à realização da Festa do Avante – foi exímio a organizar a sua festa. Já o Santuário de Fátima meteu tanta água, no passado 13 de Setembro, que, a meio das cerimónias, viu-se obrigado a impedir a entrada de fiéis no recinto do Santuário, que se acumularam no exterior, gerando mais um foco de confusão e de potencial contágio. [Read more…]

Cinco questões sobre a celebração do 13 de Setembro, em Fátima

  1. Marcelo Rebelo de Sousa já criticou a DGS por não apresentar antecipadamente as regras sanitárias para a realização deste ajuntamento de milhares, tal como fez a propósito da Festa do Avante?
  2. Qual iniciativa garante melhor o distanciamento social entre os seus participantes: o Avante/PCP ou esta peregrinação/Santuário de Fátima?

  3. Qual é a área disponível por peregrino, considerando a área total do recinto do Santuário? É inferior ou superior à verificada no recinto da Festa do Avante? [Read more…]

QAnon: o pináculo da demência neofascista

Entretanto, numa manifestação de teóricos da conspiração contra o uso de máscaras, seguidores da seita QAnon clamam pela dupla Putin-Trump, que os salvará do deep state, das vacinas contra o sarampo, do marxismo cultural e, claro, de Satanás. São chanfrados? Sim, são chanfrados. E isso torna-os ainda mais perigosos. Já tínhamos os mujahedines, os telecurandeiros do dízimo e agora estes. Em princípio, é desta que o mundo acaba.

Segundo estas raríssimas espécies, “A Tempestade” está para breve. E o que é “A Tempestade”, perguntam vocês? É o dia em que o exército tomará o país de assalto, durante o qual milhares de membros da cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás serão presos e sumariamente executados, e a Terra será salva. Não é um Nineteen Eighty-Four, mas dava um bom argumento para uma série televisiva. A Netflix que abra a pestana. [Read more…]

Avante, camarada Teresa Guilherme!

O Avante em tempos de Covid

Quero começar por dizer que, da parte que me toca, sou tão favorável à realização da Festa do Avante como a favor das praias a abarrotar sem controle algum, das portas escancaradas ao turismo no Algarve, com os seus holandeses e ingleses ela semear covid-19 no Algarve e o aeroporto de Faro a rebentar pelas costuras, das peregrinações em Fátima, dos concertos no Palácio de Cristal, das manifestações contra o racismo e a favor dele, ou até de algumas enchentes verificadas nas feiras do livro do Porto e Lisboa, para não falar nos comícios do Chega, onde a malta da extrema-direita, que ainda olha para o problema pela óptica bolsonariana da “gripezinha”, faz questão de se apresentar sem máscaras. Isto para vos dizer que, na minha opinião, qualquer organização, de qualquer natureza, que dê origem a grandes ajuntamentos não deveria ser permitida. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (9)

Sótão

 

Ando há muitos anos na construção civil, gosto de participar na construção de prédios, gosto de ver nascer apartamentos, imaginar que ali vão viver pessoas, comparar os espaços vazios com a decoração escolhida e confirmar que somos todos diferentes ou que somos previsíveis. Conheço os prédios melhor do que as pessoas que lá vivem, conheço cada canto dos apartamentos.

Este sótão, por exemplo. Ninguém vem aqui. É preciso saber que há uma escada escondida que é preciso puxar, fixar, subir sem apoios, realizar acrobacias que já não são para todos. Mesmo eu, que ainda não sou propriamente velho, sofri para chegar aqui.

Confesso que também tenho chaves que abrem as portas dos apartamentos. Muitas vezes, entro nas casas, quando não está ninguém. Também entro quando sei que as pessoas têm um sono mais profundo. Eu sei que seria o suficiente para ir preso, mas juro que nunca roubei nada, juro que nunca me aproveitei de ninguém. Talvez seja mais correcto dizer que não roubei nada que faça falta ou que seja material. Sim, tiro uma ou outra fotografia, anoto frases nuns cadernos velhos, colecciono sons que vou gravando, guardo pequenos vídeos.

Às vezes, faço consertos que não dêem muito nas vistas, que é uma maneira de pagar o espectáculo da vida alheia. Já lhe aconteceu a torradeira avariar de manhã e funcionar à tarde ou a chave entrar melhor numa fechadura que só estava a precisar de um bocadinho de óleo (ou de azeite, como me ensinou o meu avô, que era marceneiro)? Posso ter sido eu. Não tem nada que agradecer.

Não preciso de arrendar ou de comprar casa. Vou mudando de sótão. Um colchão, um fogareiro eléctrico, umas conservas e aqui está o porto de abrigo, a torre de vigia, a vida dos outros como minha.

Tenho esta mania desde pequeno: ver sem ser visto. Em casa, gostava de me esconder dos meus pais e compreendi que é tanto o que escondemos que só podemos ser verdadeiramente conhecidos por quem nos espiar. Há coisas que preferia não ter sabido e outras que me foram muito úteis.

Nessa altura, enquanto me escondia em casa, mostrava-me na rua: contava aos meus amigos as minhas façanhas de espionagem caseira. Quando me lembro dessas narrativas, apercebo-me, no entanto, de que não lhes contava verdadeiramente aquilo que via, preferindo romancear. Curioso: tinha acesso à verdade e preferia contar mentiras.

Depois de ter participado na construção deste prédio, instalei-me, então, aqui, neste sótão, como já disse. Quando o vírus se tomou conta do mundo, já eu estava confinado a maior parte do tempo. É certo que passei a ter o cuidado de me desinfectar e de usar máscara quando passeava pelo prédio, porque não queria contaminar ninguém.

O facto de toda a gente passar mais tempo em casa também fez com que redobrasse a minha invisibilidade, aumentasse o silêncio. Pude, então, ver ainda mais, conhecer melhor todos os vizinhos. Enchi os cadernos de vícios e de virtudes, fragmentos, pedaços, fatias de pessoas, juntei memórias e impressões, emocionei-me com gestos, senti vontade de intervir, mas isso está vedado a fantasmas ou a viajantes do tempo.

Não se passa impunemente por uma quarentena, mesmo aqueles que, como eu, já a praticavam. Senti-me outra vez criança e preciso de contar, de dar forma a estes apontamentos, de mostrar as pessoas de quem me escondi, as pessoas que se escondem.

São tantas as histórias que tenho pena de não ter contado: Beto Estrela, o artista pimba que obrigou a rua a ouvir o grande sucesso “Cor no cotovelo”; a mulher com fama de ninfomaníaca e tanta falta de proveito; o pintor impedido de ir ao estúdio que descarregou as tintas e as ideias na parede de casa e que continuou pelo interior do prédio; o homem que descobriu que era marido e pai, depois de estar adormecido tantos anos. Tudo nos obriga a esconder ou a revelar qualquer coisa.

Decidi escrever estas oito histórias. Se me perguntarem se são verdadeiras, não saberei responder-vos. O prédio existe, os apartamentos também, as pessoas de certeza.

Estou de saída. Há outra obra a começar. Meto tudo na mochila e sacudo o pó. Olho para as calças. Nunca se consegue sacudir o pó todo.

Oito apartamentos e um sótão (8)

Quarto esquerdo

 

Depois de passarmos a porta de entrada, estamos no hall. À esquerda, encostado à parede, um armário antigo, castanho-escuro, baixo, com uma peça de cerâmica tão moderna que parece fazer gala da sua inutilidade. À direita, um bengaleiro que parece uma árvore seca.

Avançando uns passos e virando à esquerda, entramos na sala. Não é muito grande, quadrada. A mesa e as seis cadeiras de palhinha estão em bom estado. Na parede em frente, um aparador antigo: dois potes pequenos e várias molduras com fotografias.

Vale a pena, vale sempre a pena, ver as fotografias, especialmente quando estamos à vontade, sem a presença dos retratados. Da esquerda para a direita, há uma ordem que vai de tempos mais recentes para o passado, das cores até ao preto-e-branco. Aqui, está uma fotografia muito recente de três senhores de idade. Um deles é aquele que podemos ver, nesta mesma sala, sentado no sofá, morto. Outra fotografia com os mesmos homens um pouco mais novos, numa esplanada, fazendo um brinde para a câmara, sorrindo à ignorância da morte, sem perder tempo a pensar se será a última vez que brindam, como se fizesse sentido uma pessoa estar sempre a sorrir e a pensar que poderá ser a última vez. A fotografia mais antiga é a de um homem de chapéu, a olhar para uma distância.

Se nos sentarmos no sofá, ficaremos, então, ao lado do morto. O senhor Aguiar está morto. Foi há pouco tempo, estávamos nós a entrar em casa e ele a morrer. A televisão está desligada e a mão do senhor Aguiar está perto do comando. Esta não foi, portanto, a última vez que viu televisão. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (7)

Quarto direito

 

O senhor Joaquim Figueiredo e a sua senhora, Maria como é evidente, já vivem no prédio há muitos anos, compraram o apartamento ainda na planta, como gostavam de lembrar, repetindo sempre as frases um do outro, para ocasional irritação de ambos, porque só o outro é que imita.

Tantos anos de convivência fizeram com que a senhora, mais faladora, contasse as histórias todas, incluindo aquelas em que não participara, como a passagem do marido pela Guerra Colonial. Maria descrevia, então, em pormenor, o cheiro a napalm, as balas tracejantes, as minas nas picadas e as idas às putas, porque a guerra é a guerra e um homem não é de ferro. O senhor Joaquim, nesta parte da narrativa, tinha sempre um sorriso entre o saudoso e o sádico, o que lhe valia invariavelmente um empurrão vagamente terno da mulher.

Estas histórias já estavam a ser contadas aos netos, ainda que a palavra “putas” passasse a “meninas”. A filha já tinha desistido de pedir aos pais que censurassem esta parte e tentava reprimir os pedidos insistentes dos netos para que a avó contasse as aventuras sexuais do avô, que, na realidade, eram mais sexuais do que aventuras.

O casamento já ia em mais de cinquenta anos, um contrato rigorosamente cumprido, um edifício antigo, com alguns remendos, mas sólido, como são os casamentos que não eram propriamente por amor, mas que acabavam numa convivência feita de alguma necessidade, de muitos deveres e um pouco de ternura muito disfarçada.

Certo dia, o senhor Joaquim sentiu-se fraco, parecia ter alguma temperatura, dificuldades em respirar, tudo muito parecido com os sintomas provocados pelo vírus. Com o agravamento, foi levado para o hospital, mostrando a fragilidade assustada dos velhos quando se despediu da mulher. Depois de algumas complicações, Joaquim Figueiredo morria, um número das estatísticas.

Maria ficou sozinha em casa, recusando o convite da filha, que já tinha um quarto para a mãe. “Ainda estou bem. Quando sair daqui, é para ir para um lar.” Aceitou que a filha passasse a deixar-lhe as compras à porta e divertia-se a dizer adeus aos netos, da varanda, quando vinham visitá-la aos fins-de-semana.

O tempo passou a correr ainda mais devagar. Sem o marido, deixava de ter refeições para cozinhar. Começou a investigar os caixotes e as gavetas de Joaquim, divertindo-se com álbuns de fotografias, viajando a um passado em que se faziam poses de estrela de cinema, o que a levava a elogiar-se a si própria: “Eras bem jeitosa, minha menina!”

Numa dessas incursões a um mundo de papéis amarelecidos, de facturas desnecessárias ou de fotografias a sépia, descobriu um molho de cartas embrulhadas por um atilho. Começou a lê-las e descobriu que o marido tivera um caso durante anos com uma mulher que tinha conhecido em Lisboa. O romance fora prolongado e tórrido, as cartas continham descrições e memórias picantes, momentos intensos, Maria não merecia sequer uma referência. Precisava de se vingar e resolveu ligar à filha:

  • Estou. Olha, descobri umas cartas que o teu pai me escreveu. Vou só ler-te algumas partes. Ora ouve.

Oito apartamentos e um sótão (6)

Terceiro esquerdo

 

Vou matá-lo, caralho, eu vou matá-lo, não vou ficar fechado aqui em casa com um filho da puta de um bêbado que ainda acha que me pode bater. Ou fujo, que se foda o vírus, ter um pai assim é que é um vírus e não há vacina para esta merda.

A minha mãe pirou-se desta merda, não quis saber, puta do caralho. Eu, se fosse a ela, também fugia, não sei porque é que não fujo, há tanta gente que devia fugir e fica e outros que deviam ficar e fogem. Anos desta merda!

Já na outra casa, o meu pai metia-se nos copos e gastava tanto dinheiro em vinho que tem uma cirrose. É tão bêbado que nem chega a saber que é bêbado. Pelo meio, batia em toda a gente, porque tinha mau vinho ou porque era mau e estava cheio de vinho, um gajo não chega a saber. A minha mãe ainda pegou numa faca, mas não conseguiu fazer o que tinha a fazer. Pôs-se a chorar, ainda foi pior, apanhou mais. A puta da cirrose é que não há maneira de o levar. O gajo é tão ruim que até pode apanhar quarenta vírus que não morre. Mato-o eu, filho da puta. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (5)

Terceiro direito

João e Maria já tinham tudo combinado para se divorciarem, quando o vírus os obrigou a adiar os planos, fechando-os dentro da mesma casa durante mais uns tempos. A família de Maria viu nisso um sinal de que Deus queria a reconciliação. A mãe de João, viúva recente, também louvara a quarentena, porque tinha uma verdadeira paixão pela nora, ao ponto de culpar o filho pelo divórcio – talvez tudo isto o fizesse pensar, talvez se perdoassem um ao outro, porque há muito quem pense que um divórcio resulta necessariamente de uma culpa.

Depois de um namoro apaixonado, o casamento fora um passo tão claro como um degrau. Subiram juntos. Ora, o casamento, como se sabe, é mortal, porque mata ou porque morre ou porque todos temos de morrer. Explicar o fim de um casamento pode ser tão simples como comentar um jogo de futebol depois de ter terminado. Nem sempre é assim, no entanto.

No caso de João e Maria, houve como que um desgaste de material, um bocado de estuque que caiu, um ligeiro problema de humidade no canto mais fundo do corredor, pequenos desencantos que vão alastrando até atingir os alicerces. Os especialistas e os autores de frases ou de livros de auto-ajuda diriam que tinha de ser assim, porque não estavam feitos um para o outro ou porque não souberam trabalhar a relação, criar o diálogo, manter a chama viva. Todas essas frases foram ditas por alguns amigos e, por momentos, chegaram a ser sentidas por ambos.

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Oito apartamentos e um sótão (4)

Segundo esquerdo

 

Azeredo Conceição sentira, desde jovem, o chamamento para o exercício de administrador de condomínio. Sempre estivera acima do comum dos condóminos, como se tivesse sido concebido sem mácula por um espírito santo do imobiliário para ser um senhor feudal ungido por Deus para comandar os vizinhos. Tudo o que se passava no prédio era da sua competência e a incompetência era tudo o que caracterizava os outros. Não havia nada que ficasse imune à sua opinião – era-lhe impossível não comentar o facto de alguém se esquecer de limpar os pés à entrada do prédio, batia à porta das outras casas para recomendar que recolhessem a roupa do estendal, criticava a permanência de um guarda-sol num lugar de garagem por constituir um atentado à decoração do imóvel e exigia que todos respeitassem o horário das suas sestas de fim-de-semana, desligando televisões e calando crianças. Para reforçar a sua importância, Azeredo não tinha mulher, tinha esposa, e a sua filha haveria de ser doutora, estatuto reservado a alguns médicos.

Quando o vírus inventou o confinamento, Azeredo viu aí claramente visto um sinal de que o mundo, ou seja, o condomínio, precisava da sua mão forte e urdiu um plano completo que iria comunicar brevemente ao condomínio, isto é, ao mundo. Passou a usar a palavra “pandemia” cerca de dez vezes por hora (um condómino mais atrevido fizera mesmo referência a isso – “Ó senhor Azeredo, consigo, a pandemia anda a dez à hora!”, numa piada que só era entendida por outros dois vizinhos, o que Azeredo entendia como um desrespeito à sua autoridade). No computador, com a ajuda da esposa e da futura doutora, concebeu planos, decretos e mapas, exigindo aos condóminos comportamentos morais irrepreensíveis, criando formulários para comunicações de saídas e entradas e marcando no chão os caminhos de ida e volta que permitiriam manter o distanciamento social. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (3)

Segundo direito

A meio de uma linha de programação, na secretária enorme, com três ecrãs também enormes, ao fim de uma noite ininterrupta de trabalho, José recebeu uma notificação com palavras fora de uso: quarentena, confinamento. A palavra a que estava mais habituado era ‘vírus’. Segundo as notícias, as pessoas deveriam evitar ao máximo sair de casa, o que, no seu caso, era uma segunda natureza. Quando, mais tarde, soube que, durante um fim-de-semana, não seria permitido viajar para fora do concelho, lembrou-se de que já não saía do concelho há mais de um ano. Levantou-se, tão perplexo quanto possível, e foi espreitar a varanda, para perceber que já não se recordava da última vez que lá tinha estado.

Teletrabalho era só trabalho, contratos assinados digitalmente, tarefas com prazo de entrega, muito raramente um telefonema. As refeições e as compras eram, há muito tempo, embrulhos e sacos entregues em casa, papéis e plásticos que se acumulavam na cozinha e no quarto, até ao dia em que decidia, quase sem razão, sair para despejar tudo no lixo, contrariado por não haver um serviço que tratasse desse assunto.

Sair de casa era um risco, porque podia cruzar-se com um vizinho e responder a um cumprimento. Tinha-se quase desabituado de cumprimentar pessoas: os seus conhecidos eram nomes na caixa de e-mail ou nicks nos jogos online. Quando descobrira que a sua vida encaixava no estereótipo do informático, sentiu-se ainda mais tranquilo. [Read more…]

Oito apartamentos um sótão (2)

Primeiro esquerdo

E agora como vão ser as aulas e as avaliações e a vida dos miúdos e a nossa, tenho de impedir que o vírus os impeça de aprender, à distância e a distância, vou fazer tudo para continuar próxima deles, nunca precisaram tanto de mim, organizar arrumar pôr em dia usar a noite, amor descobri uma padaria que traz pão a casa pão com sementes, querido olha esta receita para fazer pão em casa que descobri num tutorial, comprar desinfectante e luvas e máscara, não me posso esquecer das conferências de imprensa sobre a pandemia, sexo talvez mais daqui a bocado também feito em casa, manter a ligação com a família ligar aos meus pais e aos nossos sobrinhos por zoom por skype, cheiras tão bem hoje, a criação de um blogue porque há tanto para escrever e tanta vaidade à espera de elogios, o livro adiado que é agora, as séries de televisão que parecem livros adiados, as aulas de dança da miúda com a professora aos saltos e aos gritos num quadrado do computador, tenho de aprender a criar e a editar vídeos aprender já tudo o que não sabia e ter direito a queixar-me de não ter tempo de ter ainda menos tempo, vou ter de me arranjar que isto não é razão para nos desleixarmos não posso aparecer aos alunos de qualquer maneira, quando a menina estiver a dormir, que vontade de descansar que sono que preguiça parece que ainda é pior, a culpa é minha que já me devia ter preparado para isto, a acção de formação sobre as novas tecnologias, as velhas tecnologias na elaboração do puré já nem me lembrava de que tinha um passevite, um programa de exercícios para emagrecer depois dos bolos que todos que vou fazer, [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (1)

Primeiro direito

 

O T2 tinha encolhido há dois anos. Num quarto, o casal; noutro quarto, os dois rapazes; a sala era ocupada por uma pessoa: o “meu pai”, o “teu pai”, o “avô”. Quando este enviuvara, o filho e a nora insistiram que viesse lá para casa, ele que não, eles que tinha de ser, ele que não fazia sentido, eles que não ficava ali bem sozinho. A dado momento, o viúvo considerou que já tinha recusado vezes suficientes para poder aceitar, e o filho e a nora ficaram secretamente revoltados com a aceitação, porque já estavam quase a poder desistir, irritados por terem conseguido vencer uma negociação que queriam perder. De qualquer modo, todos disseram quase ao mesmo tempo que aquilo era provisório.

A coabitação começara razoavelmente, as boas intenções ainda não eram um inferno, a novidade era divertida, o meu pai, o teu pai e o avô não era má pessoa. Repetia, divertido, as mesmas anedotas que já tinha repetido e todos faziam de conta de que se riam pela primeira vez, num pacto de ruído que não deixava de ser divertido. De vez em quando, contava uma história de que o filho não se lembrava. Ocasionalmente, trazia pão, bolos, pêssegos que lhe faziam lembrar a infância, um ou outro frango de churrasco.

Um dia, a nora apercebeu-se de que a casa toda cheirava a hálito de velho, como se, saindo da boca do sogro, tivesse ocupado a sala, avançado pela cozinha, estendendo-se pelo corredor e pelos quartos como uma presença viscosa, um nevoeiro denso. O filho começou a sentir-se irritado pela tosse matinal do pai, que ouvia cada vez mais distintamente, apesar de o quarto ser o mais distante da sala. Os netos foram desistindo de ver televisão na sala, quando se aperceberam de que o avô começava a bocejar cada vez mais alto a partir das dez da noite. [Read more…]

O Estado de Direito não é negociável, senhor primeiro-ministro

É evidente e inquestionável, pelo menos para mim, que o respeito absoluto pelo Estado de Direito tem obrigatoriamente que ser condição sine que non, não para ter acesso ao bailout pandémico da UE, mas para integrar o projecto europeu. É até mais importante, mais indispensável para a pouca cola que ainda une este espaço de democracia liberal, onde a liberdade de expressão, o direito a exercer jornalismo livre ou a possibilidade de pertencer a movimentos associativos e sindicais são direitos invioláveis e inalienáveis. Não é coisa pouca, e basta olhar à nossa volta para perceber isso mesmo. Vivemos numa bolha de privilégio. Um privilégio pelo qual devemos lutar. Por nós e pela sua expansão a outros povos.

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A transferência de Cristina Ferreira e o capitalismo subsídio-dependente

CFe

Foto: Expresso

A Plural Entertainment, empresa de produção audiovisual detida pela Media Capital, dona da TVI e da Rádio Comercial, entrou em lay-off em Abril, situação que se prolongou por dois meses. Escusado será dizer que, durante esse período de tempo, foram os contribuintes portugueses quem garantiu os salários dos trabalhadores da Plural – que perderam, em média, 30% dos seus rendimentos – a que acrescem 3,3 milhões de euros do pacote de 15 milhões que o governo destinou para apoiar a comunicação social com compra antecipada de publicidade. [Read more…]

A dúvida

A leitura de uma entrevista ao historiador escocês Neill Lochery a propósito do seu novo livro “Porto, a entrada para o Mundo”, provocou-me uma enorme dúvida, daquelas que ficarão eternas porque assentam no pressuposto “e se…”.

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Coronabus-19

cobus

Não estamos todos no mesmo barco. Nunca estivemos. Alguns de nós estão no autocarro, à pinha, e não têm alternativa. Outros, os tais que escreveram uma carta a “pedir” ao governo para acelerar o processo de desconfinamento, à qual Costa acedeu caninanente, não precisam de transportes públicos.

Sobre o atribulado processo de desconfinamento, o oportunismo político e as várias narrativas que proliferam

1) Tal como muitos de nós previam, o desconfinamento, em grande parte forçado pela elite económica, com o alto contributo da obediência canina do governo, levou a que muitas pessoas baixassem a guarda, convencidas de que a pandemia tinha chegado ao fim. Não só não chegou, como pode perfeitamente piorar e colocar o país numa situação mais crítica do que a inicial, com custos ainda mais elevados para a saúde pública, para a economia e para a imagem de Portugal no exterior.

2) Por todo o lado, mas com especial incidência nas regiões de Lisboa e Algarve, multiplicam-se os ajuntamentos, desde festas ilegais a encontros “espontâneos” junto de bombas de gasolina ou zonas de divertimento nocturno, não esquecendo algumas manifestações, mais ou menos inevitáveis, mais ou menos desnecessárias, mas também cerimónias religiosas em Fátima, que foram já palco de pelo menos uma concentração de algumas centenas de pessoas, e onde hoje foi reportado um pequeno foco de contágio. Mas a Festa do Avante, que ainda não aconteceu – e que, a meu ver, não devia acontecer – é o único problema que inquieta algumas pessoas. Percebe-se bem porquê. [Read more…]

Nacional-parolismo em tempos de covid

PIC

Lamento ser o desmancha-prazeres, mas estou convencido que fomos a terceira ou quarta escolha para receber a final da Liga dos Campeões. Não deve haver muito quem se queira meter nisto, neste momento. E acrescento que isto pode correr duplamente mal. Por um lado, porque a zona de Lisboa está a braços com uma situação muito delicada, no que à propagação do vírus diz respeito. Por outro, porque se algo correr mal, nomeadamente a nível de contágios, os holofotes que chegarão de todo o mundo para cobrir a bola, serão os primeiros a crucificar a imagem imaculada que o turismo português ainda tem. E isso poderá causar danos irreparáveis da nossa galinha dos ovos de ouro.

Sei bem que não é uma opinião popular. O futebol é soberano e ai de quem se lhe oponha, seja lá de que maneira for. E essa soberania absoluta, quase totalitária, ficou bem evidente no momento de nacional-parolismo imortalizado pela foto em cima, com este grupo de simpáticos convivas, que, sem grande coisa para fazer, se reuniu para uma grande cerimónia protocolar de elogio desbragado ao grande conseguimento da pátria. Com honras de abertura de todos os telejornais, como se tivesse sido encontrada a cura para a covid-19. É o que temos.

Um futuro negro

Lembro-me do princípio da pandemia (parece que foi há anos). Lembro-me de, ingenuamente, esperar que a tragédia global que se adivinhava tivesse, pelo menos, o condão de funcionar como um “click” para impulsionar a raça humana para uns degraus acima na escalada da evolução. Sei que não fui o único.

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Jair Bolsonaro: o pior gestor mundial da pandemia tem medo da verdade

JB

De longe o pior na gestão da crise sanitária, que começou por desvalorizar e apelidar de “gripezinha”, Jair Bolsonaro decidiu restringir o acesso aos dados da pandemia. Com o país mergulhado numa tempestade perfeita, com uma curva epidemiológica a subir a pique, dúvidas quanto à veracidade dos dados divulgados e suspeitas fundadas de fraude na contabilização do total de óbitos, Bolsonaro está refém da sua incompetência e negligência, e, sem surpresas, optou pelo caminho da opacidade total. Eis o regime que capturou o Brasil em todo o seu esplendor: incompetência, negligência, fraude, fanatismo, ocultação e desrespeito pela vida humana. E eis o que nos espera, se algum dia cairmos no erro de nos deixarmos levar pelo canto da sereia neofascista, cujo nome não pode ser mencionado, e que tenta, a todo o custo, aproximar-se do clã jihadista que se empenha em transformar o Brasil num regime autocrata.

Por favor, não matem os velhinhos (a menos que a “economia” exija o seu sacrifício)

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Rodrigo Constantino é um dos opinion makers mais influentes e seguidos do Brasil. Apresenta-se como “Economista, jornalista, liberal com viés conservador contra extremistas de todos os lados“, e é um dos mais fervorosos apoiantes de Jair Bolsonaro nas redes sociais. O debate político no Brasil atingiu um patamar de surrealidade tal, que um tipo que se assume “contra extremistas de todos os lados”, pode apoiar um extremista como Bolsonaro, sem se transformar numa anedota nacional.

Segundo este jornalista, em suma e sem perder muito tempo, os idosos devem estar preparados para se oferecer em sacrifício pela economia, tal como os jovens de 20 anos que vão para a guerra, como se a esses jovens fosse dada a possibilidade de escolher. No fundo, é aquilo que defendem inúmeros políticos conservadores e liberais, no Brasil, nos EUA e noutros pontos do globo, apesar da hipocrisia compulsiva que não lhes permite verbalizar que o modelo de sociedade que realmente defendem é o que melhor serve os interesses da elite económica e financeira, com a qual, regra geral, andam de mão dada. Morra quem tiver que morrer. [Read more…]