Lisboa a ser vítima de Lisboa

Lisboa continua a ter imensos casos de Covid-19, enquanto o Porto, por exemplo, não tem casos há mais de 20 dias. Julgo que pela primeira vez na História, Lisboa foi vítima daqueles que fazem da capital algo superior, como se fossem diferentes dos comuns mortais.

Atualmente, Lisboa tem a larga maioria dos novos casos. Esta é a mesma cidade na qual a classe política achou boa ideia fazer celebrações do 25 de Abril, celebrações do Dia do Trabalhador, manifestações da esquerda à direita e, pasme-se, celebrou-se o facto de Portugal receber a Liga dos Campeões. Os populistas da esquerda à direita e os que usam Lisboa para centralizar os seus poderes foram os culpados desta situação. Talvez tenham confiado demasiado na sua população que não é menos educada, nem mais pobre, nem mais velha.

Admito, faz-me um bocado de confusão ver um país que tem uma cidade “obrigada” a ficar em casa, mas que tem partidos com a prioridade de condenar nas ruas o assassinato de um negro estadunidense, condenar um presidente de um país do outro lado do Atlântico, outros a fazer manifestações para dizer que não são algo e ainda haver quem se preocupe mais em condenar uma série polémica para crianças. Crianças essas que sairiam muito mais beneficiadas se se delineasse um plano de regresso às aulas.

O melhor de tudo é ver mais uma vez o gritante desprezo pela vida das pessoas por parte dos extremos da nossa Assembleia: o Bloco e o CHEGA. O Bloco teve presenças de figuras do partido na manifestação Black Lives Matter, em Lisboa, que juntou centenas de pessoas. Para o Bloco, Lives Matter quando rende nas redes sociais ou quando gera votos. Manifestações como essa contribuíram para o surto. Onde estão medidas que defendem as vidas daqueles que estão com o seu quotidiano alterado devido à pandemia? Se não for populista, não dá votos, logo, também não dá para o BE. O CHEGA conseguiu descer ainda mais um bocado. Depois de criticar uma celebração com regras e cuidada de um dia importante para a Liberdade, faz uma manifestação na cidade que está a ser mais afetada ultimamente.
Já deixámos que o Bloco de Esquerda normalizasse a extrema-esquerda. Não deixemos que o CHEGA normalize a extrema-direita.

O problema de Lisboa deve ser discutido e é uma prioridade. Mais do que mostrar que não há problemas em receber a bola. Não se ajuda pessoas a ultrapassar estes momentos difíceis simplesmente limitando as liberdades. É um problema difícil de resolver? Sim, é.
Culpados? O Estado e todos aqueles que sofrem do síndrome centralista.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Os surtos na plataforma logística da Azambuja e no bairro degradado da Jamaica, nada têm a ver com qualquer manifestação de carácter político. Mas poderíamos citar mais uma meia dúzia de casos, de Lagos a Cinfães, nos quais a política não entra, de forma organizada, no entanto deram Covid 19 à fartazana.
    Talvez se olhássemos mais para a pobreza encapotada que grassa na periferia de Lisboa, quem sabe, olhando mais para as fragilidades sociais de muitas comunidades migrantes, e não só, se percebesse melhor as causas profundas que levaram no desconfinamento, a um aumento de casos.
    A maioria desta gente trabalha em empresas de outsourcing, em permanente mutação de posto de trabalho, uns dias aqui, outros dias acolá, a tapar buracos grande parte das vezes. Estas empresas têm contratos com o Estado e com grandes grupos privados, super esmagados no preço. Acabam maioria das vezes por nem sequer cumprirem com os cadernos de encargos, quanto mais cumprirem com as regras sanitárias de proteção do seu pessoal, nestes períodos mais críticos. Na construção civil, então nem é bom falar.
    Como diz o DO, no confinamento lixou-se o mexilhão. No desconfinamento, de novo, volta a lixar-se o mexilhão. É que a pobreza escondida ou à vista de todos, è sempre sinal de fragilidade e de impotência, diante das adversidades.
    Ainda bem que a direita tem o 25 de Abril e o 1.° de Maio para nos explicar o aumento de contaminados na região de Lisboa, mesmo que, desde essa data já tenham passado quase dois meses, sem que nenhum deputado, governante ou delegado sindical se tenha queixado de ter contraído o Covid 19. Sem estas explicações científicas, pobres de nós, morreríamos de tédio.

  2. Paulo Marques says:

    Onde estão as medidas? Protelamento de rendas e despejos, aumento de transportes públicos, mais fiscalizações de condições de trabalho e layoff.
    Onde estão as medidas da direita? Fecho de hospitais, precarização, privatização de transportes, desregulação do “sector social”, desregulação do mercado de habitação, tudo antes de descobrir o “sentido patriótico”. Depois de arrebentar com a capacidade para lidar com o inevitável, não admira que não tenham nada a propôr. Lá disfarçam que é culpa de uns eventos aos quais não há ligação possível.
    Já agora, a manifestação não foi por ter morrido um americano, foi por todos os polícias serem bestas. Aprenda qualquer coisa.

    • Paulo Marques says:

      Preguiçosos, pá.

      “Orçamento suplementar vai prever baixa paga a 100% para doentes com covid-19”

  3. POIS! says:

    Pois cá está!

    Um Super Liberalão dos quatro costados a lamentar-se do exercício da liberdade pelos outros e cheio de regras que deveriam ser impostas aos outros.

    Quanto à conversa de Lisboa, centralismo, etc.estou para ver as cenas dos próximos capítulos. Quando chegar novamente ao Porto ou arredores já sabemos que a culpa é…novamente de Lisboa. Ah! E do “síndrome centralista” que ataca mesmo o mais recôndito dos transmontanos e o mais isolado dos alentejanos.

  4. Tal & Qual. says:

    O Figueiredo julga que sabe alguma coisa, mas como bom direitralha, tens de vir a Lisboa para ver se entendes alguma coisa disto.

  5. Abstencionista says:

    Manifestações, espetáculo no Campo Pequeno, campeonato de futebol com adeptos ao molho nos arredores dos estádios e, suprema honra e alegria (além de prémio para os profissionais da saúde), CHAMPIONS EM LISBOA !!!… (desculpem o grito de alegria).
    E já agora, diz a maralha jovem, para alegrar ainda mais o desconfinamento: porque não uma festinha na Pastorinha e já agora, outra festinha em Lagos e outra, tipo convivio, na área de serviço da BP e porque não tascas abertas nos chamados bairros étnicos para desconfinar a socialização alcoolica.

    Eu sei que esta coisa dos ditados populares, saídos do bom senso, está off, mas mesmo em off eu continuo a achar que o exemplo vem de cima.

    • Paulo Marques says:

      “campeonato de futebol com adeptos ao molho nos arredores dos estádios”

      Isso foi mais do que uma vez? Só ouvi durante um dia e nunca mais se falou no assunto.

  6. Pimba! says:

    Quando o foco era no Porto haviam cerca de 700 novos casos por dia, com confinamento, e sem muitos testes;
    Agora o foco é em Lisboa, sem confinamento, e com muitos testes… säo cerca de 350 novos casos por dia. 50% de anteriormente.

    Ou seja, haviam bem mais casos no Porto, que näo foram detectados, agora felizmente todos os de Lisboa säo detectados.

    Mas há um indicador que é final: o de mortos por dia:
    quando o foco era no Porto haviam eram semanas de 30 mortos por dia;
    Agora que o foco é em Lisboa säo semanas com 5 mortos por dia. 17% de anteriormente.

    Os Sérgios Conceiteiros que querem insultar Lisboa e fazer do Porto algo mais que aquilo que é säo täo básicos… que até me pöe a mim a defender os alfacinhas!

  7. Pimba! says:
  8. Julio Rolo Santos says:

    Lisboa sempre quis ser grande, em território e em pessoas, mas não acompanhou esse desejo com a construção das infraestruturas adequadas para lhe dar resposta, nomeadamente, habitação, oferta de emprego e transportes. Hoje debate-se com todos esses problemas e dificilmente se vai libertar deles. Os bairros problemáticos vão ser uma permanente dor de cabeça para as autoridades que dificilmente conseguirão controlar o número crescente de marginais que aí vivem.


  9. Já vi que por estas bandas os boçais também não faltam… “COVID-19” poupem-me!

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