Candidatos de primeira e candidatos de segunda

Créditos da Imagem: @Jornal Expresso

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O António Fernando Nabais já trouxe o assunto ao aventar, mas mesmo depois de algumas mudanças desde esse texto, continua a haver uma discriminação em relação ao candidato Vitorino Silva na candidatura à Presidência da República.

Sou um leitor assíduo do jornal Expresso e acompanho, desde o primeiro debate, na app do jornal, uma série de artigos conjuntos que pontuam os debates e os candidatos, num trabalho de vários jornalistas e cronistas do jornal. Embora estranhe o conceito quase futebolês da análise política, a verdade é que, no final, o que conta são os números.

Vitorino Silva não faz parte dessa análise. Ou seja, os seus debates não são analisados dentro desta estrutura de artigo, nem a sua foto acompanha a imagem que os ilustra (e que ilustra também este texto). Mesmo que existam artigos de análise mais extensos sobre os seus debates, como para os outros, neste particular é excluído.

Não espanta, sendo que a SIC e a TVI não incluíram Vitorino na sua agenda de debates (vai dividi-los entre a RTP 3 e o Porto Canal), mas espanta porque é um marcar de uma posição, um dizer aos leitores que aquele determinado candidato não entra na contagem. A RTP tentou limpar a imagem e incluir o candidato nos seus debates, mas todos eles serão na RTP 3. Pequenos pormenores que não deixam de oferecer conclusões a retirar.

Vitorino teve 152.094 votos em 2016 (o que sentirão esses milhares de eleitores que são, simultaneamente, leitores do Expresso?); é líder de um partido – RIR – legalizado pelo Tribunal Constitucional. Receber um tratamento diferente – como ele próprio comentou no debate de ontem com Marisa Matias – é amostra de um elitismo bafiento que ainda popula o nosso país. Se é a sua forma de se expressar o motivo para esta discriminação, cai por terra quando temos o exemplo de André Ventura; se é a presença em reality-shows da televisão, podemos referir as incursões de Marcelo em telefonemas para programas da manhã ou o passado de comentador futebolístico de Ventura; enfim, nada justifica esta visão de candidatos de primeira e de segunda, a não ser o vivermos no país dos senhores doutores, no país em que o fato e a gravata são símbolos de seriedade e o problema são, na boca dos populistas, os ciganos.

Vitorino tem demonstrado nos debates exercícios de linguagem muito interessantes, desmontando adversários com uma subtileza que pode ser considerada surpreendente. Fica aquém da demonstração prática de medidas e propostas que se traduzam numa visão para o país, mas conquistou o seu lugar nesta eleição não só dentro da legalidade, mas com um percurso próprio que já tem 20 anos.

Não podemos dizer que a classe política tem de mudar e que é ela a razão do surgimento de regimes anti-sistema, se depois, enquanto sociedade, dizemos “por aí não, por aí não”.

PS: Contactei via e-mail o director do Expresso, a questionar o porquê da ausência de Vitorino nesta contabilidade. A sociedade deve ser exigente, crítica e pedir explicações quando elas são necessárias, oferecendo o direito de resposta quando devido.

Comments

  1. JgMenos says:

    «o que sentirão esses milhares de eleitores que são, simultaneamente, leitores do Expresso?»

    Sentem o que sente quem não lê o Expresso!