Encerre-se tudo

A mim parece-me bem.

Encerre-se Machu Picchu, Encerre-se Chan Chan,
Encerre-se a Capela Sistina,
Encerre-se o Pártenon,
Encerre-se o Nuno Gonçalves,
Encerre-se a Catedral de Chartres,
Encerre-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
Encerre-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
Encerre-se a Cordilheira dos Andes,
Encerre-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
Encerre-se a água e o ar, Encerre-se a justiça e a lei,
Encerre-se a nuvem que passa,
Encerre-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto encerrar,
Encerrem-se os Estados, entregue-se por uma vez
o governo deles a carcereiros e hipocondríacos,
mediante recomendação da OMS,
Aí se encontra a cura do vírus…

E, já agora, encerre-se também
a puta que os pariu a todos.

Adaptação de José Saramago, em “Cadernos de Lanzarote – Diário III”. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Deixe-se Deus decidir quem morre, quem fica quem com problemas cardíacos, coágulos no sangue, aneurismas, problemas de respiração, problemas no fígado; isso é que é a verdadeira liberdade, ficar abandonado à natureza e aos genes, porque financiar a recuperação ainda causava mortes.
    Ámen.

    https://twitter.com/battleforeurope/status/1347191404901134336

    • António de Almeida says:

      Deus? Há quem acredite na sua existência, não é o meu caso, mas respeito todas as crenças. Incluindo os que acreditam ser possível ganhar um combate a esta ou qualquer outra pandemia. Tal como respeito os crentes no risco zero. Respeito todos, desde que respeitem o meu direito a viver em Liberdade.

      • Paulo Marques says:

        Deus, mercado livre, sorte, mecanismos quânticos, é tudo o mesmo; deixar quem tem azar à sua sorte.
        Quanto ao combate à pandemia, não se ganha ou perde, não é um jogo de futebol. Nem é uma adivinha, não tem soluções únicas.
        Não pode é querer ser sério e dizer que o risco é só de morte, e só para a peste grisalha. Ou que a liberdade não inclui o direito à saúde e à segurança ao mesmo tempo que as outras. Sim, isso faz dos valores contraditórios, por isso é que há discussões políticas e técnicas.

      • POIS! says:

        popis claro!

        Como diria o célebre filósofo “libéral” francês Antoine de L’Almeida: “Pour moi, la liberté est trés simple: pain, pain, fromage, fromage! Rien de plus et pas de moins”.

  2. Luís Lavoura says:

    Já agora, poderia também encerrar-se as portas e as janelas das salas de aulas nas escolas, para que as crianças e jovens (e os professores) não morram de frio.

  3. António de Almeida says:

    Não acredito que mantenham abertas portas e janelas com estas temperaturas. Os aparelhos de climatização são seguros, se a limpeza e manutenção for adequada.
    Como se procede nos países da Europa do Norte em que as escolas estão abertas? Seguramente não será com portas e janelas abertas…

    • Luís Lavoura says:

      O meu filho mais novo é aluno num liceu em Lisboa. Dá aulas de janela e porta aberta. Ele não se queixa, mas diz que os colegas que se sentam perto da janela ou da porta se queixam muito. Quanto a aparelhos de climatização, é claro que não os há, nem nunca houve nesse liceu.
      Nos países do norte da Europa não há Desgraça Freitas, ou então as indicações da Direção-Geral da Saúde são tomadas, corretamente, como indicações e não como normas obrigatórias. Felizmente as populações desses países não são carneirinhos mansos como a portuguesa.

      • António de Almeida says:

        A cada ano que passa, Portugal está mesmo cada vez mais perto da cauda da Europa, a caminho do 3º mundo…

      • CARLOS ALMEIDA says:

        “Nos países do norte da Europa não há Desgraça Freitas”

        Como por exemplo a Suécia que conheço bem, porque la vivi uns anos, que não se entendem nem sabem o que fazer com o aumento dos casos.

        • Luís Lavoura says:

          Cá em Portugal também não se sabe o que fazer com o aumento de casos. Mas finge-se que se sabe, ou julga que se sabe. Eu preferiria que se assumisse a ignorância.

      • Paulo Marques says:

        Pois, Holanda, Suécia e Reino Unido são países onde corre tudo lindamente.

    • Filipe Bastos says:

      Nos países do norte da Europa, e nos outros, os edíficios e casas são pensados para o clima europeu. Não fazem de conta, como nós, que vivem em África ou no Brasil.

      Estamos perto, é verdade, sobretudo na nossa classe pulhítica e ‘gestora’, mas os invernos são apesar de tudo europeus.

      Em casas e escritórios pela Europa fora, em temperaturas muito abaixo de zero, nunca senti frio como nas casas em Portugal. É como o Carnaval, onde palermas se abanam de calções ou bikini em pleno Fevereiro, a pensar que estão no Rio.

      Para completar a festa, claro, nada como um governo xuxo-sucateiro, os seus alertas imbecis e os imbecis que os seguem.

      • Paulo Marques says:

        É quase como que… fosse preciso gastar dinheiro na renovação do imobiliário do estado.
        Cruzes, credo.

    • POIS! says:

      Pois é!

      Como diria o célebre filósofo e pedagogo francês “beaucoup libéral” Antoine de L’Almeidá “La climatisation est très facile: c’est pain, pain, fromage, fromage. Mais elle n’existe pas. C’est dommage!”

    • Paulo Marques says:

      Aparelhos de climatização? Com esta dívida? Tá parvo.

  4. Paulo Marques says:

    Ó António, já considerou mudar-se para o liberal Reino Unido? Deixar ao entender de cada um está a começar a dar muito bons resultados, aconselho. Isto se não estiver contente com os resultados do Natal e passagem de ano cá, claro.
    Viva a liberdade de ir para debaixo da terra a esgotar os médicos com síndrome pós-traumático que nunca será tratado!

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