Narrativa riscofóbica

Não vou avançar com teorias de conspiração, mas qualquer pessoa minimamente atenta, percebe que existe em Portugal uma agenda, que pretende impor aos cidadãos um comportamento riscofóbico. A cada noticiário e até na esmagadora maioria dos comentadores, percebe-se o desejo que Lisboa recue no chamado mapa do desconfinamento.
Alguns eventos servem de bode expiatório, mas factos que a todos deveriam preocupar, são noticiados sem qualquer aprofundamento, não se vá dar o caso de encontrarem respostas indesejadas, que não sirvam ou até coloquem em causa a narrativa.

Ontem morreram 6 pessoas, vítimas de Covid19, todas com mais de 70 anos. Posso ter estado distraído, mas não li, nem ouvi, um único jornalista ou comentador, perguntar, quem eram aquelas 6 pessoas. Não que defenda obviamente, qualquer voyeurismo, ou invadir a privacidade de quem quer que seja, certamente que a perda provocou dor às famílias, que devemos respeitar.
Mas se as vítimas têm mais de 70 anos, numa altura em que já estamos a vacinar pessoas com mais de 40 anos, há perguntas a fazer à DGS. A primeira é evidente, as 6 pessoas que ontem morreram, estavam vacinadas? Se estavam, enquanto cidadão vacinado, quero saber, se não estavam, então porquê? Adoeceram há várias semanas e não puderam ser vacinadas? Se for esse o caso, não podem ser relacionadas com os números actuais, seria intelectualmente desonesto, fazê-lo. Não quiseram ser vacinadas? Houve falha do sistema, que não as convocou para receber a vacina? Enquanto cidadãos, merecemos explicações, não apenas medidas administrativas, que muitas vezes não compreendemos e como tal, tendemos a incumprir ou contornar.
O Sporting C.P. venceu o campeonato nacional de futebol a 11 de Maio. Hoje, dia 17 de Junho, é consensual que em Lisboa, existe uma predominância da variante indiana. É possível assacar aos festejos dos adeptos leoninos, a responsabilidade pelo aumento do número de infectados?
Recordo aos mais distraídos que antes de terem sido detectados em Portugal, os primeiros casos da variante indiana, a mesma já preocupava as autoridades de saúde no Reino Unido. E que Portugal até foi considerado um destino seguro para as autoridades britânicas entre 17 de Maio e 8 de Junho. Durante o período, que isentava de quarentena no regresso a casa, milhares de turistas britânicos visitaram Portugal, incluindo os adeptos de futebol, que vieram assistir ao vivo ou em fan-zone, à final da Uefa Champions League. Nessas 3 semanas, encontraram em Portugal, restrições menores que as que lhes estavam impostas no seu país.
Qual o nível de controlo que temos e queremos nas fronteiras? Se pretendemos abrir a economia e promover o turismo, estamos conscientes que iremos provocar um aumento do número de infectados?
Desde o início da pandemia, nos disseram que para justificar as restrições à liberdade individual e económica, que as mesmas visavam proteger o SNS, evitando o colapso que aconteceria se a afluência fosse massiva. E que teríamos vacinas, para permitir a reabertura, porque seríamos forçados a conviver com o vírus, mas sem as graves consequências que sofremos. Hoje temos uma vacinação a bom ritmo, o aumento de internados menos graves, ou nos cuidados intensivos, não acompanha o número de infecções, é proporcionalmente muito menor ao que se verificava antes da vacina.
Aqui chegados, quando vemos noutros países, estádios de futebol com público, cinemas, teatros e demais espectáculos reabrindo, a maioria dos cidadãos regressando às suas vidas, recuperando a liberdade, alguns promovendo o turismo, procurando atrair visitantes, em Portugal, não falta quem suspire por limitações e proibições.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    O António está a assumir que os países dos turistas não estarão preocupados com os tais critérios sanitários, ajustados seguramente, mas já com crescimento exponencial que já dificilmente se poderia desfazer até ao fim do verão, até porque a delta é muito mais transmissível. É uma aposta, com muito pouco de certeza, mas muito de politiquice. A começar pelos hipócritas do costume a dar um grande empurrão ao caos com o privilégio de não assumir responsabilidades nenhumas.
    Quanto às vacinas, pode não se ter a informação nacional, mas as estatísticas estão aí das fragilidades de deixar andar o bicho. https://www.theguardian.com/world/2021/jun/15/the-covid-delta-variant-how-effective-are-the-vaccines ; sendo que a mortalidade ainda é estatisticamente incalculável. funcionam, desde que as haja, daqui a muitos meses, não vá o tio Bill valorizar menos os subsídios ao mercado livre.
    Ter certezas a partir daí, só para bruxos. Só imagino que quem trabalhe continue se adoecer, o que não ajuda, significativamente provável antes da segunda toma bem dentro do pico turístico.
    Aqui chegado faz-se o quê? Idealmente, não se sabe, na prática, quando muito mezinhas, mas é uma pergunta que se evitava tendo respondido rapidamente à patetice dos spordinguistas, bem antes de ser vital ao turismo, nesta altura é esperar que corra bem. E de nada adianta evocar um evento onde os estrangeiros foram claramente contidos e recambiados sem impacto local. Nem tão pouco tem lógica contrapor as maravilhas libertadoras (!!!) do regime húngaro a tentar recuperar investimento público em faraonices (!!!!!).
    Mas sabe-se que a única preocupação liberal foi ter a certeza que recebia o dízimo, se não ter regras der merda, os outros que lidem com isso.

  2. Filipe Bastos says:

    Creio que os adeptos do confinamento se dividem em três tipos.

    Para os media e para as centenas de chulecos-comentadeiros, o covid é um maná: garante medo e tema permanente. A última coisa que querem é que isto acabe.

    Para funcionários públicos e outras classes bem instaladas, o covid sempre foi uma benesse e não um problema. Ficam em casa, ganham o mesmo, muitos até mais, e encontram menos ralé nas ruas, nas lojas, nos parques… só vantagens.

    (Veja-se os funcionários das Finanças, que querem acabar com o ‘atendimento presencial espontâneo’ e mantê-lo apenas por marcação prévia… nunca a vida lhes correu tão bem.)

    E depois temos as autoridades – os polícias e apparatchiks que adoram dizer à populaça o que pode e sobretudo o que não pode fazer – e seus defensores, como o Paulo Marques aqui acima. O covid deu um jeitaço a este governo sucateiro.

    • Paulo Marques says:

      Para os neoliberais, manter tudo como está e meter medo permanente para que nada mude, não há problema; afinal, quem sempre esteve em risco é quem cria riqueza, eles podem isolar-se ainda mais e comprar vacinas em qualquer lado; afinal, é só mais um risco de saúde laboral entre tantos.
      É preciso tresler o que os outros dizem para se apoiar tal benesse? Pois que seja, aqui o esquerdista não só defende que há que fazer sacrifícios para mordomar quem vier das metrópoles, como faz de Judas à autoridade, atirando as coisas aos outros.
      O Rio tem muito que aprender consigo, vá lá dar uma ajudinha.

    • POIS! says:

      Pois, vá lá! Não seja preguiçoso!

      Três quê? Francamente!

      Com um pouco de esforço, V. Exa. ainda vai conseguir reduzir os adeptos a dois tipos. E até a um!

  3. Tal & Qual says:

    E aos governos dos paneleiros ?
    Não dá jeito?

  4. POIS! says:

    Pois é!

    É um problema gravíssimo!

    Conheço um tipo que tem milhares de discos de vinil em casa, tem uma aparelhagem que lhe custou 10 mil euros e não põe um único a tocar!

    Porquê? Olha porque lhe foi diagnosticada riscofobia!

    O problema é que não se tratou e, agora, já nem os CDs ouve!

    Só ouve música em cassettes, emprestadas por um vizinho que sofre de enrolofobia. Agora anda a ouvir o último álbum de Anthony Sweeper, o célebre “More of The Same Liberalishnesses”.

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