O portuguesinho, a avaliação de desempenho e a inveja

Olhe, não lhe digo mais nada, lá no prédio somos cinco senhoras mais essa… não lhe vou dizer que é uma porca, mas é uma desavergonhada, prontos. No outro dia, estávamos à conversa e vai ela e vira-se para nós e diz que os orgasmos ou lá o que é que ela tinha lá com o homem dela eram quase todos bons e alguns muito bons e até excelentes. E nós virámo-nos para ela e dissemos-lhe assim: “ó coisinha, isso não pode ser, não podem ser quase todos bons, têm de ser muitos regulares e alguns insuficientes”. E então ela vai e diz: “olha, mulher, se não estás satisfeita, faz como eu fiz, fala com o teu homem e arranjem maneira, que eu também levei uns tempos até conseguir pô-lo a funcionar como deve de ser”. Olhe, fiquei de uma maneira! Para já, o meu homem até é muito meu amigo e passam-se dias que não levanta a mão para mim. Imagine se ia agora dizer-lhe que tinha de fazer assim e assado só para ver se eu tinha um orgasmo ou lá o que é. Ele já anda tão cansado lá com trabalho e ainda vinha para casa fazer esforços, coitado. E depois dissemos-lhe assim: “tens de parar com isso, então algumas nem homem têm e tu tens homem e, ainda por cima, andas contente?” E dissemos-lhe mais: “fazes o favor de acabar com isso e se a gente sonha que continuas a ter orgasmos quase sempre bons, a gente chateia-se”. E ela a dar-lhe que também podíamos ter, era uma questão de conversar. Bem, a Adozinda do quarto esquerdo atirou-se ao ar e disse assim: “eu não consigo ter um galo de Barcelos, quanto mais um orgasmo, acabas é com essa porcaria ou então o meu homem vai ter uma conversa com o teu”. A maluca pôs-se para ali aos gritos a dizer que éramos umas invejosas e que em vez de querermos ter uma vida melhor só dizíamos mal de quem estava bem. E no fim disto tudo, ela é que é doida e eu é que venho presa só porque ia atrás do homem dela com uma faca e ele nuzinho. Se ele não se fecha no quarto e não chama os senhores guardas, a descaradona nem insuficientes tinha, acredite que não!

Comments

  1. João Paz says:

    A fina ironia a tratar de asuntos importantes , até a violência doméstica é aflorada. Parabéns Nabais.

  2. Paulo Marques says:

    Pois, e a igualdade, onde fica Nabais? Essas carneiras deviam era não votar nesses xulos.

  3. luis barreiro says:

    Típica conversa de casa de alterne.

    • POIS! says:

      Pois, será? Estou surpreendido. mas deve ser porque não frequento.

      É disto que V. Exa. costuma por lá falar? E mais?

      E a mãezinha o que diz? Já lhe contou?

      Será que ela deixa assim V. Exa. perder-se por esses ambientes pecaminosos? Não creio!

  4. JgMenos says:

    Anda por aí um gajo em testes de aspirante a escrevinhador…

    • POIS! says:

      Pois ainda bem!

      Que V. Exa. avisa que vai continuar a testar a sua aspirância escrevinhadeira.

      A malta detesta surpresas!

    • António Fernando Nabais says:

      Muito obrigado, menos do meu coração! Prefiro ser um (eterno) aspirante a escrevinhador a ser um saudoso do Botas.

  5. Filipe Bastos says:

    Ora cá temos, com a verve habitual do Nabais, a inveja.

    Muitos acham que são invejados. É mais fácil e lisonjeiro do que encarar que não gostam de nós, ou que nos julgam tontos, incapazes, indignos, ou apenas desagradáveis. Não: nós somos bons, justos e merecedores; por isso invejam-nos.

    Os chulos e os trafulhas falam sempre de inveja. Quando o Vara foi criticado pela mama no BCP, o 44, que era Primeiro-Ministro, falou em “inveja social”. Lembram-se?

    Quando algum graúdo neste país é acusado de alguma coisa, seja o que for, é certinho: tudo mentiras, cabalas, campanhas negras. Por política, por maldade… e por inveja.

    O post do Nabais, claro, refere-se a outra inveja: a pequenina e reles dos ‘portuguesinhos’ que, como se diz, “não podem ver o vizinho de camisa lavada”. Lembra uma conversa recente sobre algumas regalias dos funcionários públicos.

    Na FP a questão é egoísmo corporativo e falta de solidariedade. Podem merecer o que têm, mas isso não apaga a desigualdade e a sua indiferença para com os outros. O Nabais não se diz de esquerda? Para mim, é isto a essência da esquerda: não nos conformarmos com a injustiça e a desigualdade.

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