História da Fundação dos FC Porto

Proposta de capa: Leonor Pinto


No dia 14 de Abril de 1893, um grupo de jovens da colónia inglesa, acompanhados de alguns desportistas portugueses, todos ligados ao Velo Clube do Porto, juntaram-se para jogar à bola.
Terá nascido nesse dia uma experiência efémera, que esses jovens baptizaram com o nome de FC Porto. Aínda nesse mês, foi formada uma Direcção que tinha António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar como presidente e Joaquim Ferreira Duarte como presidente da Assembleia Geral.
Sabemos que em Junho os associados do clube se reuniram para aprovar o Regulamento Interno. O que parecia ser um projecto com bases firmes revelou-se, afinal, um entusiasmo da juventude que pouco durou.
Em 28 de Setembro desse ano, nada aconteceu na história do FC Porto a não ser a publicação de uma notícia num jornal de Lisboa a dar conta da sua fundação.
Em Outubro, esse FC Porto terá feito uma tentativa para lançar o clube, convidando Guilherme Pinto Basto, do Club Lisbonense, para um jogo no Porto.
Mas Guilherme Pinto Basto declinou e, ao invés, fez o mesmo convite a Hugh Ponsonby, secretário do Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, que aceitou.
O jogo acabou por realizar-se em Março do ano seguinte. Um jogo entre as cidades de Porto e Lisboa que o rei D. Carlos decidiu patrocinar.
O FC Porto de 1893 nada teve que ver com este jogo. Que decorreu no campo do Oporto Cricket, com o equipamento do Oporto Cricket e com Hugh Ponsonby como capitão de equipa. 10 dos 11 titulares jogavam no Oporto Cricket.

A curta experiência desse FC Porto terminou pouco tempo depois. Não fez qualquer jogo e não terá feito muito mais do que meia dúzia de treinos. A alta sociedade desinteressou-se da prática do futebol quase tão depressa como se começara a interessar. Não foi um fenómeno desta ou daquela cidade, deste ou daquele clube, deste ou daquele desportista. O futebol deixara de ser moda.
Enquanto os irmãos Rumsey continuavam activos no Velo Clube do Porto, António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar passara a dedicar-se exclusivamente aos negócios do Vínho do Porto e viria a casar, três anos depois, com a irmã mais nova daqueles, Hilda Rumsey. Que deixou viúva em 1946 (e não em 1948 como refere a placa colocada pelo FC Porto em Agramonte e pela Câmara Municipal na rua com o seu nome).
Enquanto a alta aristocracia do Velo Clube tentava dedicar-se, sem sucesso, ao futebol, José Monteiro da Costa vivia no meio das flores e das plantas. Acompanhava o pai, Jerónimo Monteiro da Costa, um ajudante de jardineiro no Horto de Marques Loureiro.
Já no cargo de jardineiro municipal, Jerónimo percorreu as principais capitais europeias em visita de estudo em 1904. Levou com ele o filho José, único rapaz entre quatro raparigas.
Nessa viagem, José terá tido contacto pela primeira vez com o futebol.
Juntamente com alguns amigos, que formavam o chamado Grupo do Destino (cuja existência está documentada desde pelo menos 1903), decidiu criar o FC Porto. A decisão foi tomada numa reunião em que estiveram presentes muitos dos elementos do Grupo do Destino e que decorreu no dia 2 de Agosto de 1906.
Faz hoje 116 anos.
Foi o próprio José Monteiro da Costa que o escreveu no Relatório da Gerência de 1908: “O FC Porto foi fundado no dia 2 de Agosto de 1906 por um grupo de entusiásticos rapazes ..”
Sempre se soube da existência do primeiro FC Porto, mas nunca se tentou estabelecer uma relação entre ele e o actual. Nem Nuno Brito e Cunha, grande amigo de António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar, quando abordou nos anos 20 o efémero FC Porto de 1893. Nem o próprio António Nicolau de Almeida, que nunca foi sócio, nunca foi visto nos jogos e nunca reivindicou para si qualquer papel na fundação do clube.
Quando há 70 anos Cândido de Oliveira, em A Bola, escreveu sobre o primeiro FC Porto, Camilo Moniz, um dos fundadores de 1906, foi lesto a responder: «Se Monteiro da Costa, antes da viagem que fez pela Europa, ignorava por completo a existência do futebol e dentro do Grupo do Destino todos o desconheciam; se houve reuniões preparatórias para a fundação do actual Clube; se foi resolvido acabar com o Grupo do Destino para fundar um clube desportivo; se foi nomeada uma comissão administrativa ou instaladora; se o terreno alugado para a prática do jogo pertencia à Companhia Hortícola, de que Monteiro da Costa era Director, como podia ter havido ligação ou sequência com um clube que existiu em 1893 e de que os rapazes de 1906 nunca tinham sequer ouvido falar?»
E continua, adiantando um motivo para a confusão: «Não, não pode haver ligação; há, sim, coincidência de nome. Como no ano de 1893 foi fundado o Velo Clube do Porto, importante clube, talvez este nome tivesse servido de inspiração ou de padrinho para o do clube de Nicolau de Almeida. Ignoro-o. O que sei é que o actual foi baptizado numa reunião onde todos os assistentes ignoravam que já tinha existido um clube com esse nome na cidade do Porto.»
As palavras de Camilo Moniz são óbvias. José Monteiro da Costa tinha 14 anos aquando dos treinos no hipódromo de Matosinhos. Entretido, ao lado do seu pai, no mundo das flores e dos jardins, sem qualquer ligação ou especial interesse pelo desporto, dificilmente teria tido conhecimento da experiência de futebol protagonizada durante alguns meses, 13 anos antes, por uma alta sociedade à qual ele não pertencia e à qual a imprensa pouco destaque deu.
Seria realmente extraordinário que um adolescente de 14 anos, filho de horticultor, estivesse a par de uma actividade tão elitista. Pelos depoimentos dos vários fundadores, José Monteiro da Costa não conhecia sequer os jogos de futebol que o Oporto Cricket realizava desde 1902 na cidade do Porto, quanto mais os treinos realizados nos finais do século anterior por Arthur Rumsey e companhia.
A minha profunda convicção é a de que António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar e José Monteiro da Costa nunca chegaram a conhecer-se, nem antes nem depois de 1906.
Não era, aliás, provável que se tivessem conhecido. Apesar de viverem ambos no Porto, estavam em mundos completamente opostos.
António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar pertencia à alta aristocracia portuense e estava ligado à colónia inglesa e aos negócios do Vinho do Porto. Entre os seus antepassados, da alta nobreza duriense, vemos cavaleiros da Casa Real, Familiares do Santo Ofício, juízes do Supremo Tribunal de Justiça e afilhados de baptismo do Marquês de Pombal. Vemos também abastados soberanos locais de Dublin, capitães e oficiais do Exército. Vemos heróis de Waterloo e vemos Bravos do Mindelo. O seu pai, figura grada da sociedade portuense, parte integrante das elites culturais e económicas da cidade, era dono de uma fortuna incalculável. A sua ligação aos Rumsey, pelo casamento, só reforçou esse papel.
José Monteiro da Costa, por seu lado, era descendente da classe média-baixa de Lamego e do Marco de Canaveses. Os seus antepassados foram alfaiates, jornaleiros e caseiros. Mendigos que morreram na pobreza extrema. O seu pai era ajudante de jardineiro.
Ao longo de mais de 100 páginas, profusamente ilustradas, discorro sobre todos estes aspectos da história destes dois FC Porto. E penso conseguir provar que foram dois clubes completamente distintos, sem qualquer ligação entre si a não ser a coincidência do nome. Mesmo para quem não concordar com as conclusões a que chego, encontrará decerto inúmeras informações inéditas sobre a história do nosso clube.
Após três anos de investigação, o livro está pronto e espera que alguma editora queira pegar nele. Se não vir a luz do dia da forma tradicional, vê-lo-á de outra maneira qualquer.
Entretanto, parabéns FC Porto!

  • Mais informações através do endereço mike.walsh.fcp@gmail.com (Mike Walsh foi o meu primeiro ídolo no FC Porto e é o meu nome de guerra no universo portista)

Comments

  1. CARLOS ALMEIDA says:

    Pois não. Agora é uma clube de ciclismo

  2. Paulo Marques says:

    Propaganda, no futebol? Ó pá, nunca esperaria.

  3. Anonimo says:

    Eis um tema que une direita e esquerda, xuxas e fachos.
    União dos povos através do chuto na bola.
    Pena o Futebol ter estragado o futebol.


  4. Saúdo o esforço e a honestidade intelectual. Isto vindo de um adepto do único dos 3 grandes clubes portugueses que não aldrabou a data de fundação (mas tenta aldrabar o número de títulos nacionais, o que é apenas um pouco menos deprimente).

    • Orlando says:

      Qual é a aldrabice da data de fundação do Benfica?

    • Paulo Marques says:

      A única maneira de encarar estas coisas é que não têm importância nenhuma, e são ainda mais arbitrárias do que coisas que importam.


  5. Aquilo é só um clube de futebol lá dos lados do Porto que se mete em mais coisas nomeadamente pugilismo com financiamento do sr. luso americano e mais não digo, vejam a SIC que está lá tudo.

    • Paulo Marques says:

      Isso é “a” claque. Outros preferem o BES ou os traficantes de droga. Outros dinheiro Russo ou Árabe, todo do bem. Viva a bola.

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