O timing de Nancy Pelosi

O timing da visita de Nancy Pelosi a Taiwan não é inocente e ameaça directamente a segurança da população daquele país. De todos os momentos que poderiam ter sido escolhidos pela speaker da câmara dos representantes, Pelosi decidiu escolher o momento de maior tensão mundial desde a guerra nos Balcãs.

Não é inocente e, parece-me, tem mais a ver com política interna norte-americana do que com as aspirações independentistas do povo de Taiwan. Um país que, é bom recordar, os EUA não reconhecem enquanto Estado soberano. E são apenas 13, os Estados que reconhecem. Os EUA chegaram a reconhecer, durante vários anos, mas a globalização, o capitalismo e os renminbis falaram mais alto.

Como sempre falam.

Como sempre falaram os rublos, até começar a grande encenação. E não, não me refiro à invasão. Essa é real, mata, provoca o sofrimento de milhões e arrasou cidades inteiras. Refiro-me a quase tudo o resto que orbita em seu redor. A situações como o paradoxal “toca a sancionar a Rússia” vs “ai meu Deus que os russos vão fechar o gás”. Ou à unidade de fachada da “comunidade internacional”, com os seus Orbáns e Morawieckis, as suas Le Pens e aquela manta de retalhos fascistas que se prepara para tomar o poder em Itália, a bomba-relógio no centro da eurozona. Todos eles com algo em comum, para lá do gosto pela autocracia: a admiração por Putin. Não estou a falar sobre posições dúbias sobre a guerra. Estou a falar de alinhamento ideológico, financiamentos, relações de altíssima proximidade e Salvinis com merchandising oficial, a tirar selfies na Praça Vermelha, de sorriso ébrio e Vladimir Putin estampado na pança.

Faltam três meses para as midterms. E é possível que este statement, da speaker Pelosi, esteja relacionado com esse grande teste à resistência da administração Biden e dos democratas, que parece bem tremida. E isto pode facilmente rebentar-lhe nas mãos. Até porque, para Xi, Trump ou DeSantis são mais úteis que Biden ou qualquer democrata na linha de sucessão.

Não foi uma escolha inteligente. Quando Pequim ainda hesita em oficializar o seu alinhamento com Moscovo sobre a questão ucraniana, esta provocação poderá aproximar ainda mais Xi Jinping e Vladimir Putin. Com as consequências que isso terá para todo o Ocidente, não apenas para os EUA. E convenhamos que, se Jinping ou Putin decidissem enviar um emissário a Cuba, acompanhado de um porta-aviões, um contratorpedeiro, um cruzador e um navio anfíbio, a América não se limitaria a protestar.

Comments


  1. Não te preocupes João Mendes, a China é hoje e segundo Lavrov, o “maior parceiro estratégico” da Rússia no concerto das nações e ela, sem dúvida alguma, sabe muito bem aquilo que está a fazer:

    https://toranja-mecanica.blogspot.com/2022/08/a-republica-popular-da-china-sabe-o-que.html

    • POIS! says:

      Poi não me diga, ó Terroranjo! Tamos todos bué de espantados!

      O Lavrov também já é ministro dos Negócios Estrangeiros da China?

      É o que se chama um homem de sucesso! Estamos de olhos em bico!

    • Rui Naldinho says:

      Só posso considerar esse seu comentário uma chalaça.
      Se a UE, o Reino Unido e os EUA decretaram sanções à Rússia, nomeadamente ao nível das trocas comerciais, será natural que recaia sobre a China, como grande potência, a responsabilidade de ocupar esse lugar. Nem sequer a Índia pode entrar nessa equação.
      Para mim, o texto pretende apenas insinuar duas coisas.
      Que os EUA não são inocentes em todos os conflitos mundiais extra muros, desde que interfiram com os seus interesses imperialistas. A defesa da democracia para eles, incluindo os democratas, é uma treta. E que, ao contrário do que muito liberal de pacotilha apregoa, nada do que se está a passar actualmente na Ucrânia, tem como único e exclusivo culpado, a Rússia.
      Outra provocação bem latente no texto é a forma desastrada e até hipócrita, como os nossos governantes e os mercados gerem o próprio sistema capitalista.

      • POIS! says:

        Chalaça? Só se não conhecer o Terroranjo. É um verdadeiro propagandeiro filho da Putin.

        Tem lá um blogue onde exalta a estética dos misseis, a formosura das peças de artilharia e a encantadora beleza dos barbudos tetchenos fardados.

        E onde também se dedica á História. Segundo ele há um sionista em cada esquina (nunca reparou? Eu tenho aqui sempre dois ao fundo a rua, um de cada lado) e o Putin está a fazer o que Estaline não fez a seguir á Segunda Guerra Mundial, porque era muito bonachão e se deixou enganar por aqueles manganões do Churchill e do Roosevelt.

        • POIS! says:

          Mas, de qualquer maneira Rui, a guerra já acabou, não foi?

          Pelo menos, nunca mais por aqui vi um post a cada cinco minutos dos conhecidos “penseurs” e “philosophes politiques” gauleses Moriére de Çá e Garçais Osorie.

          Este último, desta vez, até partiu sem se despedir, ao contrário das outras 246 vezes. Foi pena.

        • Paulo Marques says:

          Antes isso que mais propaganda da hegemonia, ao menos é novo, e não pagamos por ela.

  2. Paulo Marques says:

    Curiosamente, também é um momento de tensão nos balcãs, porque todos os amigos têm aproveitado o momento para lucrar qualquer coisa – embora aí tenham saído com a cauda entre as pernas.
    Adiante. Se há algo que tem ficado a nu é que a liberdade que importa é a liberdade do capital continuar a navegar no seu “sistema de regras”. Quando um apoiante leva com uma contradição, mas só se vinda de um jornal do bem, bom, passa a ser tem que ser assim porque a única alternativa possível e imaginária é pior, o melhor é aceitar que melhor é impossível para que mijem qualquer coisinha para este lado.
    Ora, e se as vítimas do costume estiverem fartas do colonialismo e decidirem cumprir as regras tal como escritas, ignorando sanções suicidarias e dependência do sistemas internacionais, do qual podem ser cortados a qualquer momento, e fizerem pela vida? O que é que os tais “valores ocidentais” têm a oferecer em troca se nem produzem grande parte dos bens, principalmente os essenciais, os últimos dos quais dependem mais deles do que o contrário? As sanções já falharam, mas há que levar o erro até ao fim, e a estabilidade, tão vulnerável à carência de comida e energia, do ocidente que se dane – não há nada que não se corrija com um autoritarismo do bem que continue com o comércio aberto à hegemonia; de resto, como sempre foi, Europa incluída.
    Aqui entra também a China. Nem apoia nem deixa de apoiar, faz pela vida. A obsessão pelo genocídio nas duas colónias, bem como a reintegração revanchista de Taiwan (nunca reconhecida internacionalmente porque dava jeito contra a URSS, e isso nunca deu asneira) é uma tragédia extremamente lamentável, e até uma patetice de desperdício – nada que não estejamos habituados deste lado. Mas usar a soberania para negociar e transaccionar com quem quiser é o seu direito, não só de jure, mas de facto, porque, como se vai vendo, não se pode sancionar de quem se depende. Um confronto entre um país a bater de frente com uma crise económica auto-inflingida e com, vá, 40% de desafectados disposta a um golpe de estado para criar uma teocracia vs. um país estável e habituado a esperar pelos seus planos de longo prazo, não me parece muito boa ideia.
    Realpolitik é uma bitch, e está na altura de colher as tempestades semeadas. Não adianta nada brandir propaganda do bem (enquanto se acenar com a cabeça) quando não há papa na mesa.

  3. JgMenos says:

    Às armas!
    A experiência da II GG bem mostra o que se pode esperar de Estados totalitários.

    Aos totalitários sobrantes o capitalismo tirou-os da miséria mas não os demoveu do totalitarismo.
    Decididamente as respectivas ‘elites’ nada querem com ganhar poder pelo trabalho – querem o Estado a garantir-lhes o poder.

    A guerra está aí e não será tão fria como no passado.

    • POIS! says:

      Pois, e não mostra…

      O que se pode, afinal, esperar do capitalismo?

      Ou, como diria o famoso “penseur économique” gaulês JêgêMoins “le capitalisme est bel, les totalitaristes est que donne cap d’el”.

    • POIS! says:

      Pois mas, por outro lado…

      Ainda bem que a guerra vai ser quente. Assim, pode ser que não se note a falta do gás.

    • Paulo Marques says:

      Como é que podia tirar se sempre esteve bem com isso?

  4. Joana QUelhas says:

    “Não foi uma escolha inteligente.”
    Por acaso até foi , os democratas ás vezes também acertam. Agora não tenho tempo para explicar o porquê ao comuna grande estratega geopolítico.

    ” E convenhamos que, se Jinping ou Putin decidissem enviar um emissário a Cuba, acompanhado de um porta-aviões, um contratorpedeiro, um cruzador e um navio anfíbio, a América não se limitaria a protesta.”

    Esta analogia só seria correcta se os EUA estivessem a planear anexar Cuba não é ? Mas o comuna mendes não liga a detalhes que interfiram na sua narrativa…

    Joana QUelhas

    • POIS! says:

      Pois é, ó Qwuwellllasss! Citando Vosselência:

      “Esta analogia só seria correcta se os EUA estivessem a planear anexar Cuba não é ?”

      Resposta: não, não é! O que é que a intenção de anexar, ou não, tem a ver com isto?

      Já viu a distância que existe entre Cuba e os EUA? É ainda menor que a de Taiwan à China continental.

      O problema de Cuba não é a ameaça de anexação. É o de ser uma exceção numa área que os EUA entendem como coutada sua. Se se tratasse da Venezuela a reação dos EUA tenderia a ser a mesma, descontando-se as distâncias físicas, é claro, que alteram a perceção de perigo da população americana.

      Mas, sim, o João Mendes poderia ter arranjado melhor analogia. Era se o Putin resolvesse proteger Porto Rico, o tal território que é “estado” às segundas, quartas e sextas e “independente” e entregue á sua sorte às terças, quintas, sábados e sempre que esteja em dificuldades (*). O mesmo se passa com os direitos de cidadania dos porto-riquenhos. Uma vergonha!

      (*) Outra hipótese era o Putin querer reanexar o Alaska, Sara Palin incluída. Era capaz de ter o apoio de muito americano!

    • Paulo Marques says:

      Troque a Cuba por Venezuela ou Bolívia, e não muda nada.
      Ou segundo a propaganda, Argentina ou México.

  5. estevesayres says:

    Em ciências politicas e relações internacionais, todos sabemos, o que Senhora Nancy foi fazer!?

    • Paulo Marques says:

      Tentar distrair uma população super-endividada do colapso económico auto-inflingido com a necessidade de união, bem como tentar garantir um impossível apoio a mais tentativas desesperadas de manter a hegemonia tal como está.

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