Da literatura à politiquice

Como é habitual num blogue plural como é o Aventar, se um dos autores for visado ou criticado, publica-se a crítica e o autor que se amanhe. É esta pluralidade mais uma das razões que me levam a sentir orgulho de fazer parte deste colectivo.

Assim, foi publicado um texto de Joana Fonte em resposta a uma crítica que fiz a um outro texto desta autora. Passarei, então, a comentar a resposta em que sou visado, um texto carregado de tresleituras e de outros problemas que passarei a enumerar.

  1. Da suposta crítica à referência às habilitações literárias e à filiação partidária

Em momentos diferentes do seu texto, Joana Fonte afirma que critico o facto de se apresentar como mestranda em Ensino do Português e militante do Bloco de Esquerda. Basta reler o meu texto para confirmar que a crítica não é essa. Esclareço, aliás, para quem for mais duro de leitura, que é absolutamente legítimo que a autora apresente os títulos que muito bem entender.

As minhas críticas são outras e passo a repeti-las, pedindo que se leia devagarinho: como mestranda em Ensino do Português, Joana Fonte deveria usar instrumentos que as áreas dos estudos literários e da história literária põem à sua disposição; como militante de um partido de esquerda, escolhe um caminho que, na minha opinião, configura uma perversão dos ideais de esquerda, acumulando com o facto de que esse desvio contamina a visão que Joana Fonte revela acerca de Literatura e de Educação.

2 . Do direito absoluto à opinião

Joana Fonte consegue depreender que eu, ao fazer uma referência implícita à sua juventude (pelo facto de ser mestranda), estaria a defender que a autora não tem capacidade ou experiência para participar neste debate. São, efectivamente, tresleituras em catadupa ou, pior, na minha opinião, reacções de quem não gosta de ser confrontada com opiniões contrárias. Reafirme-se, então, o óbvio: Joana Fonte, como qualquer pessoa num país democrático, tem todo o direito a escrever aquilo que pensa, o que, por outro lado, pode implicar concordância ou discordância. Efectivamente, discordo de quase tudo o que Joana Fonte afirma e penso que, na verdade, as insuficiências que revela estão também relacionadas com o facto de lhe faltar estudo e experiência. Ainda assim, repito: liberdade de expressão absoluta.

3 . Da concentração absoluta n’Os Maias e de alguns problemas com fontes

No texto publicado no P3, Joana Fonte arrasava três obras do programa, Os Lusíadas, Os Maias e Mensagem. No segundo texto, concentrou-se no romance de Eça, talvez por uma questão de brevidade.

O objectivo de Joana Fonte passa a ser o de reforçar a ideia de que há passagens de índole racista n’Os Maias. Para isso, recorre a um texto altamente confuso de Jorge Fonseca de Almeida (sem sequer indicar a hiperligação), esquecendo-se, por vezes, das aspas, como acontece nos sétimo, oitavo e nono parágrafos. Jorge Fonseca de Almeida, por sua vez, reitera os argumentos, por assim dizer, de Vanusa Vera-Cruz Lima. Defendendo, mais uma vez, o direito de todos a escreverem o que quiserem, é espantoso que, num excurso sobre Eça, não haja uma única referência a um dos vários especialistas dos estudos queirosianos, optando-se por um… economista sem obra que conheça sobre o escritor em apreço.

A verdade é que não ficou demonstrado o racismo de Eça, reduzido a uma tese que não passa de uma opinião mal fundamentada, assente em interpretações abstrusas de um texto literário. A explicação para o alegado racismo de Eça (ou de outra pessoa qualquer) é, ainda, delirante e resume-se da seguinte maneira: como já havia no século XIX muitas pessoas que criticaram o racismo, ser racista passou a ser uma escolha dir-se-ia consciente – Eça teria à sua disposição ideias virtuosas, mas, talvez maldosamente, escolheu as viciosas, porque é desta maneira simples que se constrói a mentalidade do ser humano. Insista-se, a propósito, que Eça poderá ter sido racista – continua, no entanto, por provar.

Vanusa Vera-Cruz, Jorge Fonseca de Almeida e Joana Fonte estão preocupados em julgar obras e autores e a própria História, defendendo a importância de notas de rodapé ou uma indicação para que os professores transformem as aulas numa espécie de auto-de-fé em que os alunos seriam levados a perceber que há senhores que escrevem muito bem, mas que, de acordo com os nossos valores, são apenas escroques. Calculo que esteja para nascer, por exemplo, uma nova teoria que defenda que Camilo Castelo Branco deve ter direito a uma nota pedagógica por ser a favor da oposição paterna aos amores dos jovens.

  1. Dos professores a quem é preciso explicar o que têm de fazer

Joana Fonte faz, ainda, afirmações sobre mim, em particular, e sobre a classe docente, em geral. Afirma que me esqueço de que a escola é um “local de partilha de valores, costumes, crenças”, apressando-se a tirar conclusões sem conhecer a minha prática lectiva e ignorando muito do que escrevi no texto a que responde, o que prova que não o leu ou que prefere ignorar.

Nos mais de trinta anos de serviço, tenho-me deparado frequentemente com pessoas completamente cientes das insuficiências dos professores, pobres criaturas a quem é preciso explicar o que devem fazer. Também com muita frequência, são pessoas que têm pouca ou nenhuma experiência em actividade docente. Joana Fonte, que, na melhor das hipóteses, está no princípio da sua carreira docente, já sabe de que é que o universo docente precisa. Assim, Joana terá descoberto que estes temas (entre eles, o racismo, calculo) têm de ser discutidos na sala de aula e di-lo com a aparente convicção de quem descobriu a pólvora, porque estes “temas não podem continuar guardados numa gaveta.”

Qualquer texto literário traz agarrado a si pedaços do contexto em que foi escrito a que se juntam muitos farrapos do tempo em que está a ser lido, porque qualquer texto antigo passa a ser do nosso tempo quando é lido ou estudado. Quase de forma natural ou, tantas vezes, de forma organizada, há debates e reacções interessantíssimos relativamente aos valores e que ajudam a construir ou a reforçar, sim, os valores dos próprios alunos. Há uns vinte anos, assisti, entre o divertido e o orgulhoso, a uma revolta, quase um motim, contra o D. Afonso IV que, n’Os Lusíadas, mandou matar Inês de Castro. Não precisei, como não precisa nenhum professor digno desse nome, que algum iluminado me entregasse uma nota que me obrigasse a aproveitar a ocasião para que os alunos reflectissem sobre política, poder e amor numa época aparentemente e realmente tão afastada da nossa. Maravilho-me quase todos os dias com o horror que as alunas demonstram com a condição feminina em épocas mais remotas, aproveitando para lhes lembrar que há partes do Globo em que essa condição não é muito diferente. Nenhum professor é perfeito ou infalível, mas chega a ser insultuosa a convicção de que é preciso inundar de notas e de instruções um conjunto de profissionais experientes, ainda para mais com base em pressupostos puramente ideológicos e/ou mal sustentados.

Joana acredita que a maioria dos professores não faz alusão ao colonialismo e à violência que lhe é inerente quando se estuda Os Lusíadas ou o Auto da Índia? Talvez não fosse má ideia, antes de fazer afirmações vazias, assistir a várias aulas de diferentes professores.

Joana, num acesso de elitismo espero que inconsciente, defende que a disciplina de Português deve evoluir (não se percebe bem o que isso significa) e que eu deveria dedicar-me à leccionação de Literatura Portuguesa, disciplina que ficaria apenas para os privilegiados que quisessem frequentá-la, o que me parece muito pouco de esquerda.

  1. Da politiquice

Joana Fonte, independentemente das suas razões, tem todo o direito a não concordar comigo.

O que me parece mais grave no texto da Joana é a politiquice que encerra, a política partidária no seu pior, tiques tristes.

Primeiro tique típico: considera que as minhas opiniões são um ataque à esquerda, acrescentando que “há espaço para haver este debate de forma interna.” Depreende-se que este debate não deve andar assim pelas ruas com toda a gente a ver. Mais uma vez, agradeço a minha alergia a militâncias partidárias.

Segundo tique: o oponente deturpa palavras, põe em causa, insulta, desvaloriza. É sempre uma boa maneira de esconder a falta de argumentos, numa mimetização do “Não foi o que disseste, foi como disseste.”

Terceiro tique: ser de um partido implica não criticar um companheiro ou um camarada, a não ser, adivinha-se, que essas críticas tenham lugar num “debate de forma interna”.

Quarto tique: tentar apagar algo que se escreveu, o que nem sempre corre bem, numa época em que as versões dos textos anteriores são conservadas em arquivo. O texto que Joana Fonte publicou no Aventar é igual a outro. Este, no entanto, já teve uma versão com mais um parágrafo. Conjectura minha: Joana Fonte descobriu que haveria várias pessoas de esquerda a discordar das suas posições.

Quinto tique: vários comentadores que apoiam Joana Fonte partilham o mesmo IP, com variações de endereço electrónico no que se refere ao mesmo comentador. No Aventar, noutras épocas, passámos pelo mesmo. Se esta circunstância for uma repetição desses outros tempos, trata-se de tique típico e muito triste.

Em princípio, encerro aqui a minha participação nesta polémica, apenas no que se refere a debates com Joana Fonte ou com os seus companheiros de partido (muitos ou poucos, as caixas de comentários que o digam). De acordo com Jonh Gray, no seu Feline Philosophy, a primeira lição que os gatos dão aos seres humanos é “Nunca tentes convencer seres humanos a serem racionais” – acrescenta que isso faz tanto sentido como procurar ensinar um gato a ser vegano. No que se refere a Educação, o Bloco de Esquerda é demasiado humano. O mesmo se passa com Joana Fonte. A experiência e o estudo serão o único caminho. Entretanto, os governos sairão e entrarão e, dentro dos partidos, não há quem queira verdadeiramente pensar sobre Educação.

Comments

  1. Maria João says:

    Parabéns pelo texto e pelo teu excelente trabalho como docente de Português e de Literatura Portuguesa (que tenho o prazer de conhecer)! É de “dinossauros” como tu que a Escola precisa! Associar experiência a estagnação, com esta leviandade, não passa de uma tremenda falta de humildade (que o docente tem de conservar ao longo de toda a carreira para poder evoluir).

  2. Susana Pereira says:

    Excelente texto!
    Infelizmente, como professora de Latim e Grego, tenho assistido a muitas novidades com mais de dois mil anos. Será sempre assim, a ignorância é audaz.

  3. Anonimo says:

    “Termino o meu texto com uma questão direta a António Fernando Nabais: Porque é que acha que, maior parte das pessoas que estão a demonstrar um grande entusiasmo com a sua resposta, pertencem ao espectro político da direita, mais propriamente à Iniciativa Liberal?”

    Não podia faltar…

    (Porque? Por que?)

    • JgMenos says:

      És tu, Raquel?

    • Paulo Marques says:

      Porque faltaram às aulas de português e não sabem interpretar um texto.

      • Anonimo says:

        Ou porque quem discorda da evolução preconizada pela Joana, que é de esquerda, só pode derivar entre o neoliberal e o fascista. A conclusão do costume. Normalmente é assim, isto dos valores é como as moedas, uma das faces tem é que estar virada para baixo.

        • Paulo Marques says:

          A Joana foi preguiçosa, o que, mais do que querer saber do Eça e amigos, me faz concordar com o Nabais.
          Mas isso não muda que a razão pela qual concordam ser uma má leitura deste último. Não é uma questão de passarem a ser negacionistas do racismo por um tema, têm histórico de comentários.

          • António Fernando Nabais says:

            Não percebi este comentário. É mesmo curiosidade.

          • Paulo Marques says:

            A Joana lá sabe a quem se refere. Que haja os habituais a escolher palavras a dedo para o ponto que lhes apetece não quer dizer muito.

          • Anonimo says:

            Refere-se ao Nabais.
            Ela está “na esquerda”, o Nabais está do lado oposto ao que ela defende, logo é neo-liberal de direita. A prova? Os que defendem o seu (dele) texto estão nesse espectro político. Logo, são todos iguais.

          • Paulo Marques says:

            Ser oportunista com os oportunistas não é boa receita.
            Mas também não é uma questão económica, a menos que queira admitir que o racismo é uma arma inerente ao neo-liberalismo. Lá sabe o que defende, mas a definição estrita não vai a tanto.

    • Mário de Carvalho says:

      Pessoas que julgam ser a «esquerda» aparentada a primarismo, e com isso se consideram «de esquerda» dão frequentemente o flanco, ou, para utilizar uma expressão mais popular, «metem a pata na poça». Era só o que faltava deixar de ler Camilo por este ter sido um declarado reaccionário.

  4. Armindo de Vasconcelos says:



    Caríssimo Nabais, estás a precisar de ser avô… Não derrames tanta bondade com quem não (te) merece. E, sim, os mais de 30 anos de professor conferem-te o direito inalienável de seres como és. Na sala de aula e na vida. E, por mim, podes continuar a votar BE e a ser do Benfica. Assim como assim, ias fazer-me falta se mudasses. É que há cada vez menos gente para partilhar gostos diversos, até contrários. O respeito – até na forma como leccionas, escreves ou bebes um fino – é tão bonito.

    • António Fernando Nabais says:

      Porra, Armindo, também não havia necessidade de tanta ternura 😄

      • Ricardo Pinto says:

        Não me digas que vais chorar outra vez.

        • António Fernando Nabais says:

          Tu e o Armindo são pessoas que me deixam, com alguma frequência, com uma lágrima no canto.do olho. Peço desculpa se vos.estou a elogiar 😄😄

  5. JgMenos says:

    «o oponente deturpa palavras, põe em causa, insulta, desvaloriza. É sempre uma boa maneira de esconder a falta de argumentos»
    Uma lápide definidora de muitos dos comentários no Aventar, a começar pelos cães-de-porta.

    • António Fernando Nabais says:

      Eis o trollimero, um cruzamento de troll com calimero.

    • POIS! says:

      Pois…

      Escusava era de colocar a lápide na fachada lá de casa. Tá bem que o buraco ficava pior. E entrava muita barata.

    • Paulo Marques says:

      Olha, continuas sem espelhos? Essas projecções são tramadas. Mas como nunca respondes a nenhuma pergunta séria, só é enganado quem quer.

  6. Céline says:

    Suponhamos que Eça foi assumidamente racista. Era menor a qualidade da sua obra literária?

    • Paulo Marques says:

      Qualidade não é um adjectivo neutro de valores, e a qualidade do todo não é a soma ou média das qualidades dos constituintes. Mas também não é o mínimo.
      Cada um sabe de si; para mim é só chato que chegue para não querer saber. Em qualquer caso, nunca será dos piores exemplos.

    • Rui Naldinho says:

      Há anos li um comentário do Pedro Marques Lopes, sobre Rentes de Carvalho, a propósito do seu alinhamento político com a extrema direita holandesa, na altura em eleições legislativas:
      “… podes ser um cretino e escreveres bem”

      • Ou, no caso do Pedro Marques Lopes, pode-se ser um cretino e escrever mal.

        • Rui Naldinho says:

          Não sei se o Pedro Marques Lopes é um cretino ou não. Mas uma coisa eu sei, porque já li vários artigos dele. Assina tudo o que escreve pelo próprio nome. Não se respalda num perfil falso, estilo JPT, JgMenos, etc…

  7. motta says:

    Eu nem disse nada… mas sei de fonte segura que antes da Joana nascer já eu tinha aprendido, na escola, como professor, que muitas Joanas viriam a existir, não fosse a ignorância e a sobranceria a melhor cola nos sapatos para trepar ao estrelato do mainstream.

  8. João L Maio says:

    Aqui aprendi que se eu contar uma estória em que um dos personagens é racista, ou apresenta posturas racistas, mesmo sem que disso se aperceba, eu serei, automaticamente, racista. Muito bem, grande lógica de pensamento desta “minha” esquerda…

    Quer isto dizer que, se por algum acaso, me atrever a ler o Mein Kampf, serei, automaticamente, nazi.

    E se ler um artigo de opinião no Observador, serei automaticamente burro (não, aqui não estou a gozar, está comprovado que quem lê um, e basta um, baixa o QI!).

    • Rui Naldinho says:

      Não João, não és burro por ler uma vez ou outra, o Observador. Nem tu nem ninguém.
      No entanto já mostrarás alguma falta de lucidez se o leres de forma reiterada e, pior ainda, se o andares sempre a citar, estilo catecismo, como se aquilo que lá vem escrito fosse para ser levado a sério.

    • Paulo Marques says:

      Não estou a dizer que é o caso, mas é perfeitamente possível que a dita personagem seja a voz do autor, mais ou menos explícita, de forma a isso ser verdade.

      • António Fernando Nabais says:

        É sempre possível, claro, mas nunca é suficiente. Não me espanta que Eça, como muitos europeus brancos, acreditasse na superioridade do homem branco ou no seu papel “civilizador”, mas querer transformar um pormenor do de uma obra (entre outros, uma afirmação hiperbólica do Ega, personagem que fazia tudo para escandalizar) numa prova de que é uma obra racista é tão disparatado como afirmar que Eça era a favor do incesto porque o castigo de Carlos Maria Eduarda é ligeiro, como, de certa forma, é ligeira a forma como acaba o romance. Se há “raça” maltratada na obra é a portuguesa.

        • Paulo Marques says:

          Ora bem, nada contra. É só que nos exemplos que me lembrei para comparar ou as palavras são do narrador, ou o racismo não é assim tão simples de evidenciar.
          Uma parte importante de estar na esquerda é perceber que não há modelos perfeitos, mas não é por isso que devem ser desprezados.

  9. Orlando Sousa says:

    Caro Nabais
    Como se diz entre os arqueólogos-não gastes latim com bárbaros!

Trackbacks

  1. […] Da literatura à politiquice […]

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading