
Há 16 anos, no dia de aniversário de Vladimir Putin, Anna Politkovskaya era assassinada na escadaria do prédio onde vivia. A prenda de aniversário para Putin vinha da parte de Ramzan Kadyrov, na altura primeiro-ministro da Chechénia e hoje presidente desta república da Federação Russa. Kadirov, filho do grande mufti Akhmad Kadyrov, é um islamista, um delinquente como Putin, com um vasto passado de violência, assassinatos, tráficos lucrativos, etc. O acordo com Putin era simples. Kadirov fazia o que bem entendia na Chechénia, repressão, corrupção, tráfico, etc., mas tinha a obrigação de garantir o fim das pretensões separatistas. Putin, em troca, transferia fatias generosas do orçamento de estado para a Chechénia e para a conta de Kadirov. Anna Politkovskaya era uma voz inconveniente para este negócio, denunciou este acordo tácito entre os dois, bem como os esquemas criminosos em que estava envolvido Kadirov, denunciou ainda a repressão, a perseguição a homossexuais ou as restrições à liberdade das mulheres chechenas.
Mas o papel mais importante de Politkovskaya foi a denuncia bem documentada e detalhada da natureza do regime de Putin e em especial das forças armadas russas. O que o mundo tem estado a descobrir desde fevereiro já tinha sido escrito e documentado por Politkvskaya no início da década de 2000. Caracterizou a podridão instalada no regime de Putin ancorada numas forças armadas profundamente corruptas, onde a mentira é moeda corrente e a desumanidade tem como principais inimigas as associações de mães de soldados russos, as únicas que Putin não teve coragem de triturar até hoje. É graças a estas mães que Anna Politkovskaya tem acesso a processos judiciais contra variadas patentes das forças armadas, processos que raramente têm um desfecho. Esses preciosos textos plasmam uma hierarquia militar alienada da humanidade, violenta, acima da lei, onde o valor da vida dos soldados é praticamente zero e onde se mente, mente, mente, mente e mente sem freio. Descrevem-se com detalhe praxes militares de violência extrema, onde se morre, ou ainda a falta de material no campo de batalha da Chechénia, a falta de um teto ou de uma simples tenda para dormir, a falta de alimentos e de água, soldados que são obrigados a pilhar supermercados para ter o que comer. Estes textos ajudam a perceber bem a desorganização e o terceiro mundismo das forças armadas russas que constatamos nas reportagens que nos chegam da invasão da Ucrânia. O exército russo pouco evoluiu desde a II Guerra Mundial. Se na altura era compreensível que o sucesso das forças armadas da URSS dependesse muito da massa humana, ancorado em perdas de imensas vidas humanas, já no século XXI isso não é aceitável.
Para percebermos a desumanização que Putin instalou na cadeia das forças armadas, deixo aqui esta passagem de um dos processos descritos no livro de Anna Politkovskaya, “A Rússia de Putin” (2004):
“A queixa de Nina Levurda contra o Estado Russo foi analisada pelo Juiz Tiulenev do tribunal de Krasnaya Presnya, Moscovo, que concluiu que uma mãe não tinha “nenhum direito de informação” sobre o corpo do seu próprio filho (um soldado), e que o Ministério da Defesa não tinha obrigação nenhuma de lhe fornecer quaisquer dados.”
PS- Quem à esquerda ainda acha que o discurso do PCP sobre a invasão da Ucrânia por Putin faz algum sentido, leiam o que o PCP escreveu sobre Politkovskaya, ou melhor, o que não escreveu…






Também a Ucrânia já foi responsabilizada pelo assassinato de Daria Dugina: https://www.nytimes.com/2022/10/05/us/politics/ukraine-russia-dugina-assassination.html
E mantém milícias de assassinos neonazis.
Raramente temos bons e maus nestas questões. Temos simplesmente políticos e guerras de poder. Tentar demonizar uns e fazer dos outros os “campeões da paz” (pelos vistos o Zelensky é candidato ao Nobel da Paz, pasme-se) é simplesmente ridículo. Assim, o “o discurso do PCP sobre a invasão da Ucrânia por Putin faz algum sentido” sim senhor.
E eu sou insuspeito porque estou longe de ser comunista ou sequer simpatizante.
Mas certamente compreende e aceita que há o direito à legítima defesa quando se é atacado…
Claro que reconheço. A questão aqui é saber quem foi atacado por quem, e quem tem direito à “legítima defesa”. Os russófilos do Donbass foram atacados e mortos desde 2014, e pediram repetidamente à Rússia que interviesse. Certamente reconhece que eles também têm direito à legítima defesa, e a pedir ajuda quando são atacados.
E os ucranianos andam agora a caçar como animais (ou pior, porque não defendo isso nem para os animais) todos os russófilos que colaboraram cm os russos. Nada mau para quem invoca “o direito à legítima defesa”: https://twitter.com/MailOnline/status/1578077256269848577/photo/1
E a imprensa ocidental “fofinha” acha bem, claro.
Sempre foi mais rápido do que descobrir o assassino de David Kelly.
Veremos se na Ucrânia acontece o mesmo que na II GG: atrás de soldados inexperientes, esfomeados e mal armados, linhas de comissários políticos a cuidar que, sob pena de morte, não recuem.
E o PCP a louvar-lhes a valentia…
E se não acontecer, cá estará o Milhazes para dizer que é verdade.
E, mais uma vez, a questão não é se o regime é brutal, a questão é porque é que os EUA haviam de estar preocupados com regras e direitos com que nunca teve fora da retórica, ou o que é a limpeza de que fala o mentiroso compulsivo Zé. O responsável sério que apela a uma guerra nuclear.
Nem a Ucrânia é a Chechénia, até a NATO o diz. Chama-lhe incompetência porque não lhes passa que seja contenção para objectivos limitados, pois claro – mas não tanta que não seja uma ameaça à conquista do resto do mundo. É só uma chatice que seja a Eurolândia e o resto do mundo a pagar a factura, para nem falar dos pobres Ucranianos carne para canhão quando tiverem a escalada que tanto anseiam.
Certo é que quando os impérios lhe dizem que acaba antes do Natal, desconfie.
Paulo Marques
“E, mais uma vez, a questão não é se o regime é brutal, a questão é porque é que os EUA haviam de estar preocupados com regras e direitos com que nunca teve fora da retórica, ou o que é a limpeza de que fala o mentiroso compulsivo Zé. O responsável sério que apela a uma guerra nuclear”.
“E mais uma vez”, quando o tema do “post” é o assassinato de Politovskaya, às mãos dos algozes de Putin, porque é que os EUA são para aqui chamados ?
A “barreira de fumo” dos “admiradores” de Putin, sempre a “cobri-lo”…Na ameaça de uma guerra nuclear, entre os EUA e a Rússia de Putin, venha o diabo e escolha ! E parece que o filho da putin, não desdenha ser o primeiro a “puxar o gatilho”, para manter “a unidade da “Mãe Rússia”…É um patriota, o filho da putin !
Sim, chamar brutal sei que é um elogio para o Peralta, tem é que ser ao Outro certo.
É para aqui chamado porque parece que é o único exército com comportamentos de exército, como se o resto fosse tudo bonzinho, competente, e pacifista.
Pois tanto queriam, que acordaram hoje a fazer o que vendiam à 8 meses. Espero que saiba bem não o ter evitado.
“E, mais uma vez, a questão não é se o regime é brutal”…
Sim! A questão “NÃO É SE”…
A questão É QUE regime é mesmo brutal, e era sobre o assassinato de uma cidadã, que o post versava ! Mas sobre isso, vem a curva e a contracurva, para tripudiar o tema, e conduzi-lo para um lado que lhe é mais conveniente.
Mas sobre isso, havermos mais tarde ou mais cedo, de saber a realidade do regime russo, do seu autoritarismo, da debandada de milhares de reservistas que abandonaram o país enquanto puderam (“grande mentira” da imprensa capitalista…), e os que não puderam, e se se recusam à incorporação arriscam dez anos de prisão. E os que acederam, vão ser só carne para canhão. Quanto aos EUA, pelo menos tem um sistema eleitoral que lhes permitiu despedir o Trum(pa) grande amigo do Putin… Mal por mal…