A mais recente campanha publicitária do Lidl: quando o capitalismo selvagem se apropria das causas sociais

A mais recente publicidade do Lidl, aplaudida por tantos, mostra-nos crianças a brincar com brinquedos. Inovador, pensam vocês. Não, são só crianças a brincar com objectos de plástico. Mas por que razão foi tão aplaudida, perguntam vocês.

O aplauso advém da ânsia que a sociedade tem em ver grandes empresas, lobbistas ou o Estado resolverem os problemas que o povo desistiu de tentar resolver. A nova campanha publicitária do Lidl mostra-nos rapazes e raparigas, com idades entre os 1 e os 7 anos, a brincarem normalmente – a mesma foi aplaudida porque, supostamente, cria uma ruptura com a “normatividade”, pois há rapazes a brincar com conjuntos de princesas e raparigas a brincar com conjuntos de super-heróis. Estas práticas, toda a gente sabe, a sociedade já não consegue aceitar… ou será que a campanha do Lidl é uma distopia?

É mesmo. A campanha do Lidl é isso mesmo: uma estratégia de marketing pura e dura, onde a publicidade apelativa leve os leitores a serem potenciais compradores… numa altura em que estamos quase no Natal… e onde gastamos dinheiro… para as crianças. Visa, acima de tudo, vender: e numa época de polarização, que tal tentar fazer a venda apelando à Humanidade do potencial comprador, usando uma causa social pelo caminho para lá se chegar? É o que acontece aqui. E o Lidl já venceu a causa.

Venceu, porque usou uma fórmula que, hoje, é o B A B A do marketing: usar causas sociais (sejam os direitos das crianças, das mulheres, das diferentes etnias, das diferentes sexualidades) como combustível para apelar à compra. Venceu, porque, inteligente, não colocou o anúncio na TV, apenas o colocou nos folhetos, os quais chegam a grupos restritos de pessoas e… à internet, onde, aí sim, o Lidl sabia que faria as delícias de alguns internautas mais “woke” e que estes se encarregariam de partilhar a campanha do Lidl, fazendo publicidade gratuita sem que o Lidl mexa mais do que uma palha. Está de parabéns, o Lidl.

O Lidl é uma rede de supermercados, presente em 32 países, pertencente ao Grupo Schwarz (o maior grupo de retalho na Europa e o sexto maior do mundo), avaliado em cerca de 57.000 milhões de dólares. O seu objectivo é vender os seus produtos e a forma de lá chegar… pouco importa. Não podem, portanto, ser deixadas nas mãos de uma empresa capitalista, avaliada em biliões, as causas sociais que dizem respeito a toda uma sociedade… sem cotação em bolsa. O mais curioso é esta campanha ter surgido depois da notícia que dava conta de, num armazém alemão de um fornecedor do Lidl, terem sido encontrados pintainhos mortos, cadáveres debicados e galinhas mal tratadas.

O povo e as suas causas não são piada, não são bens de consumo, não são folhetos divertidos para vender plásticos. O povo é carne e osso. O povo e as suas causas não são matérias primas prontas a ser transaccionadas, como se os direitos sociais fossem meros produtos de consumo, como um Action Man ou uma Cinderela de plástico. Às empresas o que é das empresas.

Ao povo o que é do povo.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Também acho, João, mas que o Lidl use as estratégias que maximizam o seu lucro, outra coisa não era de esperar; agora ao povo – e eu acho muito bem chamarmo-nos assim, mas diria que só uma minoria se identifica a si própria como povo – é que falta o empenho e o espírito de luta para levar as suas causas em frente; nem ao votar mostra saber quem o defende, é ou não é? Fica o desabafo…

    • Pedro Santa Maria Lencastre e Sousa says:

      Ou seja, povo é estúpido!!! Nas eleições não vota nos partidos “patrióticos e de esquerda e que são contra o pacto de agressão”, QUE PENA!!! Permita-me uma sugestão: DEMITA O POVO!!!
      Se ao menos fosse como na SAUDOSA EX-URSS em que o PCUS ganhava sempre com 99,9%!!! Aí sim existia uma VERDADEIRA DEMOCRACIA com as AMPLAS LIBERDADES do “SAUDOSO” Dr. Cunhal

      • João L Maio says:

        Não, não foi isso que a Ana Moreno quis dizer e escusa de vir tentar desvirtuar.

        O povo não e estúpido. O povo, simplesmente, é mal informado e não é por culpa própria. O povo não detém meios de produção, logo, não é ao povo a quem temos de colar a estupidez, mas sim àqueles que os detêm e manipulam o povo em proveito próprio.

        Com esse nome, certamente prefere os regimes em que o Estado é Novo, onde ditadores acabam enforcados e onde tenebrosos genocidas se suicidam quando perdem guerras. Provavelmente, prefere a Rússia de agora. O povo não é estúpido, mas fica aqui provado que a burguesia, mesmo a que vive do restolho de antanho, ainda o é.

      • Paulo Marques says:

        Quem quer demitir o povo são os amigos dos Lencastres de bem, que quando piam querem que deixem de piar. A gente decente apenas lamenta, e quem tem mais jeito, tenta convencer.
        Aquela coisa da propaganda da suposta democracia liberal, não sei se conhece, que liberdades e voz é só para os Lidls deste mundo.

      • Ricardo Pinto says:

        O Sr Lencastre deve preferir as esmagadora maiorias do Dr Ventura, líder do seu Partido.

  2. JgMenos says:

    «apelando à Humanidade»

    Q inversão das impulsões naturais é um apelo à Humanidade; tá tudo bêbado!
    Fica o desabafo… do povo a olhar para a idiotia woke!

    • POIS! says:

      Pois ficamos a saber…

      Que o povo vive todo na mesma casa. Tem direito a quarto, arrumo e serventia de cozinha. Wc privativo e tudo!

      As saudades que ele tinha daquela modesta casinha tão bonita como o Menos!.

    • João L Maio says:

      “Q” e “tá”… está tudo bêbedo, pois claro.

    • Paulo Marques says:

      Como se sabe, é tão natural que as mulheres nascem com um tacho na mão e os homens com um volante, e nunca gostam de fazer o oposto.
      E nem é de hoje, é ir ler os gregos e romanos.

      • Anonimo says:

        Quem não nasce com tacho na mão deve inscrever-se numa Jota. lá chegará.

  3. João Mendes says:

    Bull’s eye, mate!

  4. Paulo Marques says:

    Não há uma causa que o capitalismo não seja capaz de vender, nem que seja em forma de tshirt. Também gosto muito quando me dizem que parte das embalagens é reciclada, por isso está tudo bem.

  5. As empresas também são o povo. São é uma forma de organização do povo que não é democrática. O povo, todo ele, também devia ter poder de decisão nos locais de trabalho, mas tudo se decide no topo e é imposto verticalmente sobre o “povo”. Se for o Estado criticamos, se for o patrão, achamos normal. Porque afinal ele é “dono” e tem a última palavra, mesmo que seja um, numa empresa onde trabalham milhares. Eis o liberalismo.

    • Paulo Marques says:

      E se não houver uma hierarquia de gente de bem, como é que há gente superior aos outros?

  6. JgMenos says:

    Isto da Humanidade dificilmente se faz com humanos!
    A cambada está a trabalhar no caso…

    • POIS! says:

      Pois!

      Pelo Menos, com alguns!

      Mas, ao que parece, Vosselência já está a trabalhar no caso…

    • Paulo Marques says:

      O humano aqui é o Lidl, ou são os brinquedos?

  7. luis barreiro says:

    O lidl sempre é melhor do que aqueles partidos que ao domingo organizam marchas pelo gays, e durante a semana defendem os ditadores de países que enviam os paneleiros para campos de concentração…

    …ou partidos que ao domingo organizam convenções pelo clima e ambiente, e durante a semana defendem os ditadores dos países mais pluidores do mundo……

    tantos exemplos de hipocrisia de alguns partidos

    • Paulo Marques says:

      É quase como se houvesse uma diferença entre governarmo-nos a nós e governarmos os outros à força de lhes rebentar com tudo. Não era essa a propaganda da abertura dos mercados nos anos 90? Maior liberalismo não há, incluindo nos resultados.
      Se acha que quem se governe sempre à custa dos outros é mais consistente está no seu direito, continua é a ser alvo de ridículo por não aceitar o resultado.

  8. João Cabral says:

    Nuns dias, rasgam as vestes porque a publicidade não é inclusiva, um sintoma do capitalismo; noutros dias, queixam-se que a publicidade é inclusiva, também um sintoma do capitalismo. E depois querem ser levados a sério.

    • Fernando Manuel Rodrigues says:

      O Mendes não é para levar a sério. Ele gosta mesmo é de “mandar umas bocas”. Por isso, escrever, escreve escreve… e a maior parte das vezes só sai asneira.

      • João L Maio says:

        Ó Mendes, anda cá ver isto, já te confundem comigo!

    • João L Maio says:

      “Rasgam”, quem?

      • João Cabral says:

        A esquerda radical.

        • João L Maio says:

          Diga-nos, a esquerda radical está nesta sala neste momento? O João ouve vozes?

        • João L Maio says:

          Agora sem brincar: João Cabral, gostei do seu momento “I see dead people”.

    • Paulo Marques says:

      Inclusividade é lavar a mensagem e pôr-lhe um preço. Estranho que essa definição não apareça no dicionário.

  9. Anonimo says:

    O próximo passo dos capitalistas vai ser usar a figura do Che para vender camisolas. Mas duvido que tenham sucesso, a malta esclarecida não se deixará enganar.

    • Paulo Marques says:

      Se ainda fosse tshirts… mas, sim, vivemos numa sociedade.

  10. Zé Povinho says:

    Aparecem aqui imbecis e Atrasados mentais, coitados, com os seus cérebros mirrados e anquilosados !
    Entretanto para não perderem vendas e clientes, continuam as Agencias de Viagens, a não informar que o Grande Museu Gizé do Cairo ainda está ENCERRADO! As pessoas viajam do Cairo, tendo os voos uma duração, (incluindo as esperas), de noite inteira, 12h, Isto incluindo velhos, sem se importarem das consequencias para a sua saúde. Neste capitalismo selvagem a ganancia obsessiva do lucro é tal que tudo vale, até ás últimas consequencias…Porcos capitalistas, feios e maus!

    • Paulo Marques says:

      O Cairo vai fechar para os turistas para dar lugar a um projecto faraónico a sul no meio do nada, e o que o preocupa é o museu do que os britânicos não levaram?

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