
Não tenho toda a informação que gostaria para ter uma opinião formada. À velocidade que hoje circula, já não dá para acompanhar porra nenhuma. A overdose de temas, polémicas, romances, notícias, tiktoks, cenas do futebol, cenas da CMTV, escândalos, dramas, tweets e duelos virtuais danificou irreparavelmente o meu foco.
Ainda assim, tenho a forte sensação de que o ICE se transformou numa espécie de Gestapo, com as suas máscaras e passa-montanhas, o seu equipamento táctico e o seu orçamento militar, a aterrorizar não apenas imigrantes ilegais, como residentes e cidadãos regularizados e documentados. Às ordens directas do pior dos presidentes.
Já se viram congressistas e senadores estaduais e nacionais detidos, um juiz algemado e ameaças de uma possível detenção e deportação de Zohran Mamdani, o socialista em ascensão no Partido Democrata, aparentemente o melhor posicionado para vencer as autárquicas em Nova Iorque. Chega a ser comovente, ver artistas de variedades sul-americanos e caribenhos, que cantaram e dançaram por “Mr. Trump”, agora detidos, deportados e indignados:
- Una injusticia!
Pois claro que é uma injusticia, Janet. Mas estavas à espera de quê? Não o ouviste dizer ao que vinha? Achavas que contigo ia ser diferente, se nem alguns cidadãos nascidos em solo americano estão a salvo?
Enfim.
Tudo muito triste. Tudo distópico e misantrópico, violento e impiedoso, oligárquico até ao tutano. Corrupção de estado sem rédea, nepotismo na Casa Branca, corredores apinhados de yes men, a presidência transformada em central de negócios cotados em $TRUMP, subornos no Médio Oriente, corrida ao armamento na Europa, bombas no Irão e tarifas à medida do bom velho insider trading.
Parece-me mais ou menos evidente que os EUA estão em transição para uma autocracia formal. Sempre o foram em alguns aspectos, é certo, como na política externa e, em certo sentido, num bipartidarismo ao qual é praticamente impossível aceder sem vender a alma aos lobbies. Mas aquilo a que hoje assistimos não tem precedente.
As sólidas instituições que tantos elogiavam não parecem capazes de deter o novo regime. Os tribunais são vítimas de bullying, os democratas estão globalmente paralisados e a separação de poderes é cada vez mais do domínio da ficção. O fundamentalismo religioso institucionaliza-se. Trump é o “Escolhido”, a “Verdade”, dizem pastores evangélicos em êxtase e cocaína, vendo nele a autoestrada perfeita para a missão dos pregadores da New Apostolic Reformation. Se não ouviste falar, pergunta ao Google. Vais ficar encantado.
Enquanto o Bible Belt põe se instala confortavelmente nas instituições, Steve Bannon garante que Trump concorrerá a um terceiro mandato, algo que a Constituição proíbe. Mas que se lixe a Constituição, a República e os Founding Fathers. Com Trump, tudo parece ser possível. Até convencer a classe média remediada do interior do país que cortar os seus parcos auxílios estatais para dar borlas fiscais ao 0,1% é bom para eles. E eles acreditam.
Resistir ao contágio desta insanidade é urgente. Mas a julgar por aquilo que já se vê na Europa, entre aspirantes e colaboracionistas, não será tarefa fácil. O tempo é de anarquia nas relações internacionais, com o bully mais forte do recreio a ameaçar todos os meninos, incluindo os meninos que eram seus amigos há 80 anos. É viver enquanto dá. Por enquanto, ainda não há mascarados na rua a prender-te porque sim. Mas já começam a aparecer alguns tolinhos que imprimem armas, planeiam atentados, dizem que mulher não vota, que imigrante é criminoso e que tudo o que for mais escuro que bronze mediterrâneo é para espancar. Que vão a programas de televisão e podcasts reclamar a liberdade de expressão que ninguém lhes nega. Até porque isto nunca foi sobre de liberdade de expressão. É sobre gangues de extrema-direita que sonham instaurar uma ditadura pela força. Com ligações conhecidas a esses mesmos fãs de Trump em que estás a pensar.






«os EUA estão em transição para uma autocracia formal. Sempre o foram em alguns aspectos…»
E a cambada por tantos anos a desdenhar das democracias ocidentais proclamando a multipolaridade autocrática!
Foram ouvidos pelo Trump, que como todo o grunho se imagina autocrático por direito próprio.
Um autocrático multipolar que simplesmente quer estar no topo da máfia que até agora colhe rendas do resto do mundo à força mais ou menos transparente.
Como sempre, basta redefinir as palavras e torcer a realidade. Mas há as que não dobram: a falta de produção, a incapacidade de investimento, a falta de recursos, e a dívida privada.
A resistência europeia durou, sendo generoso, duas semanas, uma vez que a elite foi aprovada pelas melhores universidades, institutos e organizações transatlânticos, e acham que lhes resta um lugar privilegiado na ordem americana. Até podia, mas precisava de, como o mui democrata projecto de leste, mandar os jovens morrer contra os bárbaros à espera que o capital lhes fornecesse as balas e mísseis.
Sabem que muda daqui a 3 anos e meio e optam pela táctica de empurrar com a barriga até os congéneres voltarem a colocar um manto de respeitabilidade retórica sobre a mesma política. Boa sorte. Afinal, apenas custou a completa dependência energética da última vez.
O pavor é evidente nos vossos comentários — e com razão!
Após décadas de domínio da “intelligentsia” nas universidades, nos meios de comunicação e nos meandros mais profundos da burocracia de inspiração estalinista, assistem agora, diante dos próprios olhos, à derrocada desse sistema.
O desinteresse dos eleitores pelas teorias esquerdistas e igualitárias – que tanto contribuíram para o empobrecimento das suas vidas – é, para muitos, incompreensível e, por isso mesmo, aterrador.
O velho esquema deixou de funcionar. Estamos a presenciar o estertore de um moribundo: o “esquerdismo contaminado pelo pós-modernismo”. Que descanse em paz um moribundo: o esquerdismo contaminado pelo pós-modernismo. RIP
P.S.: “… Mas que se lixe a Constituição, a República e os Founding Fathers …”
Um grande feito do Trump foi pôr os comunas a dizer bem da Constituição Americana e dos Pais Fundadores, belo, belíssimo…
Joana Quelhas
Estimo as melhoras..
Pois está muito bem! Aliás, genial!
A metáfora do “estertore”. É assim uma espécie de estore que se está a ir embora, deixando tudo à vista desarmada (na Europa. Nos EUA está armada até aos queixais!).
Agora não escapam! A Quwelllhhass topa tudo! E já não precisa de espreitar para os buracos!
Ofuscar a verdade não faz dela real. Uns desistem de votar, outros passam a votar, meia dúzia muda de ideias que nunca foram fundados, e amanhã voltam a mudar.
Agora comunistas a defender a constituição de defesa do colonialismo e escravatura continua a não haver, só democratas liberais a achar que o mundo volta atrás.
A joana quelhas nunca irá perceber que com tanto empobrecimento já ninguém se lembra que em 1980 ter uma TV em casa ainda era objecto de luxo.
No fim da década, quase 8 em cada 10 televisores em casa dos tugas eram ainda a preto e branco.
é como diz o pastorinho, isto da democracia tuga foi sempre a cair. Coitados.
A joana quelhas podia aproveitar e falar dos 20 e tal mil milhões de euros que foram a voar para a banquinha privada tuga, isso é que era, já que agora depois de tanta esmolinha da esquerda os juros bancários sejam do tamanho das formigas, e já agora, podia explicar a como é que a elite ganhou tanto nas últimas décadas face à classe média, isso é que me parece que é o grande problema do “esquerdismo contaminado pelo pós-modernismo” (seja lá o que isso queira dizer).
Importante o regresso dos Indios e Redskins. Depois ê pôr fora os Epstein files. Deportar o Musk.
De resto, eles ou os chineses. Big satã vs BRIC.
O que é “o ICE”?
Que eu saiba, ICE é o nome dos comboios de alta velocidade trans-fronteiriços na Europa.
Quando se escreve um post, convém explicar aos leitores do que se está a falar. Acho eu…
Vanilla ice.
O que é o ICE, pergunta o sr Balio ?
Isto num post sobre os Estados Unidos e Trump.
E esse Trump, quem será? Em que equipa de futebol joga ?
Enfim é o que temos