Um Governo para a sua clientela. E vocês não fazem parte dela.

Não sei quem é o autor do texto. [É de Eduardo Maltez Silva] Mas não poderia estar mais de acordo.

Já o vídeo, esse sei de quem é. É do ministro Leitão Amaro, que aproveitou a desgraça alheia para auto-promoção. Vídeo que apagou  logo que se tornou óbvio que o efeito era contrário ao pretendido – mas sacudindo a água do capote, típico da habitual cobardice de quem não assume o que faz.

Leitão Amaro num vídeo de edição profissional para auto-promoção

“No auge da crise, o Governo lança um vídeo com produção profissional, música de fundo e mangas arregaçadas — a fingir que governa. Um teatro nojento, enquanto o país caía aos bocados.

Do outro lado, Ventura apaga fogos com um galho.
Dois lados da mesma fraude… performance em vez de solução.

Começámos com um SMS a fingir que “ventos até 140 km/h” eram informação suficiente para alguém tomar decisões.

Sem explicar que isso queria dizer: telhados a voar, árvores a esmagar carros, a tombar sobre casas. Armazéns e pavilhões que colapsam. Estruturas metálicas que cedem. Cabos espalhados pelo chão. Dias inteiros sem luz, sem água, sem comunicações.

Um alerta sério não despeja um dado técnico e sacode a responsabilidade.
Um alerta sério traduz as consequências e dá ordens claras.

Devia ter dito: não saia de casa. Não vá trabalhar. Retire os carros das zonas com árvores. Proteja as janelas. Prenda tudo o que possa ser levado pelo vento. Tenha lanternas, água e alimentos à mão. Conte com longas falhas de electricidade e rede móvel.

Prepare-se para o pior — porque era disso que se tratava.

E o mais grave? Aviso houve.

O IPMA alertou com antecedência. Sabia-se que a zona Oeste ia ser atingida com violência.

Ainda assim, o nível 4 de prontidão só foi activado 12 horas antes da chegada da Kristin — já ao final da tarde do dia 27, quando “prevenção” era pouco mais do que ir a correr limpar umas sarjetas.

Autarcas, Protecção Civil, bombeiros — sozinhos, sem apoio político — a decidir para onde iriam os poucos recursos disponíveis: um lar, um centro de saúde ou um reservatório?

Entretanto, o Governo… demorava.
Demorava a assumir formalmente o estado de calamidade.

E, quando finalmente o fez, foi com efeito retroactivo — não para comandar a resposta, mas para legalizar o que já estava a ser feito por quem, na prática, foi deixado entregue a si próprio e não podia ficar parado.

Estavam tão alheados do que se passava, que só depois de irem ao terreno — de Mercedes e com motorista — é que perceberam o óbvio.

O Primeiro-Ministro disse: “O que hoje pude sentir no terreno foi que os efeitos desta tempestade são mais do que era expectável.”

Mas está a gozar connosco?
Só depois de ir ao local — dias após a tragédia, e rodeado de assessores — é que se apercebeu do grau de devastação?

O silêncio foi ensurdecedor: não houve qualquer reunião da Comissão Nacional de Protecção Civil.
Nem antes, nem durante, nem depois.

Ou seja, ausência total de coordenação política entre ministérios, especialmente entre a Administração Interna e a Defesa Nacional.

Nem sequer foi activado o Plano Nacional de Emergência de Protecção Civil — aquele que serve precisamente para mobilizar, de forma coordenada, meios públicos e privados.

Bruxelas já fez saber que pode enviar geradores através da Protecção Civil da UE — mas nem um pedido foi feito pelo Governo.

Isto não é aproveitamento político.
Isto é um grito de indignação perante esta simulação de Governo.

Durante as horas críticas, a Ministra da Administração Interna não apareceu.
Não liderou, não comunicou, não deu a cara, não assumiu o comando.

Nada. Desaparecida.

Ninguém veio dizer: “Isto é grave. Estamos aqui. Estas são as prioridades. Este é o plano para as próximas 12 horas.”

Em vez disso, ouvimos generalidades, frases feitas, um Primeiro-Ministro a lamentar o “acontecimento” e a repetir que “está tudo a ser feito” — sem nunca explicar o quê, por quem, onde ou quando.

Anunciam-se milhares de milhões para investimento militar, enquanto o país não tem resiliência básica?

Que “segurança nacional” é esta, em que uma tempestade derruba os serviços de água, energia e comunicações durante dias?

Onde está a engenharia militar para estabilizar telhados, proteger edifícios, erguer coberturas temporárias, montar estruturas provisórias, garantir o regresso em segurança?

As Forças Armadas não existem apenas para desfiles.

Servem também para a engenharia, a logística pesada, as telecomunicações e a protecção de infra-estruturas críticas em cenários de catástrofe.
Isso também é defender o país.

O que falta não é dinheiro.
Nem conhecimento.
Falta comando. Falta decisão. Falta um Governo que governe.

Passadas 55 horas, havia apenas três destacamentos do Exército no terreno: um na Marinha Grande, dois em Ferreira do Zêzere.

Três.

Num país com regiões inteiras sem água nem comunicações.
Esta foi a resposta do Ministério da Defesa?

Se não fosse a Protecção Civil, os bombeiros e os autarcas no terreno, o país teria mergulhado no caos.
As populações teriam ficado ainda mais abandonadas.

Para esta gente, governar é um aborrecimento.
O essencial é fazer videozinhos para fingir que governam.

O povinho? Sempre a chatear com os seus problemas…
Nem o Santana Lopes teve direito a uma chamada do Governo… quanto mais estes “chatos do caraças”.

Ainda não perceberam?

Montenegro não criou um Governo para vos aturar — nem a vocês, nem aos vossos problemas.
Este é um Governo para a sua clientela.
E vocês não fazem parte dela.”

Comments

  1. Só está surpreendido quem quer. A seguir, a estratégia é ver o que pode ser privatizado para aumentar a agilidade da próxima vez.

    • E, afinal de contas, se os trabalhadores podem ir produzir em quaisquer condições no meio duma pandemia em que se morre asfixiado, porque não ir produzir em quaisquer condições no meio dum em que se morre afogado? Vai dar ao mesmo.

  2. Esta gostei:
    “Já o vídeo, esse sei de quem é. É do ministro Leitão Amaro, que aproveitou a desgraça alheia para autopromoção. Vídeo que apagou logo que se tornou óbvio que o efeito era contrário ao pretendido – mas sacudindo a água do capote, típico da habitual covardice de quem não assume o que faz”!

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