À Luz Insólita Ramos-rosiana

Foi na Faculdade que em mim primeiro cintilou o encantamento pela poética ramos-rosiana. A impressão do gosto, da suavidade, da linearidade rugosa do texto, da luz insólita, ficou-me como o frutado de um bom vinho tinto algures na degustação, ficou-me como se tivesse sido eu. Desde então, o meu escopo não era bem lê-lo, mas ser-lhe similar, acumulador em palimpsesto de aromas poéticos rumo ao meu projecto de me tornar num Novo Camões, num Super-Pessoa.

Pergunta idiota

Posso dizer do António Ramos Rosa, dele não li um poema que me fosse às ventas e logo me ajoelhasse?

um homem morreu. mas não era só um homem. era poesia. ainda é.

O A. Pedro Correia já deu a notícia aqui, mas quando morre um poeta, é preciso escrever em toda a parte e infinitamente que a poesia não morre nunca. Morreu um homem. Chamava-se António. Era poesia. Ainda é. Está vivo. E escreve sol. 

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«Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde»

(António Ramos Rosa, ‘estou vivo e escrevo sol’)

 

Fotografia roubada ao Artigo 21.º

António Ramos Rosa 1924/2013

Morreu um poeta. Chamado Rosa, Ramos Rosa. António.

 

Viste o cavalo varado a uma varanda?

 

Viste o cavalo varado a uma varanda?

Era verde, azul e negro e sobretudo negro.

Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.

E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro

como uma lua nua ou como um sol suave

e o cavalo varado abria a noite inteira

ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra

de todo um verão feliz e de uma sombra de água.

Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste

o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.

Apple e Nós

Apple faz rios de dinheiro em apenas três. Nós perdemos Poetas Absolutos com 32120 dias. A Maça e a Rosa.