Raquel Varela: Alexandre Guerreiro, és tu?

Li algures que existem pessoas que a certa altura decidem ser do contra por ser contra. Por muito desmiolada que possa ser a sua opinião e sendo elas pessoas não destituídas de inteligência. Dizem-me que é uma defesa. Um mecanismo natural do cérebro a defender-se de uma realidade que não querem ou não podem aceitar.

Eu sempre considerei a Raquel Varela uma pessoa sensata e dotada de inteligência. Mesmo não estando de acordo com imensas das suas opiniões. Mais, há meses fui um dos que escrevi que cheirava a perseguição toda aquela história das suas habilitações académicas e os “papers” supostamente repetidos. Por isso ainda estou incrédulo com as suas atitudes, mais do que as suas opiniões, no tocante à guerra na Ucrânia. O que leva Raquel Varela a parecer um Alexandre Guerreiro de saias nesta temática?

A última foi na passada sexta-feira, no programa na RTP em que participa, “O último apaga a luz”. De repente e com um ar até um pouco estranho, Raquel Varela começou a debitar que a bombardeada maternidade de Mariupol* tinha lá dentro o batalhão AZOV e que nem sequer estava a funcionar como tal. Bem, eu das “fontes russas” já tinha ouvido/lido que o ataque à maternidade tinha sido feito não pelos russos mas pelo tal batalhão AZOV. Mais tarde, como a coisa não pegou, veio uma nova versão, afinal tinham sido eles, russos, mas a maternidade já não funcionava como tal e era poiso do batalhão dos neo nazis do batalhão AZOV. Agora, confesso, não esperava ver uma Raquel Varela, transfigurada, em fúria e de cabeça quase perdida a debitar propaganda russa. Porquê? A que propósito?

Podia ter sido um caso isolado. Podia existir um qualquer erro de percepção solitário. Quem nunca? Só que não é. É uma narrativa constante de Raquel Varela no que toca à Guerra na Ucrânia e aos ucranianos. Alguns exemplos do que tem dito e escrito:

“É completamente incompreensível o cerco e a provocação que a NATO faz à Rússia através da Ucrânia” afirmou. Raios, a Ucrânia é que foi invadida. Será assim tão difícil de entender que essa narrativa não cola? Outra: “Zelensky provocou Putin com a adesão da Ucrânia à NATO”. Santo Deus, outra vez a história “a gaja até estava de mini saia”. E continua: “O que vem aí agora: A Ucrânia vai-se sentar à mesa das negociações e aceitar os termos da negociação que a Rússia vai impor” ou  “Isto que a Ucrânia fez é completamente suicida”.

Citando Luís Ribeiro, “Morreu a mãe e morreu o filho. E continua a haver gente a dizer “Sim, mas…”. “Mas a NATO. Mas os EUA. Mas o imperialismo. Mas o belicismo. Mas os nazis.” Expliquem todos esses “mas” ao bebé que morreu antes de viver”.

*The pregnant woman in the photo has died, according to the Associated Press. Her unborn child has also died. The woman was injured in the Russian attack on the maternity hospital in Mariupol on March 9. Photo: Evgeniy Maloletka via Instagram.

 

O batalhão Azov e os seus primos

O sentimento anti-guerra está a crescer na Rússia, com as pessoas no país a “rapidamente começarem a perceber quem é o responsável por iniciar o conflito”, anunciou esta terça-feira o líder da oposição russa, Alexey Navalny – diversas sondagens realizadas pela Anti-Corruption Foundation, organização fundada pelo líder política, que descobriu que houve “rápidas mudanças na avaliação da guerra” entre o povo russo. “Sem dúvida, o Kremlin também pode ver essas dinâmicas, daí o nervosismo, as tentativas desesperadas de encerrar a campanha de guerra o mais rápido possível. O impulso antiguerra vai continuar a crescer em toda a sociedade, então os protestos antiguerra não devem ser interrompidos sob nenhuma circunstância”, apelou Navalny.

Eu suponho que aqueles que dizem que Zelensky ao não se render está a levar o povo ucraniano para a morte, venham agora dizer que Alexey Navalny está a levar o povo russo para a morte ao incentivar os protestos anti guerra. Mas, vamos ao que interessa, o tal batalhão Azov.

O pelotão Azov é composto por neo nazis e outros fascistas do mesmo género que pululam pela Ucrânia. Ora, Putin e a sua máquina de propaganda, onde não faltam desde aliados no ocidente (porque será???) até meros idiotas úteis, não se cansa de bradar e sublinhar este facto. É natural. Como é natural relembrar os direitos LGBT na Palestina – a homossexualidade é ilegal (?!) na Faixa de Gaza. A autoridade religiosa é profundamente fundamentalista. Em geral, a comunidade LGBT enfrenta a rejeição, hostilidade e até violência física em Palestina. Da mesma forma, segundo a IMAGES, 21% das mulheres palestinianas entrevistadas para o seu relatório, confirmaram já ter sido alvo de violência doméstica fruto da tradição e cultura palestiniano. E nem vale a pena referir tudo o que se sabe sobre o Hamas.

Mas, afinal, onde é que eu quero chegar? Simples: Estes comportamentos e ideologias destes grupos na Palestina invalidam a luta pela liberdade e contra a ocupação das suas terras por parte do Povo da Palestina? Não.  A ideologia por detrás dos membros do pelotão AZOV invalida a justeza da luta do Povo ucraniano? Também não. Não vamos misturar alhos com bugalhos nem fazer o jogo da propaganda putiniana. Porque esta coisa de “aquele terrorista/fascista é melhor do que aquele outro” cheira a hipocrisia. Não cheira, tresanda.