Sobre aquilo que começou com Vasco da Gama e acabou faz agora 50 anos

Contêm partes eventualmente chocantes e uma das razões porque ao passar na Ponte Vasco da Gama tenho vergonha de ser português.

Então [Vasco da Gama] mandou aos batéis que fossem roubar os pageres que eram dezasseis e as duas naus, em que todos acharam arroz e muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Então tudo isto recolheram aos navios e a gente toda das naus grandes, e mandou que recolhessem o arros que quisessem, que tomaram quatro pageres, que vazaram, que não quiseram mais. Então o capitão-mor mandou a toda a gente cortar as mãos e orelhas e narizes e tudo isto meter em um pager, em o qual mandou meter o frade [o brâmane que, ao chegar a frota a Calecute, entrou a bordo] também sem orelhas, nem nariz, nem mãos, que lhas mandou atar ao pescoço com uma ola para ele-rei, em que lhe dizia que mandasse fazer caril do que lhe levava o seu frade.

E a todos os negros assim justiçados mandou atar os pés, porque não tinham mãos para se desatarem, e porque se não desatassem com os dentes com paus lhes mandou dar neles que nas bocas lhos meteram por dentro, e foram assim carregados uns sobre os outros, embrulhados no sangue que deles corria, e mandou sobre eles deitar esteiras e ola seca e lhes mandou dar as velas para terra com o fogo posto, que eram mais de 800 mouros, e o pager do frade com todas as mãos e orelhas também à vela para terra sem fogo, com que foram logo ter a terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que acharam vivos, com que fizeram seus grandes prantos.

Gaspar Correia, Lendas da Índia

A nossa decadência nestas partes é inteiramente devida ao facto de tratarmos os nativos como se fossem escravos e pior do que se fôssemos mouros

António de Melo e Castro, Vice-Rei da Índia, 1664

Retirado da compilação Ministros da Noite, Livro Negro da Expansão Portuguesa, de Ana Barradas, Antígona, 1991

Há 50 anos, a invasão

Quando Soares visitou Goa, uma cerimónia esperava-o no Palácio do Hidalcão e as necessárias formalidades protocolares foram cumpridas.

Ao ver a bandeira portuguesa subir no mastro, um velho goês, ostentando as suas condecorações dos seus tempos de servidor do Estado Português da Índia, disse a quem o quis ouvir, neste caso os milhões que na altura seguiam o telejornal da RTP:

-“Há trinta anos que esperava por este momento!”

Como já se tornou habitual, Soares regressou de Goa, Damão e Diu, declarando-se “espantado” pela ainda tão forte presença nacional naqueles territórios. Se isso lhe serviu de lição às balelas ocas que o Esquema vigente propala, ou contribuiu com algo que pudesse acarinhar aquelas gentes e manter os laços culturais com a antiga pátria, essa é uma outra questão. Aliás, nem sequer é questão, pois não existe.